quarta-feira, 7 de maio de 2014

A TOLICE DE OLHAR PARA TRÁS AO FUGIR DE SODOMA - SERMÃO 2


Lembrai-vos da mulher de Ló.” (Lucas 27:32)
A doutrina que retirei dessas palavras foi: “Não devemos olhar para trás ao fugir de Sodoma.” Tendo confirmado essa doutrina com diversos argumentos, viemos à sua aplicação como forma de alerta aos pecadores em seu estado natural, e em especial àqueles que estão sendo despertados e convencidos do miserável estado em que se encontram, e desejam escapar da ira vindoura. Como forma de reforçar este alerta, permitam-me implorar a todos que estão neste estado para que considerem as coisas diversas que passo a mencionar:
1. A destruição que os ameaça é infinitamente mais temível que a destruição da Sodoma real da qual Ló escapou. A destruição de Sodoma e Gomorra por uma tempestade de fogo e enxofre não foi senão uma sombra da destruição dos ímpios no inferno, e não representa senão uma sombra ou imagem da realidade, equivalente a uma pintura do fogo em relação ao fogo real. A miséria do inferno é apresentada por uma variedade de sombras e imagens na Escritura, como escuridão das trevas, um verme que nunca morre, uma fornalha ardente, um lago de fogo e enxofre, o tormento do vale dos filhos de Hinom, uma tempestade de fogo e enxofre. A razão de se usar tantas alegorias é porque nenhuma delas é suficiente. O que todas fazem é apenas representar a verdade de modo parcial e muito imperfeito, portanto, Deus faz uso de muitas delas.
Vocês têm, portanto, muito mais necessidade de escapar apressadamente - e de não olhar para o que está atrás - do que tinha Ló e sua esposa quando fugiam de Sodoma. Isto porque estão a todo dia e momento em perigo de uma terrível tempestade, mil vezes pior sobre suas cabeças, do que aquela que veio sobre Sodoma quando o Senhor fez chover sobre ela fogo e enxofre de sua parte dos céus. Portanto, será tolice muito maior se olharem para trás do que foi para a mulher de Ló.
2. A destruição que os ameaça é não apenas maior que a da Sodoma real, mas é maior que a destruição eterna que abateu os habitantes de Sodoma. Pois não importa o quanto se achem bons, pois continuaram sem arrependimento sob o glorioso evangelho, pecaram e provocaram a Deus muito mais, e têm sobre si maior culpa que os habitantes de Sodoma, mesmo que aos seus olhos, e talvez aos outros, pareçam criaturas bastante inofensivas. (Mt 10:15): “Em verdade vos digo que menos rigor haverá para Sodoma e Gomorra, no Dia do Juízo, do que para aquela cidade.
3. Enquanto estavam a olhar para trás, multidões foram repentinamente tragadas e abatidas pela tempestade de ira. A ira de Deus não se demorou enquanto eles demoravam; não esperou um momento sequer para que se virassem e fugissem, mas os abateu e acabaram-lhe as esperanças. Quando a mulher de Ló olhou para trás, foi imediatamente destruída. Deus já havia exercido paciência para com ela antes. Quando hesitou na retirada, os anjos a pressionaram e com seu esposo e filhas para que se apressassem. E não apenas isso, mas quando eles também se atrasaram, os anjos a agarraram, e a retiraram da cidade, sendo-lhe o Senhor misericordioso. Mas agora, quando, apesar dessa misericórdia, e dos avisos que lhe haviam sido dados, ela olhou pra trás, Deus não mais teve paciência, mas de imediato a executou.
Agora, Deus de modo semelhante lhes tem sido misericordioso. Vocês, no passado, hesitaram; foram avisados pelo anjo do perigo que corriam, e foram apertados para que se apressassem e fugissem. Ainda assim, adiaram a fuga. E agora, enfim, Deus, por assim dizer, se encarregou de vocês, pelas convicções de seu Espírito, para retirá-los de Sodoma. Portanto, lembrem-se da mulher de Ló. Se agora, depois de tudo, olharem para trás, depois de Deus lhes mostrar tanta misericórdia, terão razão para temer que Ele repentinamente os destruirá. Multidões, enquanto olhavam para trás, e adiavam por mais um tempo, nunca tiveram outra oportunidade; foram repentinamente destruídas, e sem possibilidade de remédio.
