A Caridade e Seus Frutos
sábado, 21 de maio de 2016
"A CARIDADE E SEUS FRUTOS" DISPONÍVEL EM PRÉ-VENDA
Já está disponível para pré-venda na Amazon minha tradução do clássico de Jonathan Edwards, A Caridade e Seus Frutos. Temos em português uma tradução integral dessa obra, feita pela Editora Fiel, e uma edição condensada e modernizada, feita pela editora Palavra Prudente.
O diferencial da presente edição é que, além de contar com a tradução integral do texto de Edwards, foi pensada especialmente para ser lançada no formato Kindle, a preço reduzido.
Adquira já o seu exemplar na loja da Amazon.
Confira AQUI.
terça-feira, 15 de março de 2016
Jefté Matou Sua Filha? (Parte 1 de 2)
![]() |
| Jefté Encontra Sua Filha, de Hieronymus Francken III |
Por Jonathan Edwards
Com relação ao voto de Jefté e à oferta de sua filha.
Que Jefté não matou sua filha nem a ofereceu em sacrifício as seguintes considerações evidenciarão.
1. O teor de seu voto, se supusermos que tenha sido um voto lícito, não o obrigava a isso. Ele prometeu que o que quer que saísse da porta de sua casa para encontrá-lo certamente seria do Senhor, e ele o ofereceria como holocausto. Com esse voto, estava obrigado a tão somente lidar com o que quer que saísse das portas de sua casa para encontrá-lo como se lidava com as coisas que eram santas ao Senhor.
Pela lei, os holocaustos a Deus deveriam ser regulados pela própria lei de Deus e as regras que Ele dera. Supondo que fosse um jumento ou algum animal imundo que viesse encontrá-lo (uma vez que Jefté não poderia prever se isso não ocorreria) seu voto não o obrigaria a oferecê-lo em sacrifício, ou a realmente fazer dele um holocausto. Mas deveria tratá-lo conforme a lei de Deus orientava a lidar com animais imundos, que não eram santos ao Senhor. Estes, em outra situação, estariam aptos a ser ofertados como holocausto a Ele, não fora por sua incapacidade legal devido à impureza de sua natureza.
Todas as coisas vivas que eram consagradas deveriam ser, por assim dizer, holocausto para Deus, isto é, deveriam realmente ser ofertadas como um holocausto, se não fossem de natureza que a tornassem incapazes disso. Nesse caso, algo diferente deveria ser feito, o que Deus aceitaria no lugar da oferta de sacrifício. A ordenança que temos em Levítico 27.11-13 é: “Se for animal imundo dos que se não oferecem ao SENHOR, então, apresentará o animal diante do sacerdote. O sacerdote o avaliará, seja bom ou mau; segundo a avaliação do sacerdote, assim será. Porém, se dalgum modo o resgatar, então, acrescentará a quinta parte à tua avaliação”. Ou seja, deveria ser avaliado pelo sacerdote, e o ofertante deveria determinar, após a avaliação, se o resgataria ou não. Se não o resgatasse, se fosse jumento, deveria ter o pescoço quebrado [Ex 13.12,13]. Se fosse outro animal imundo, deveria ser vendido de acordo com a avaliação do sacerdote [Lv 27.27] (como é em outra parte instruído que seja feito com os animais imundos que eram santos ao Senhor [Ex 34.20]), mas se o resgatasse, se fosse jumento, deveria resgatá-lo com um cordeiro [Ex 13.12,13].
Se fosse outro animal imundo, deveria acrescentar, adicionalmente, a quinta parte à avaliação do sacerdote, ou seja, deveria dar o valor do animal acrescido da quinta parte. Se Jefté tivesse feito isso no caso de um animal imundo que viesse encontrá-lo, teria agido de acordo com o seu voto. Se, nessas circunstâncias, tivesse insistido em oferecer um animal imundo como holocausto, teria provocado terrivelmente a Deus. A única coisa que seu voto o obrigaria era a tão somente lidar com o animal imundo que fora consagrado do modo como a lei de Deus o instruía a fazer, ao invés de oferecer um holocausto.
Assim, como foi sua filha que o encontrou, poderia fazer a ela de acordo com seu voto sem que a oferecesse como holocausto, se lhe fizesse de acordo com o que a lei de Deus instruía a ser feito com as pessoas dedicadas, ao invés de oferecer um holocausto, em razão da inadequação que, pela misericórdia de Deus, impede que um ser humano seja oferecido como sacrifício. Pois oferecer, seja um ser humano, seja um animal imundo em sacrifício a Deus são ambos mencionados como grande abominação diante dele e como coisas que assim eram consideradas por todos. Isaías 66.3 diz: “O que imola um boi é como o que comete homicídio; o que sacrifica um cordeiro, como o que quebra o pescoço a um cão; o que oferece uma oblação, como o que oferece sangue de porco”. Mas, para clarear mais plenamente as dificuldades que acompanham esse assunto, observarei em particular algumas coisas relacionadas às leis que diziam respeito às pessoas que eram consagradas, tornando-se assim santas ao Senhor.
1. Todo ser vivo que fosse separado ao Senhor, tantos homens como animais, eram, por direito, um holocausto a Deus, e deveriam ser realmente ou sacrificados ou alguma coisa a mais lhes deveria ser feita que Deus apontara em lugar da queima em sacrifício. Assim, os primogênitos dos homens e dos animais eram todos santos ao Senhor e deveriam ser ou oferecidos como holocausto ou ser resgatados. O primogênito dos homens e dos animais impuros deveriam ser resgatados.
2. As pessoas que eram dedicadas a Deus por um voto singular, a menos que fossem daquelas devotadas a ser amaldiçoadas (das quais fala Lv 27.28,29), deveriam ser trazidas e apresentadas diante do Senhor, para que o sacerdote pudesse avaliá-las, e deveriam ser resgatadas de acordo com a avaliação do sacerdote. Mas os animais que pudessem ser sacrificados deveriam ser sacrificados [Lv 27.7-9].
3. Pessoas que eram assim dedicadas a Deus pelo voto de seus pais deveriam ainda permanecer como pessoas separadas e apartadas para Deus, após o seu resgate. Isso se comprova a partir de diversas coisas:
1ª. O resgate servia apenas para redimi-las da morte em sacrifício. Não era para resgatá-las da condição de santas ao Senhor, isto é, pessoas separadas e santificadas a ele.
2ª. Os primogênitos eram designados para ser dados ou consagrados a Deus [Ex 13.2 e 22.19]. Eles eram, pela lei de Deus, santos ao Senhor, exatamente como as pessoas a Ele dedicadas por um voto singular, como é evidente pelo fato de serem resgatados da mesma forma e pelo mesmo preço, bastando comparar o início do capítulo 27 de Levítico com Números 18:15,16. Deus, ao dar a regra para o resgate do primogênito neste texto, evidentemente refere-se ao que já havia anteriormente apontado naquele, com relação às pessoas dedicadas por um voto singular, e, semelhantemente, o primogênito dos animais imundos deveria ser resgatado da mesma forma que os animais imundos que eram dedicados, como se vê pela comparação entre Lv 27.11-13 com 5.27. Contudo, ainda assim o primogênito permanecia separado a Deus como sua possessão especial, após ser resgatado. Daí que os levitas foram aceitos como o primogênito, como uma tribo separada para Deus, depois que o primogênito foi assim resgatado.
3ª. Pessoas que eram dedicadas a Deus pelo voto de seus pais eram os nazireus, bem como aqueles que eram separados por seus próprios votos. A palavra nazireu significa alguém que é separado. Poderiam ser separados pelo voto de seus pais ou pelo seu próprio. Isso é muito evidente nos exemplos que temos na Escritura. Assim Samuel era um nazireu pelo voto de sua mãe: “E fez um voto, dizendo: SENHOR dos Exércitos, se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva te não esqueceres, e lhe deres um filho varão, ao SENHOR o darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha” [1 Sm 1.11]. Também o mesmo se deu com Sansão [Jz 13.5]. Mas o nazireu deveria continuar separado para Deus, enquanto permanecesse sob o voto pelo qual havia sido devotado.