4. Se vocês olharem para trás, e viverem muitos anos depois disso, há grande perigo de que jamais vão adiante. O único modo de buscar a salvação é esforçando-se por ela com toda a sua força, e ainda olhar e seguir em frente, sem jamais parar ou diminuir o passo. Quando a mulher de Ló parou em sua fuga e deteve-se a fim de olhar, o seu castigo foi que lá ficasse para sempre. Jamais foi a outro lugar, nem nunca saiu dali: mas lá permaneceu como uma estátua de sal, um duradouro pilar e monumento de ira, por sua tolice e impiedade.
Assim acontece com frequência aos hesitantes, embora continuem a viver por tempo considerável depois disso. Quando olham para trás, após terem sofrido tanto por sua salvação, perdem tudo e colocam-se em larga desvantagem, apagando o Espírito de Deus, e perdendo suas convicções, terrivelmente endurecem seus corações e entorpecem suas almas. Pavimentam o caminho para o desencorajamento, terrivelmente fortalecem e estabelecem o interesse do pecado em seus corações, dando a Satanás de muitas formas vantagens para arruiná-los, e provocam a Deus tantas vezes a ponto de Ele os entregar à dureza de coração.  Quando vêm a olhar para trás, suas almas já estão mortas e endurecidas como o corpo da mulher de Ló. E ainda que vivam por longo tempo, jamais avançam; isto lhes é pior do que se tivessem sido condenados imediatamente. Quando as pessoas em fuga de Sodoma olham para trás, sua ultima situação é muito pior que a primeira (Mt 12:43-45). E a experiência confirma que comumente ninguem é mais endurecido e difícil de ser conduzido ao arrependimento que os apóstatas.
5. Pode muito bem animar suas almas a fugir por suas vidas, e a não olhar para trás, quando considerarem quantos ultimamente têm fugido para as montanhas, enquanto vocês permanecem em Sodoma. A quantas multidões Deus deu a sabedoria para fugir para Cristo, a montanha da segurança! Eles fugiram para a pequena cidade de Zoar, que Deus poupará e nunca destruirá. Quantos de vocês viram pessoas de todos os tipos saindo de Sodoma até agora, crendo na palavra de Deus falada pelos anjos de que Ele certamente destruirá esse lugar! Estes estão em uma condição segura, fora do alcance da tempestade, em um lugar onde o fogo e o enxofre não lhes podem atingir.
Mas vocês permanecem nesta cidade maldita, em meio a esta sociedade amaldiçoada. Ainda estão em Sodoma, que Deus está prestes a destruir terrivelmente, onde a cada minuto estão em perigo de ter sobre suas cabeças armadilhas, fogo e enxofre. Embora muitos tenham obtido a libertação, este não é o caso de vocês. O bem veio, mas vocês não o viram. Outros estão felizes, mas ninguém sabe o que será de vocês. Não têm parte nem porção nessa gloriosa salvação das almas, que esteve nos últimos dias entre nós. Essa consideração bem poderia animar suas almas a efetivamente escaparem, e na sua pressa, esforçarem-se e resolverem esforçar-se para sempre, haja o que houver no caminho. A não dar ouvidos a tentação alguma, e nunca olhar para trás, ou de forma alguma afrouxar ou abater seus esforços enquanto viverem, mas, se possível, aumentá-los mais e mais.
6. Voltar atrás em tempos como estes[1] terá grande tendência de selar a condenação do homem que em outros tempos. Quanto mais meios têm os homens, quanto mais altos os chamados e maiores as vantagens em que se encontram, mais perigosa é a relutância, maior a tendência de aumentar-se a culpa, provocar a Deus e endurecer o coraçao.