4. Aqueles que eram assim devotados a Deus para ser nazireus deveriam, ao máximo de sua capacidade, abster-se de todas as poluições legais [Lm 4.7]. Com respeito à imundície dos cadáveres, era exigido que se mantivessem puros com mais severidade do que os sacerdotes, à exceção somente do sumo sacerdote, e eram obrigados a ser tão severos quanto o próprio sacerdote [Nm 6.6,7; comp. com Lv 21.10,11]. Embora apenas algumas impurezas legais sejam expressamente mencionadas como coisas que os nazireus deveriam evitar, contudo, deve-se entender que ele deveria separar-se ao máximo de todas as impurezas legais, de acordo com o seu nome, um nazireu, isto é, pessoa separada. O nazireu deveria se abster de todas as impurezas legais de maneira semelhante aos sacerdotes, e até mesmo como o sumo sacerdote; há instruções semelhantes dadas a um e a outro. O sumo sacerdote não deveria de forma alguma tornar-se imundo com cadáveres e estava proibido de beber vinho ou bebida forte, quando ia ao tabernáculo da congregação [Lv 10.9]. Os sacerdotes deveriam se abster de toda espécie de impureza legal, tanto quanto estivesse ao seu alcance [início de Lv 12].
Se for objetado que os levitas que eram aceitos como do Senhor, no lugar dos primogênitos que eram santos ao Senhor, não estavam obrigados a essa severidade, respondo que essa pode ser uma das razões pela qual Deus não olha para o primogênito como estando plenamente resgatado pelo fato de os levitas serem seus substitutos. Mas há encargos extraordinários requeridos deles para a manutenção dos levitas, muito maior do que a proporção do tamanho da tribo. E Deus poderia aceitar isso como um equivalente pelo fato de não serem tão estritamente separados, assim como aceitava o resgate extraordinário em dinheiro pelo número excedente de primogênitos, que era maior que o dos levitas [Nm 3.46,47 e 18.15,16].
sexta-feira, 11 de março de 2016
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
O LIVRE ARBÍTRIO - Seção 2
SEÇÃO 2
Quanto à determinação da vontade
Por determinar a vontade, se a expressão for usada com
algum sentido, deve ser entendido o fazer com que o ato da vontade ou escolha
seja desta e não daquela maneira. Diz-se que a vontade é determinada quando, em
consequência de alguma ação ou influência, sua escolha é dirigida a ou fixada
sobre um objeto particular. Desse modo, quando falamos da determinação do
movimento, temos em mente o fazer com que o movimento de um corpo seja em tal
direção ao invés de em outra.
A determinação da vontade supõe um efeito que deve ter
uma causa. Se a vontade for determinada, há um determinador. Deve-se supor que
esse seja o caso mesmo com relação àqueles que dizem que a vontade determina a
si mesma. Se isso ocorrer, a vontade é tanto a determinadora quanto a
determinada. É uma causa que age e produz efeitos sobre si mesma e é o objeto
de sua própria influência e ação.
Com respeito àquela grande inquirição: “O que
determina a vontade?”, seria muito tedioso e desnecessário, no momento, examinar
todas as variadas opiniões que têm sido apresentadas com relação a esse
assunto. Também não é necessário que eu entre em uma discussão particular de
todos os pontos debatidos nas disputas sobre esta outra questão: “Por acaso a
vontade segue sempre o ultimo ditame do entendimento?” É o suficiente para o
meu presente propósito dizer que o motivo que, como se apresenta à
consideração da mente, for o mais forte, é o que determina a vontade. Mas pode ser
necessário que eu explique um pouco o que quero dizer.
Por motivo quero dizer o todo daquilo que move, estimula ou convida a mente à volição, quer seja uma coisa isolada ou muitas coisas
conjuntamente. Muitas coisas específicas podem concorrer e unir suas forças
para induzir a mente, e, quando isso ocorre, todas elas juntas são como um motivo complexo. E quando falo do motivo mais forte, tenho em mente a força do todo
que opera para induzir um ato particular de volição, quer seja a força de uma
coisa isolada ou de muitas coisas juntas.
O que quer que seja objetivamente um motivo, nesse
sentido, deve ser algo que existe na visão ou apreensão do entendimento,
ou da faculdade perceptiva. Nada pode induzir ou convidar a mente a querer ou
agir sobre algo, a menos que seja percebido ou esteja de uma forma ou outra
na visão da mente. Pois aquilo que é totalmente imperceptível e está perfeitamente fora
da vista da mente não pode afetá-la de forma alguma. É muito evidente que nada
está na mente ou a alcança, ou se apossa de qualquer parte dela, de alguma outra maneira que não seja pela percepção ou pelo pensamento.
E penso que todos devem concordar que tudo o que é
propriamente chamado um motivo, estímulo ou indução a um agente perceptivo e
volitivo tem algum tipo e grau de tendência ou vantagem para mover ou estimular a
vontade, prévio ao efeito ou ao ato da vontade estimulada. Essa tendência prévia
do motivo é o que eu chamo de a sua força. Aquele motivo que tem um menor grau
de vantagem prévia ou tendência para mover a vontade, ou que parece menos
convidativo na maneira como se apresenta à vista da mente, é o que chamo de um motivo mais
fraco. Ao contrário, aquele que parece mais convidativo e tem, pelo que o entendimento ou apreensão atribui a ele, o maior grau ou tendência
prévia a estimular e induzir a escolha é o que chamo de motivo mais forte. E, nesse
sentido, suponho que a vontade é sempre determinada pelo motivo mais forte.
As coisas que estão ao alcance da vista da mente têm sua
tendência ou vantagem para mover ou estimular a vontade devido a muitas fatores pertencentes à natureza e circunstâncias da coisa observada, à natureza e
circunstâncias da mente que vê e ao grau e maneira da vista. Essas coisas talvez
sejam difíceis de ser perfeitamente enumeradas. Mas penso que pode ser
suficientemente determinado, de maneira geral, sem espaço para controvérsia, que o que
é percebido ou apreendido por um agente inteligente e voluntário, que tenha a
natureza e influência de um motivo para a volição ou escolha, é considerado ou
visto como bom. E essa coisa não tem tendência alguma para assegurar a eleição da alma
em nenhum grau maior a menos que apareça como tal. Pois dizer o contrário seria
dizer que as coisas que surgem [diante da mente] têm uma tendência, pela aparição que fazem, de
obrigar a mente a escolhê-las, de alguma outra forma que não seja aparecendo
como elegíveis para ela, o que é absurdo. Portanto deve ser verdade, em algum
sentido, que a vontade sempre é como o maior bem aparente é. Mas, apenas para o
correto entendimento disso, duas coisas devem ser bem e distintamente
observadas.
1. Deve ser observado em que sentido uso o termo
“bom”, isto é, com o mesmo significado de “agradável” [agreeable]. Parecer bom para a
mente, como uso a frase, é o mesmo que parecer agradável ou aprazível à mente. Certamente
nada que seja considerado mau e desagradável parece convidativo e elegível para a mente, ou tende a atrair sua
inclinação e escolha; e nem, de
fato, nada que seja indiferente, nem agradável nem desagradável. Mas se tende a atrair a
inclinação e mover a vontade deve estar sob a noção daquilo que se acomoda à mente. Portanto, aquilo que, como se mostra à vista da mente, acomoda-se mais a
ela e mais lhe agrada deve ter a maior tendência de atrai-la e ativá-la. Nesse sentido, é o maior bem aparente: dizer o contrário está, no mínimo, um pouco próximo de uma contradição direta e clara.
A palavra “bom”, nesse sentido, inclui em seu
significado a remoção ou prevenção do mal ou daquilo que é desagradável e
penoso. É agradável e aprazível evitar o que é desagradável e desfavorável, e
ter o mal-estar removido. De modo que aqui se inclui aquilo que Locke supõe determinar
a vontade. Pois quando ele fala de “mal-estar” [uneasiness] como o que determina a vontade, deve-se entendê-lo como que supondo que o fim ou propósito que governa a volição ou ato da preferência é a
prevenção ou remoção desse mal-estar, e isso é a mesma coisa que escolher e
buscar o que é mais tranquilo e agradável.
2. Quando digo que a vontade é conforme o maior bem
aparente, ou (como expliquei) que a volição sempre tem por seu objeto a coisa
que parece mais agradável, deve ser cuidadosamente observado, para evitar
confusão e objeção desnecessária, que falo do objeto direto e imediato do ato
da volição e não de algum objeto ao qual o ato da vontade tenha apenas um
relação indireta e remota. Muitos atos de volição têm alguma relação remota a
um objeto que é diferente da coisa que mais imediatamente se quer e se escolhe. Assim,
quando um bêbado tem diante de si a bebida e tem que escolher se vai bebê-la ou
não, os objetos próprios e imediatos, em relação aos quais sua volição interage
no momento e entre os quais sua vontade agora decide, são seus próprios atos
de tomar a bebida ou deixá-la de lado. E isso certamente será feito de acordo
com o que, na presente visão de sua mente, tomada no seu todo, lhe é mais
agradável. Se escolhe bebê-la e não deixá-la de lado, então essa ação, na
maneira como aparece à vista de sua mente, com tudo o que pertence à sua
aparência lá, é mais agradável e aprazível do que deixar a bebida de lado.
Mas os objetos aos quais esse ato da volição pode
relacionar-se mais remotamente e entre os quais sua escolha pode determinar
mais indiretamente são o presente prazer que o homem espera pela bebida e a
miséria futura, que julga será a consequência dela. Ele pode julgar que essa
miséria futura, quando vier, será mais desagradável e incômoda do que
refrear-se da bebida agora o seria. Mas essas duas coisas não são os objetos
próprios com os quais o ato da volição interage mais de perto. Pois o referido
ato da vontade está preocupado com o presente ato de beber ou abster-se de beber. Se ele
escolhe beber, então beber é o objeto próprio do ato de sua vontade, e beber,
por algum motivo ou outro, agora lhe parece o mais agradável e o mais cômodo. Se
escolher abster-se, então a abstenção é o objeto imediato de sua vontade e lhe
é mais agradável. Se na escolha que faz na situação prefere um prazer presente
a uma vantagem futura, a qual julga será maior quando vier, então um prazer
presente menor lhe parece mais agradável do que uma maior vantagem distante. Se,
ao contrário, uma vantagem futura é preferida, então isso lhe parece o mais
agradável e o mais cômodo. Logo, ainda a volição presente é como o maior bem
aparente no presente é.
[Continua...]
sábado, 12 de setembro de 2015
O LIVRE ARBÍTRIO - Seção I
SEÇÃO
I
Quanto
à Natureza da Vontade
É
possível que se pense que não há grande necessidade de se preocupar em definir
ou descrever a Vontade, uma vez que
essa palavra é, em geral, tão bem compreendida quanto qualquer outra que
possamos usar para explicá-la. Assim de fato seria, não tivessem filósofos,
metafísicos e teólogos polêmicos trazido à matéria à obscuridade pelas coisas
que falaram a seu respeito. Mas, uma vez que esse é o caso, penso que possa ser
de alguma utilidade e possa levar à maior clareza no discurso seguinte dizer
algumas coisas relacionadas a ela.
Portanto,
observo que a vontade (sem qualquer
refinamento metafísico) é aquilo pelo
qual a mente escolhe algo. A faculdade da vontade é aquele poder ou princípio da mente pela qual é capaz de escolher. Um ato da vontade equivale a um ato de escolher
ou de escolha.
Se
alguém achar que seja uma definição mais perfeita da vontade dizer que é aquilo
pelo qual a alma ou escolhe ou recusa, contento-me com isso, embora
ache que seja o suficiente dizer que é aquilo pelo qual a alma escolhe, pois em
qualquer tipo de ato da vontade a mente escolhe uma coisa em detrimento de
outra. Ela escolhe algo ao invés de seu contrário ou ao invés da ausência ou
não existência daquela coisa. Logo, em qualquer ato de recusa, a mente escolhe
a ausência da coisa recusada. O positivo e o negativo são colocados diante da mente
para a sua escolha, e ela escolhe o negativo, e essa ação de escolha da mente,
nesse caso, é propriamente o ato da vontade: a determinação da vontade entre os
dois é uma determinação voluntária, mas isso é o mesmo que fazer uma escolha. De
modo que, por quaisquer nomes que chamemos o ato da vontade: escolher, recusar,
aprovar, desaprovar, gostar, desgostar, abraçar, rejeitar, determinar,
orientar, ordenar, proibir, inclinar, ser avesso, agradar-se ou desagradar-se:
tudo pode ser reduzido a esse [ato] de escolher.
Para a alma, agir voluntariamente é
sempre agir eletivamente.
[John]
Locke diz: “A vontade nada significa exceto um poder ou habilidade para preferir ou escolher”. E, na página anterior, ele diz: “A palavra preferir parece expressar melhor o ato
da volição”, mas adiciona que “ela não o faz com precisão, pois, embora um
homem preferisse voar a andar,
contudo quem pode dizer que ele o queira?”
Mas o exemplo que ele menciona não prova que haja algo a mais do que o querer, além do mero preferir; pois deve ser considerado qual
é o objeto imediato da vontade, com respeito ao andar do homem ou a qualquer
ação externa, o que não é ser removido de um lugar para outro, na terra ou pelo
ar. Esses são objetos remotos de preferência. A coisa mais próxima escolhida ou
preferida, quando um homem quer andar, não é ser removido a algum lugar que lhe
agrade, mas é um esforço ou movimento de suas pernas e pés, a fim de o fazê-lo. E
o seu querer essa alteração em seu corpo, no momento presente, nada mais é do
que sua escolha ou preferência dessa alteração em seu corpo, nesse momento, ou o
fato de gostar mais dela do que de sua abstenção. Deus fez e estabeleceu de tal
forma a natureza humana, a alma estando ligada a um corpo em estado apropriado que, quando a alma
prefere ou escolhe esse esforço ou alteração imediata do corpo, tal alteração
imediatamente acontece. Nada mais há nas
ações de minha mente, de que esteja cônscio enquanto ando, a não ser minha
preferência ou escolha, nos momentos sucessivos, de que haja essas alterações
de minhas sensações e movimentos externos. Também há uma expectativa concorrente
habitual de que isso acontecerá, tendo sempre se descoberto pela experiência que,
com essa preferência imediata, aquelas sensações e movimentos real, instantânea
e constantemente ocorrem. Mas isso não se dá no exemplo do voo. Embora possa-se
dizer que alguém remotamente escolha
ou prefira voar, contudo, ele não prefere, ou deseja, sob as circunstâncias em
vista, qualquer esforço imediato dos
membros de seu corpo para esse fim, visto que não tem expectativa alguma de que
obterá o fim desejado por qualquer esforço exercido. Ele não prefere ou se
inclina a qualquer esforço corporal, por entender que nessa circunstância, isso
seria totalmente em vão. De modo que, se distinguirmos os objetos próprios dos diversos atos da vontade, não se evidenciará
por esse ou por exemplos semelhantes que haja qualquer diferença entre volição e preferência, ou que a escolha de alguém devido a gostar ou agradar-se de alguma coisa, não seja o mesmo que o querer
[willing] essa coisa. Assim, um ato
da vontade é comumente expresso por
agradar a um homem fazer desse ou daquele modo; e alguém fazer como quer [wills] e como lhe agrada são, na fala comum, as mesmas
coisas.