Nós, nesta terra de luz, há muito que desfrutamos de maiores vantagens que o resto do mundo. Mas as vantagens que as pessoas desfrutam agora para a sua salvação são talvez dez vezes maiores que aquelas que comumente tivemos. Portanto, hesitar será um pecado proporcionalmente maior e mais perigoso para a alma. Voces têm visto a glória de Deus e suas maravilhas entre nós, de forma muito impressioante. Se depois disso ainda olharem para trás, haverá grande perigo que Deus jure na sua ira que jamais entrarão no seu descanso, como fez para com aqueles que queriam retornar ao Egito, após terem visto as suas maravilhas realizadas em prol de Israel (Nm 14:22, 23): “nenhum dos homens que, tendo visto a minha glória e os prodígios que fiz no Egito e no deserto, todavia, me puseram à prova já dez vezes e não obedeceram à minha voz,  23 nenhum deles verá a terra que, com juramento, prometi a seus pais, sim, nenhum daqueles que me desprezaram a verá.” As maravilhas que vimos entre nós nestes dias têm sido de natureza bem mais gloriosa que aquelas vistas pelos filhos de Israel no Egito e no deserto.
7. Nada sabemos senão que a maior parte do mundo ímpio hoje se encontra nas mesmas circunstâncias que Sodoma, quando Ló fugia de lá. Eles têm uma destruição visível e temporal pairando sobre si. Parece que alguma coisa grande está vindo, o estado das coisas no mundo parece favorável a alguma grande revolução. O mundo se encontra em tal grau de impiedade que é provável que o seu clamor tenha chegado aos céus, e é bastante improvável que Deus permita que tais coisas continuem do jeito que estão por muito tempo. É provavel que Deus se apresse em aparecer em terrível majestade para vindicar a sua causa e, então, ninguém estará a salvo se estiver fora de Cristo. Agora, portanto, todos devem fugir por suas vidas, e escapar para as montanhas, para que não sejam consumidos. Não podemos dizer com certeza o que Deus há de fazer, mas isto podemos: que todos os que estão fora de Cristo estão em um estado bastante inseguro.
8. Para reforçar este aviso contra a hesitação, permitam-me suplicar-lhes a que considerem a excessiva prontidão que há no coração para isso. O coração humano é recalcitrante. Há nele um grande amor e forte desejo pela comodidade, prazeres e diversões de Sodoma, como havia na mulher de Ló. Esta é razao por que tantos estão inclinados à tentaçao de olhar para trás. O coração está tão inclinado para Sodoma que é difícil manter os olhos fora dela e os pés longe dos seus caminhos. Quando os homens sob convicção de pecado são postos em fuga, é à força, é porque Deus segura suas mãos, como fez com Ló e sua mulher, arrastando-os de lá. Mas a tendência do coraçao é voltar para Sodoma.
As pessoas estão prontas a retornar também devido ao desencorajamento. O coração é inconstante, logo fica cansado, e pronto a ouvir tentações desencorajadoras. Uma pequena dificuldade e atraso logo vence suas fracas resoluções. E o desencorajamento leva à recalcitrância: enfraquece as mãos, coloca um peso morto nos corações, e os faz suportá-los como um fardo; e se isso continua por muito tempo, logo leva à segurança carnal e à insensibilidade. As convicções com frequência se abalam assim: primeiro começam a entreter o desencorajamento. A recalcitrância é uma doença que é extremamente secreta em suas formas de operação. É um temperamento agradável e age como a tuberculose, em que as pessoas com frequência se gabam que não estão piores, e que melhoraram, e no caminho da recuperação, até que em poucos dias vêm a morrer. Portanto, a recalcitrância vem aos poucos, e torna os homens insensíveis a ponto de se gabarem que não estão apostatando. Eles reivindicam estar buscando ainda, e esperam não ter perdido suas convicções. E ao tempo em que descobrem a verdade e não mais podem fingir, comumente já estão tão longe que não mais se importam se perderam suas convicções. E quando chegam a esse ponto, comumente já é o fim de suas convicções. Assim, eles cegam a si mesmos, e mantêm-se insensíveis de suas próprias doenças e nao se angustiam por elas, nem acordam para usar os meios de aliviá-las, até que já não haja possibilidade de cura.
Assim é que a apostasia vem com frequência àqueles que por algum tempo estiveram sob consideráveis convicções, e depois as perderam. Que a consideração deste perigo os mova a terem maior cuidado e diligência para guardarem os corações, e vigiarem em constante oração contra a apostasia. E que isto os leve ao esforço para reforçar suas resoluções de se guardarem contra qualquer coisa que tenda ao contrário, para que possam perseverar até ao fim, para que “conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR.



[1] O tempo do reavivamento da religião em Northampton em 1735.

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