Locke
diz: “A vontade é perfeitamente distinta do desejo, o qual, na mesma ação, pode
ter uma tendência bastante contrária àquilo em que nos apoia nossa vontade. Um
homem, diz ele, a quem não posso recusar, pode obrigar-me a convencer outra
pessoa, a qual, ao mesmo tempo em que estou falando, possa desejar não convencer. Nesse caso, é evidente que a vontade e o desejo são
contrários.”
Não
suponho que vontade e desejo sejam palavras de precisamente o
mesmo significado. Vontade parece ser
uma palavra de um significado mais geral, estendendo-se a coisas presentes e
ausentes. Desejo diz respeito apenas
a coisas ausentes. Posso preferir minha atual situação e postura, digamos,
estar sentado ou ter meus olhos abertos, e assim posso querer estar desse jeito. Entretanto, não posso pensar que sejam
tão inteiramente distintas a ponto de que se possa dizer que sejam contrárias. Um
homem nunca, em circunstância nenhuma, quer alguma coisa contrária aos seus
desejos, ou deseja alguma coisa contrária à sua vontade. O exemplo pré-mencionado,
aduzido por Locke, não prova que isso acontece. Ele pode, por alguma consideração
ou outra, querer proferir discursos
que tenham a tendência de persuadir outra pessoa, e ainda assim pode desejar que esses discursos não possam
persuadi-la. Contudo, sua vontade e desejo não são contrários em absoluto. A mesma
coisa que ele quer, ele também deseja; e ele não quer uma coisa e deseja a contrária, em nenhuma situação
particular. No exemplo acima, não é cuidadosamente observado qual é a coisa que
se quer e qual é a coisa que se deseja. Se fosse observado, seria descoberto
que a vontade e o desejo não colidem de forma alguma.
A
coisa que se quer em alguma consideração é proferir tais palavras, e certamente
a mesma consideração influencia a pessoa de tal maneira que não deseja o
contrário. Quando se considera todas as coisas, ela escolhe proferir tais
palavras e não deseja não as proferir. E o mesmo ocorre com aquilo que Locke se
refere como desejado, ou seja, que as palavras, embora tendam à persuasão, não
sejam eficazes para esse fim. A sua vontade não se opõe a isso; ela não quer
que sejam eficazes, ao contrário, quer que não sejam, conforme seu desejo. A fim
de provar que a vontade e o desejo podem colidir, deveria ser mostrado que podem
ser contrários um ao outro na mesma coisa ou com respeito ao mesmo objeto da
vontade ou desejo. Mas aqui os objetos são dois; e em cada um, tomado por si
mesmo, a vontade e o desejo concordam. Não é de se maravilhar que não devam
concordar em coisas diferentes, embora sejam minimamente distintas em suas
naturezas. A vontade pode não concordar com a vontade e o desejo com o desejo,
em coisas diferentes. Posso dizer que nesse mesmo exemplo mencionado por Locke,
uma pessoa pode, por alguma consideração, desejar usar de persuasão e, ao mesmo
tempo, pode desejar que elas não prevaleçam. Contudo, ninguém dirá que o desejo
se opõe ao desejo, ou que isso prova que o desejo é algo perfeitamente distinto
do desejo. Observações semelhantes poderiam ser feitas dos outros exemplos
produzidos por Locke, como o de um homem desejando se ver livre da dor etc.
Mas,
para não me alongar muito nisso, quer o desejo e a vontade, quer a preferência
e a volição sejam precisamente as mesmas coisas, confio que todos concordarão
que em cada aspecto da vontade há um ato de escolha; que em cada volição há uma
preferência, ou uma inclinação prevalecente da alma, pela qual nesse instante
ela se encontra fora de um estado de perfeita indiferença com respeito ao
objeto direto da volição. De modo que, em cada ato ou atuação da vontade há
alguma preponderância da mente, um modo ao invés de outro; e a alma prefere
antes ter ou fazer uma coisa a outra, ou não ter ou fazer aquela coisa. Onde não
há absolutamente preferência ou escolha, mas um equilíbrio perfeito e contínuo,
não há volição.
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Um Chamado aos Não Convertidos
![]() |
| Richard Baxter |
[Nota do blog: Ainda que este
blog seja dedicado à obra de Jonathan Edwards, lanço aqui o prefácio de uma obra fundamental de Richard Baxter, teólogo puritano a quem muito admiro e recomendo. A obra completa estará
disponível em breve, se Deus assim me permitir completá-la.]
PREFÁCIO
A
todas as pessoas não santificadas que lerão este livro, especialmente aos meus
ouvintes na vila e paróquia de Kidderminster.
Homens e irmãos,
O Deus eterno que os criou para a vida eterna, e os redimiu
por seu único Filho, quando vocês a haviam perdido e a si mesmos, sendo-lhes
atencioso nos seus pecados e miséria, compôs o evangelho e o selou pelo seu
Espírito, e ordenou a seus ministros que o pregassem ao mundo, para que,
sendo-lhes ofertado livremente o perdão, e os céus abertos diante de vocês,
pudesse chamá-los de seus prazeres carnais, e de seguirem no encalço deste
mundo enganoso, e os familiarizasse com a vida para a qual foram criados e
redimidos, antes que estivessem mortos e sem remédio.
Ele não lhes envia profetas ou apóstolos, que recebem suas
mensagens por revelação imediata; porém, os chama por meio de seus simples
ministros, que são comissionados por ele a pregar-lhes o mesmo evangelho
primeiramente entregue por Cristo e seus apóstolos. O Senhor vê como vocês
esqueceram-se dele e de seu fim principal, e como menosprezam as coisas
eternas, à semelhança de homens que não entendem o que devem fazer ou sofrer.
Ele vê como são ousados no pecado, e destemidos mesmo com as ameaças, e como
são descuidados de suas almas, e como a obra dos infiéis se acha nas suas
vidas, ao mesmo tempo em que a fé cristã está nas suas bocas.
Ele vê o terrível dia se aproximando, quando suas dores
começarão, e deverão lamentar isso tudo com clamores inúteis, em tormento e
desespero. E, então, a lembrança de suas tolices rasgará seus corações, se a
verdadeira conversão disso não os livrar agora.
Compadecido de suas almas pecaminosas e miseráveis, o
Senhor, que conhece sua situação melhor do que vocês mesmos, nos comissionou a
falar-lhes em Seu nome (2 Co 5:19) e a lhes dizer abertamente sobre seus
pecados e miséria, e sobre qual será seu fim, e como verão brevemente uma
triste mudança, se persistirem nisso por mais um pouco.
Havendo-os comprado por tão caro preço como é o sangue de
seu Filho Jesus Cristo, e lhes feito promessas de perdão tão livres e
abrangentes, e de graça e glória eternas, Ele nos ordenou que lhes
oferecêssemos isso tudo como dádiva de Deus, e que lhes suplicássemos a
considerarem a necessidade e dignidade daquilo que oferecia. Ele vê e se
compadece de vocês, enquanto estão submersos nos cuidados e prazeres mundanos,
avidamente seguindo após brinquedos infantis, gastando o tempo curto e precioso
por coisas sem valor, tempo esse em que deveriam se preparar para uma vida
eterna. Portanto, solenemente nos ordenou que os chamássemos, e lhes
disséssemos sobre como desperdiçam seus esforços e estão prestes a perder suas
almas, e a lhes falar sobre coisas melhores e superiores que poderiam
certamente obter, se ouvissem o seu chamado (Is 55:1-3).
Cremos e obedecemos à voz de Deus. E viemos até vocês com a
mensagem que nos incumbiu de pregar, e que instássemos, em tempo e fora de
tempo, que levantássemos nossas vozes como uma trombeta, e mostrássemos seus
pecados e transgressões (Is 58.1-2; 1 Tm 4.1-2)
Mas, infelizmente, para o luto de nossas almas e a ruína das
suas, vocês fecham os ouvidos, enrijecem os pescoços, endurecem os corações, e
nos enviam de volta a Deus com gemidos, para lhe dizer que cumprimos seu
chamado, mas que não pudemos lhes fazer bem, nem ao menos obter uma única
audiência sóbria. Tomara nossos olhos fossem uma fonte de lágrimas, para que
pudéssemos lamentar nosso povo ignorante e descuidado, que tem Cristo diante de
si, e o perdão, a vida e os céus, mas não tem corações para conhecê-los e
estimá-los! Que poderiam ter Cristo, a graça e a glória, bem como as demais
coisas, não fora sua voluntária negligência e desprezo! Tomara Deus enchesse
nossos corações com mais compaixão por essas almas miseráveis, para que
pudéssemos nos atirar a seus pés, e segui-las até as suas casas, e lhes falar
com amargas lágrimas, pois, por muito tempo, temos lhes pregado em vão.
Estudamos a clareza para fazê-los entender; examinamos as
palavras sérias e penetrantes, para fazê-los sentir. Tudo em vão. Se os maiores
assuntos funcionassem com eles, nós os despertaríamos. Se as mais doces coisas
funcionassem, nós os provocaríamos e ganharíamos seus corações. Se as coisas
mais terríveis funcionassem, ao menos os faríamos temer a impiedade. Se a
verdade e a certeza os vencessem, cedo os convenceríamos. Se o Deus que os
criou, e o Cristo que os comprou pudessem ser ouvidos, a situação deles logo
seria alterada. Se a Escritura pudesse ser ouvida, cedo prevaleceríamos. Se a
razão, mesmo os melhores e mais convincentes motivos, pudessem ser ouvidos, não
duvidamos de que rápido os convenceríamos. Se a experiência pudesse ser ouvida,
mesmo a sua própria, e a do mundo todo, a situação estaria resolvida. Sim, se a
consciência interior pudesse ser ouvida, a situação deles estaria melhor do que
a atual. Mas se nada puder ser ouvido, o que faremos por eles? Se o temível
Deus do céu for desprezado, com quem se preocuparão? Se o amor e o sangue
inestimável do Redentor forem menosprezados, o que será valorizado? Se os céus não
lhes têm uma glória desejável, e as alegrias eternas não tiverem valor; se
podem zombar no inferno, e dançar sobre o abismo sem fundo e gracejar com o
fogo consumidor, e isso quando Deus e homem os alertam do perigo, o que faremos
por almas semelhantes a essas?
Uma vez mais, em nome do Deus dos céus, lhes trarei a
mensagem que ele nos ordenou, e a deixarei nestas linhas suspensas para
convertê-los ou condená-los; para mudá-los ou suscitar contra vocês julgamento,
e para ser um testemunho às suas faces de que uma vez ouviram um sério chamado
para que se arrependessem.
Ouçam, vocês que são escravos do mundo, e servos da carne e
de Satanás! Que gastam seus dias buscando a prosperidade na terra, e afogam
suas consciências na bebida, glutonaria, no ócio e nos divertimentos tolos; que
conhecem seus pecados e, ainda assim, pecam, como se desafiassem a Deus, e o
suplicassem a lhes fazer o mal e a não os poupar! Ouçam, todos os que não se
importam com Deus, e nem têm coração para as coisas santas, e não sentem prazer
na palavra ou no culto do Senhor, nem nos pensamentos e menções da vida eterna!
Vocês que são relaxados com suas almas imortais, e nunca separam uma única hora
para investigar sobre a situação em que se encontram, se são santificados ou
profanos, e se estão prontos para comparecer perante o Senhor! Ouçam, todos
vocês que, por pecar na luz, se atordoaram na infidelidade, e não creem na
palavra de Deus! Aquele que tem ouvidos para ouvir, que ouça o chamado
gracioso, mas terrível, de Deus! Seus olhos estão sobre vocês. Seus pecados
estão registrados e certamente terão notícias deles ainda. Deus possui o livro
agora, e o escreverá por inteiro nas suas consciências, com seus terrores, e
desse modo vocês também o possuirão.
Ó pecadores, tomara vocês soubessem ao menos o que estão
fazendo! E que soubessem a quem estão ofendendo! O sol é escuridão diante da
Sua Majestade, esta mesma que vocês abusam diariamente e provocam
insensivelmente. Os anjos que pecaram não puderam permanecer diante dele, mas
foram expulsos para serem atormentados com os demônios. E ousam semelhantes
vermes tolos como vocês ofendê-lo tão insensivelmente, e se colocarem contra o
seu Criador? Tomara vocês soubessem ao menos um pouco da situação de suas almas
miseráveis, que chamaram o Deus vivo contra si! As palavras de sua boca, que os
fizeram, podem desfazê-los; a fúria de seu rosto os cortará e lançará fora na
completa escuridão. Como estão prontos os demônios que os tentaram a cair sobre
vocês, e nada esperam senão a palavra vinda de Deus para tomá-los e usá-los
como suas possessões! E, assim, em um momento, vocês estarão no inferno. Se
Deus for contra vocês, todas as coisas também o são. Este mundo é tão somente a
sua prisão, pois tudo o que amam está nele. Vocês estão reservados aqui para o
dia da ira (Jó 21:30).
O Juiz está vindo, e a sua alma está partindo. Ainda um
pouco, e seu amigo dirá a seu respeito: “Está morto”. E você verá as coisas que
agora despreza, e sentirá aquilo que agora não acredita. A morte lhe trará um
argumento ao qual não poderá responder, um argumento que efetivamente refutará
seus sofismas contrários à Palavra e aos caminhos do Senhor, e todas as suas
imbecilidades presunçosas. E, então, como será rápida a sua mudança de mente!
Seja então um descrente, se puder. Sustente, então, suas antigas palavras, que
costumava proferir contra a vida santa e celestial! Defenda, então, aquela
causa, diante do Senhor, que costumava advogar contra seus mestres, e contra o
povo temente a Deus. Apegue-se, então, às suas antigas opiniões e pensamentos
desdenhosos acerca da diligência dos santos. Apronte agora as suas mais fortes
razões, e fique de pé diante do Juiz, e defenda como um homem a sua vida
carnal, mundana e ímpia. Mas agora que tem Alguém com quem disputar, a esse não
irá subjugar, nem adiará como faz conosco, criaturas como você.
Ó pobre alma! Não há nada senão um fino véu de carne entre
você e essa vista maravilhosa, que em breve o silenciará, e mudará sua voz, e o
fará mudar de opinião! Tão logo a morte levantar essa cortina, você verá
primeiro aquilo que rapidamente o deixará mudo. Como se apressa esse dia e hora
em chegar! Quando você não tiver senão mais algumas poucas horas alegres,
alguns poucos tragos e bocados, e um pouco mais das honras e riquezas do mundo,
sua porção será gasta, e seus prazeres findarão, e tudo em que você colocou o
coração terá passado. De tudo aquilo pelo que você vende o Salvador e a
salvação, nada ficou senão o oneroso ajuste de contas. Como um ladrão que se
assenta na taverna alegremente para gastar o dinheiro roubado, enquanto os
homens cavalgam a toda pressa para prendê-lo, assim ocorre com você. Enquanto
se encontra afogado em cuidados e prazeres carnais, e festejando com sua
infâmia, a morte vem a toda pressa para capturá-lo, e levar sua alma para um
lugar e estado de que agora você pouco conhece ou se importa.
Suponham que, enquanto estivessem ousados e ocupados no
pecado, estivesse vindo um mensageiro enviado de Londres para agarrá-los e
matá-los. Ainda que não o vissem, se, contudo, soubessem que estava vindo, isso
acabaria com a sua festa, e ficariam a pensar sobre a velocidade desse
mensageiro, e ficariam a ouvir quando batesse as suas portas. Oh! Tomara
pudessem ver com que pressa vem a morte, mesmo que ela ainda não os tenha
vencido! Nenhum mensageiro é tão veloz! Nenhum é mais certo! Tão certo como o
sol estará com vocês pela manhã, ainda que tenha muitas milhares e centenas de
milhas para percorrer à noite, também a morte rapidamente estará com vocês. E,
então, o que será de suas diversões e prazeres? Vocês farão gracejos e
esbravejarão? Nesse dia, se rirão dos que lhe alertarem? Nessa hora, será
melhor ser um crente santificado ou um mundano sensual? “E aquilo que
ajuntaram, para quem será” (Lc 12:19-21). Vocês não observam que os dias e
semanas rapidamente passam, e as noites e manhãs estão aceleradas, e
rapidamente sucedem umas às outras? Vocês dormem “mas não a sua condenação”;
vocês tardam, mas “o juízo lavrado há longo tempo não tarda” (2 Pe 2:3), para o
qual estão “reservados.” (2 Pe 2:9 ) “Tomara fossem eles sábios! Então,
entenderiam isto e atentariam para o seu fim.”: “Aquele que tem ouvidos para ouvir,
que ouça o chamado de Deus neste dia de salvação.” (Dt 32:29)
Ó pecadores descuidados! Tomara nada conhecessem senão o
amor ao qual tão ingratamente negligenciam, e a preciosidade do sangue de
Cristo ao qual desprezam! Oh! Que nada conhecessem senão as riquezas do
evangelho! Oh! Que nada conhecessem, senão um pouco da certeza, da glória e da
bem-aventurança dessa vida eterna, sobre a qual agora ainda não têm os corações
firmados, nem estão persuadidos a primeira e diligentemente buscar (Hb 11:6;
12:28 e Mt 6:12). Se nada soubessem senão a vida infindável com Deus que
negligenciam, como seria rápida a sua fuga do pecado! Como seria rápida sua
mudança de mente e de vida, de curso e companhia; e como mudariam o fluxo de
suas afeições, e colocariam seus cuidados em outras coisas! Como resolutamente
desprezariam a concessão a estas mesmas tentações que agora os enganam e os
arrebatam! Como zelosamente se moveriam após esta vida bem-aventurada! Como
estariam prontamente com Deus em oração! Como seriam diligentes em ouvir,
aprender e investigar! Como seriam sérios em meditar nas leis de Deus! (Sl
1:1-2) Como temeriam pecar em pensamento, palavra ou ação; e como seriam
cuidadosos em agradar a Deus e crescer em santidade! Oh! Como seriam pessoas
transformadas! E por que não deveriam crer na palavra certa de Deus,
prevalecendo ela sobre vocês, esta mesma que lhes abre essas coisas gloriosas e
eternas?
Mas, permita-me lhes dizer que, mesmo aqui, na terra, vocês
pouco sabem a diferença entre a vida que recusam e aquela que escolheram. Os
santos são íntimos de Deus, ao passo que vocês raramente ousam pensar nEle, e
são íntimos apenas da terra e da carne. Eles conversam sobre o céu, enquanto
vocês são totalmente estranhos a este, e o Deus a quem servem é o ventre, e a
sua preocupação é apenas com as coisas terrenas (Fl 3:18-20). Eles buscam a
face de Deus, enquanto vocês não buscam nada superior a este mundo. Eles estão
ocupados dispondo para a vida infinita, onde serão semelhantes aos anjos (Lc
20:36); enquanto vocês estão arrebatados com as sombras e coisas transitórias
que nada valem. Como são arriscadas e degradantes suas vidas terrenas, carnais
e pecaminosas em comparação à vida nobre e espiritual dos verdadeiros crentes!
Muitas vezes olhei
para esses homens com dor e pena, vendo-os andar com dificuldade no mundo, e
gastar suas vidas, cuidados e trabalhos por nada mais do que um pouco de comida
e vestuário, ou um pouco de pálidos ganhos, ou de prazeres carnais, ou honras
vazias, como se não tivessem nada mais alto em mente. Que diferença há entre as
vidas desses homens e das feras que perecem; homens que gastam seu tempo no
trabalho, na comida e na bebida, enquanto vivem? Não provam dos prazeres
celestiais interiores que os santos provam e nos quais vivem. Prefiro ter um
pouco do conforto dos santos, que os mencionados pensamentos acerca de sua
herança celestial os concede - ainda que venha acompanhado de todo o desprezo e
sofrimentos - a ter todos os prazeres e prosperidades traiçoeiras que vocês
têm. Não queria ter nenhuma de suas opressões secretas e crises de consciência,
nem os pensamentos negros e terríveis sobre a morte e a vida porvir, em troca
de tudo o que mundo lhes dá, ou que possam razoavelmente esperar que ele o
faça.
Se estivesse no seu estado carnal de não convertidos, e
soubesse o que agora sei, e acreditasse no que agora acredito, penso que minha
vida teria um gosto antecipado do inferno. Como seriam frequentes os meus
pensamentos sobre os terrores do Senhor no dia lúgubre que se aproxima! A morte
certa e o inferno ainda estariam diante de mim. Pensaria neles de dia, e
sonharia com eles à noite. Eu me deitaria com medo, e com medo me levantaria, e
viveria no temor de que a morte me alcançasse antes da conversão. Teria
pouquíssima felicidade nas coisas que possuísse, e pouco prazer em qualquer
companhia, e pouca alegria nas coisas do mundo, enquanto soubesse estar sob a
maldição e ira de Deus. Estaria ainda no temor de ouvir esta voz: “Louco, esta
noite te pedirão a tua alma.” (Lc 12:20) E esta temível sentença estaria
escrita na minha consciência: “Para os perversos, todavia, não há paz, diz o
SENHOR.” (Is 48:22)
Ó pobres pecadores! É uma vida cheia de alegria que vocês poderiam
desfrutar, se estivessem verdadeiramente dispostos a ouvir a Cristo e vir a
Deus. Poderiam, então, se aproximar de Deus com ousadia, e chamá-lo de Pai, e
confortavelmente confiar a Ele suas almas e corpos. Se olhassem para as
promessas, diriam: são para mim! Se para a maldição, poderiam dizer: disto fui
liberto! Quando lessem a lei, poderiam ver aquilo de que foram salvos! Quando
lessem o evangelho, poderiam ver aquele que os redimiu, o curso do seu amor,
sua vida santa, seus sofrimentos, e segui-lo nas suas tentações, lágrimas e
sangue, na obra da salvação. Poderiam ver a morte conquistada, os céus abertos,
e suas ressurreições e glorificações fornecidas na ressurreição e glorificação
do seu Senhor. Se olhassem para os santos, poderiam dizer: “são meus irmãos e
companheiros.” Se olhassem para os profanos, poderiam se regozijar por se acharem
salvos desse estado. Se olhassem para o céu, o sol, a lua e as inumeráveis
estrelas, poderiam pensar e dizer: “A face de meu Pai é infinitamente mais
gloriosa; as coisas que ele preparou para os seus santos são superiores; o que
está ali não é senão o palácio exterior dos céus; a bem-aventurança que nos
prometeu vai muito além e é tão elevada que nem carne nem sangue podem
contemplar.” Se pensassem sobre o túmulo, poderiam lembrar-se que o Espírito
glorificado, a Cabeça viva, e o Pai amoroso, todos se encontram em relação tão
próxima ao seu corpo de pó, que ele não pode ser esquecido nem negligenciado;
mas é mais certo que ele volte à vida do que as plantas e flores renasçam na
primavera; pois a alma, que é a raiz do corpo, ainda estará viva; e Cristo está
vivo, que é a raiz de ambos. Até mesmo a morte, que é a rainha dos terrores,
poderia ser lembrada e desfrutada com alegria, como sendo o dia da sua
libertação do pecado residual e da dor, e o dia no qual creram, esperaram e
aguardaram, dia em que veriam as coisas benditas de que ouviram, e
descobririam, pela feliz experiência presente, como foi bom escolher a melhor
parte, e ser um santo e sincero crente.
O que me diz, ó homem? Não é esta uma vida mais deleitosa?
Estar seguro da salvação e pronto a morrer não é melhor do que viver como os
ímpios, que têm os corações sobrecarregados com os excessos, bebidas e cuidados
desta vida, vindo sobre eles inesperadamente o dia? (Lc 21:34-36) Não poderiam
vocês viver uma vida confortável, se de uma vez fossem feitos herdeiros dos
céus, e assegurados de que seriam salvos ao deixarem o mundo? Oh! Olhem a sua
volta, então, e pensem no que estão fazendo, e não lancem fora semelhantes
esperanças a troco de nada. A carne e o mundo não podem lhes dar essas
esperanças ou confortos.
E, além de toda a miséria que trazem sobre si mesmos, vocês
são os perturbadores dos outros, enquanto permanecem não convertidos. Vocês dão
problemas aos magistrados para que lhes governem com as leis; perturbam os
ministros, ao resistirem à luz e aos conselhos que lhes oferecem. Seus pecados
e miséria são a causa das maiores aflições e problemas para eles no mundo.
Vocês perturbam a comunidade, e atraem os julgamentos de Deus sobre si. São
vocês os que mais perturbam a paz santa e a ordem das igrejas e impedem nossa
união e reforma, e são a vergonha e o problema das igrejas onde se intrometem,
e nos lugares onde frequentam.
Ah! Senhor, como é pesada e triste esta situação, até mesmo
na Inglaterra, onde abunda o evangelho mais do que em qualquer nação do mundo,
onde o ensino é tão claro e comum, e todos os auxílios que desejamos estão
próximos. Quando a espada nos retalhava, e o julgamento corria como fogo na
nação, a libertação nos aliviou, e tantas misericórdias admiráveis nos atraíram
a Deus, e ao evangelho, e à vida santa. Porém, como é triste que, após isso
tudo, nossas cidades, vilas e campos abundem com multidões de profanos, e
enxameiem de tanta sensualidade, em toda parte, para nossa dor, como hoje
vemos!
Alguém poderia pensar que, após toda essa luz, e toda essa
experiência, e todos esses julgamentos e misericórdias de Deus, o povo desta
nação se reuniria, como um só homem, e se voltaria para o Senhor, e viria aos
seus mestres piedosos, lamentando todos os pecados de outrora, e desejando se
juntar uns aos outros em humilhação pública, para confessá-los abertamente,
rogando ao Senhor perdão para eles, e anelariam suas instruções, e estariam, a
partir daí, felizes em ser governados pelo Espírito no seu interior, e pelos
ministros de Cristo no exterior, de acordo com a palavra de Deus. Alguém
poderia pensar que, após ouvirem esse arrazoado, com evidências da Escritura,
como ouviram, e após todos esses males e misericórdias, não haveria um ímpio
entre nós, nem um mundano, nem um bêbado, ou alguém que odiasse a reforma, nem
um inimigo da santidade que fosse encontrado em todas as nossas cidades ou
campos. Se nem todos concordássemos acerca de certas cerimônias ou formas de
governo, alguém poderia pensar que, antes disso, todos deveríamos ter
concordado em viver uma vida santa e celestial, em obediência a Deus, à sua
palavra e aos ministros, e em amor e paz uns com os outros.
Porém, infelizmente, como está longe o nosso povo dessa
conduta! A maior parte deles, em muitos lugares, põem, na verdade, seus
corações em coisas terrenas e buscam “não em primeiro lugar o reino de Deus e
sua justiça”; mas contemplam a santidade como algo inútil. Suas famílias não
oram, e até mesmo algumas palavras sem coração e sem vida devem servir ao invés
de orações ferventes, sinceras e diárias [ou, talvez, apenas no dia do Senhor,
à noite]. A seus filhos não se ensina o conhecimento de Cristo, do pacto da
graça, nem são criados no alimento do Senhor, ainda que tenham prometido
firmemente isso tudo por ocasião do batismo deles.
Não instruem seus servos nos assuntos da salvação, mas desde
que façam seu trabalho, não se importam. Há mais palavras de insulto em suas
casas do que palavras graciosas, que tendem à edificação. Como são poucas as
famílias que temem ao Senhor, e buscam na sua Palavra e junto a seus ministros
sobre como devem viver, e o que devem fazer, e que estão dispostas a ser
ensinadas e governadas, e buscam de coração a vida eterna! E esses poucos a
quem o Senhor fez tão felizes são comumente motivo de chacota para os seus
vizinhos. Quando vemos alguns vivendo na bebedeira, e outros na soberba e
mundanismo, e a maior parte deles com pouca consideração pela salvação, ainda
que sua situação seja, sem dúvida alguma, repulsiva, contudo, dificilmente
serão convencidos de sua miséria, e muito arduamente recuperados e reformados.
Mas quando fizemos tudo o que está ao nosso alcance para livrá-los de seus
pecados, ainda deixamos a maior parte deles do modo pelo qual os encontramos. E
se, de acordo com a lei de Deus, os excomungamos da igreja, quando tiverem
obstinadamente rejeitado todas as nossas admoestações, rugem contra nós como se
fôssemos seus inimigos, e seus corações se enchem de malícia contra nós, e logo
se colocarão contra o Senhor e suas leis, contra a igreja e os ministros, ao
invés de irem contra seus pecados mortais.
Esta é a dolorosa situação da Inglaterra. Temos magistrados
que aprovam os caminhos da piedade, e uma feliz oportunidade para a unidade e
reforma diante de nós, e ministros fiéis anseiam por ver a justa ordenação da
igreja e das ordenanças de Deus; mas o poder do pecado em nosso povo frustra a
quase todos. Em quase nenhum lugar pode o fiel ministro aplicar a
inquestionável disciplina de Cristo, ou impedir o mais escandaloso dos pecadores
impenitentes da comunhão da igreja e da participação nos sacramentos, sem que a
maior parte do povo não se lhe oponha e o difame. Como se essas almas
descuidadas e ignorantes fossem mais sábias que seus mestres, ou do que o
próprio Deus! E assim, no dia da nossa visitação, quando Deus nos chama a
reformar sua igreja, não obstante o poder civil pareça disposto, e ministros
fiéis também, contudo, aí está a multidão de pessoas ainda indispostas, e se
cegaram de tal modo, endurecendo seus corações que, até mesmo nestes dias de
luz e graça, são obstinadas inimigas da luz e da graça, e não serão atraídas
pelos chamados de Deus para que vejam suas tolices, e saibam o que é bom para
elas. Tomara o povo da Inglaterra “conhecesse por si mesmo, ainda hoje, o que é
devido à paz! Mas isso está agora oculto aos seus olhos.” (Lc 19:42)
Ó almas tolas e miseráveis! (Gl 3:1) Quem enfeitiçou suas
mentes com essa loucura, e seus corações com semelhante apatia, para que fossem
inimigas mortais de si mesmas? E para que insistissem tão obstinadamente no
caminho da condenação, que nem a palavra de Deus, nem a persuasão dos homens,
pudessem mudar suas mentes, ou segurar suas mãos, ou detê-los, até que as
esperanças se fossem!
Bem, pecadores, esta vida não durará para sempre! Esta paciência
não esperará enquanto vocês se demoram. Não pensem que abusarão do seu Criador
e Redentor, e servirão a seus inimigos, e degradarão suas almas, e perturbarão
o mundo, e ultrajarão a igreja, e reprovarão os piedosos, e entristecerão seus
mestres, e impedirão a reforma, isso tudo sem um preço! Vocês ainda não sabem
qual será esse preço, mas brevemente saberão, quando o justo Deus os tomar
pelas mãos, e os tratar de outro modo que nem os mais incisivos dos magistrados
ou os mais leais dos pastores fizeram; a menos que impeçam os tormentos eternos
por uma conversão verdadeira, e uma célere obediência ao chamado de Deus.
“Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça,” enquanto a misericórdia tem uma voz
para clamar.
Uma objeção muito comum na boca dos ímpios, especialmente
nos últimos anos é: “Não podemos fazer nada sem Deus, não podemos ter a graça
se Deus não a conceder a nós. E, se Ele o fizer, rapidamente nos
arrependeremos. Se não nos predestinou, e não nos conceder arrependimento, como
podemos nos arrepender ou ser salvos? Não depende de quem quer ou de quem
corre.” Com isso, pensam que estão escusados.
Já respondi a isso anteriormente, e neste livro. Mas, me
permitam dizer o seguinte:
1. Ainda que não possam se curar, podem se ferir e envenenar
a si mesmos. É Deus quem deve santificar seus corações, mas quem os corrompeu?
Vocês tomarão voluntariamente veneno, porque não podem se curar? Penso que
deviam abster-se ainda mais do pecado. Deviam ter ainda mais cautela dele, se
não podem consertar o que o pecado estragou.
2. Ainda que não possam ser convertidos, sem a graça
especial de Deus, contudo, devem saber que Deus dá a sua graça no uso dos
santos meios que apontou para esse fim. E a graça comum pode lhes capacitar a
resistir a seus pecados escandalosos (quanto ao aspecto exterior) e a usar
esses meios. Vocês podem verdadeiramente dizer que fazem tanto quanto poderiam
fazer? Não são capazes de passar pelas portas da taverna, ou resistir às
companhias que lhes endurecem no pecado? Não são capazes de ouvir a Palavra, e
pensar sobre o que ouviram quando chegarem em casa, e considerarem consigo
mesmos sobre suas próprias condições e sobre as coisas eternas? Não são capazes
de ler bons livros diariamente, ou ao menos no dia do Senhor, e de conversarem
com os que são tementes a Deus? Vocês não podem dizer que já fizeram tudo de
que são capazes.
3. Portanto, devem saber que podem a graça e o auxílio de
Deus pela sua pecaminosidade ou negligência voluntária, ainda que não possam,
sem a graça, voltar-se para Deus. Se não farão o que podem fazer, é justo que
Deus lhes negue aquela graça pela qual poderiam fazer mais.
4. E, quanto aos decretos de Deus, vocês devem saber que
eles não separam o fim dos meios, mais os unem em harmonia. Deus jamais
decretou salvar alguém, senão os santificados, nem condenar ninguém a não ser
os não santificados. Deus, em verdade, decretou também se as suas terras, neste
ano, seriam estéreis ou frutíferas, e quanto tempo vocês devem viver neste
mundo, do mesmo modo como decretou se deveriam ser salvos ou não. Contudo,
vocês reputariam como tolo o homem que se recusasse a arar e semear, dizendo:
“Se Deus decretou que meu solo produzirá cereal, ele o produzirá, quer eu o
lavre e semeie ou não. Se Deus decretou que devo viver, viverei, coma eu ou
não. Mas se não decretou, não é a comida que me manterá vivo.” Vocês sabem como
responder a tal homem, não sabem? Se sabem, então sabem como responder a si
mesmos, pois a situação é a mesma: o decreto de Deus é tão categórico em
relação aos seus corpos quanto às suas almas. Se não fazem isso, então
experimentem primeiro, cheguem às conclusões nos seus corpos antes de se
aventurarem a testar suas almas. Vejam primeiro se Deus manterá seus corpos
vivos sem comida ou vestimentas, e se lhes dará cereal sem cultivo e trabalho,
ou se lhes trará ao final da viagem sem esforço ou transporte; e, se se saírem
bem nisso, então testem se ele os trará aos céus sem que usem diligentemente os
meios e, depois, sentem-se e digam: “Não podemos santificar a nós mesmos.”
Bem, senhores, não tenho senão três pedidos a lhes fazer, e
terei concluído.
Primeiro, que leiam seriamente este pequeno tratado – se em
suas famílias houver alguém necessitado dele, que leia para ele repetidas vezes
– e se os que temem a Deus forem eventualmente aos seus vizinhos ignorantes, e
lerem este ou algum outro livro neste assunto para eles, podem ser meios para
ganhar almas. Se não pudermos implorar que os homens façam trabalho tão
pequeno, para sua própria salvação, quanto lerem instruções tão curtas como
estas, então eles farão pouco caso por si mesmos, e muito justamente perecerão.
Segundo, quando houverem lido por completo este livro, eu
lhes imploro a ficarem a sós e ponderarem um pouco sobre o que leram, e pensem,
estando na presença de Deus, se isto não é verdade, e se quase não toca suas
almas, e se não é tempo de se moverem. Também lhes imploro que se coloquem de
joelhos e roguem ao Senhor que abra os seus olhos para entenderem a verdade, e
converta seus corações para o amor de Deus, e roguem dele todas as graças
salvíficas que por tanto tempo negligenciaram, e sigam-na dia após dia, até que
seus corações sejam transformados. E, ao mesmo tempo, vão aos seus pastores
(que estão estabelecidos sobre vocês, para que tenham cuidado da saúde e segurança
de suas almas, assim como os médicos cuidam da saúde dos seus corpos), e
peçam-lhes que os orientem sobre a direção que devem tomar, e que lhes
familiarizem com seus estados espirituais, para que possam desfrutar do
benefício de seus conselhos e auxílios ministeriais.
Ou, se não tiverem um pastor fiel próximo, façam uso de
algum outro para suprir tão grande necessidade.
Terceiro, quando pela leitura, reflexão, oração e conselho
ministerial, estiverem uma vez familiarizados com seu pecado e miséria, com seu
dever e cura, não adiem, mas logo esqueçam suas companhias e condutas
pecaminosas, e convertam-se a Deus, e obedeçam ao seu chamado. Por amor às suas
almas, cuidem de não ir contra chamado tão sonoro de Deus, e não sejam
contrários ao conhecimento e às suas consciências, para que no dia do
julgamento não ocorra com vocês pior do que a Sodoma e Gomorra. Investiguem
sobre Deus, como um homem disposto a conhecer a verdade, e não ser um traidor
voluntário de sua alma. Examinem as Escrituras diariamente, e vejam se as
coisas são desse modo ou não. Testem imparcialmente se é mais seguro confiar
nos céus ou na terra, e se é melhor seguir a Deus ou ao homem, ao Espírito ou à
carne, e se é melhor viver na santidade ou no pecado; ou se lhes é seguro viver
um dia a mais em um estado profano. E, quando descobrirem o que é melhor, ajam
de acordo, e façam sua escolha sem mais delongas.
E se forem verdadeiros com suas almas, e não amarem os
sofrimentos eternos, rogo-lhes, como da parte do Senhor, que nada façam senão
acatar este conselho razoável. Oh! Que cidades e campos felizes, e que feliz
nação teríamos, se pudéssemos persuadir as pessoas a acatarem esta atitude tão
necessária! Como seriam alegres os ministros fiéis se pudessem apenas ver o seu
povo verdadeiramente como pessoas celestiais e santas! Isso seria a unidade, a
paz, a segurança, a glória de nossas igrejas; a felicidade de nosso próximo e o
conforto de nossas almas. Então, como pregaríamos confortavelmente para vocês o
perdão e a paz, e entregaríamos os sacramentos, que são os selos dessa mesma
paz! E com que amor e alegria viveríamos em meio a vocês! Nos seus leitos de
morte, como ousadamente poderíamos confortar e encorajar suas almas moribundas!
E nos seus funerais, como seria confortável deixá-los no túmulo, na expectativa
de encontrá-los nos céus, e ver seus corpos ressurretos para a glória!
Mas, se ainda a maior parte de vocês continua numa vida
descuidada, ignorante, carnal, mundana e profana, e todos os nossos desejos e
labores não puderam até aqui prevalecer a fim de evitar que voluntariamente
condenassem a si mesmos, devemos imitar nosso Senhor, que se deleitava naqueles
que são as pérolas e no pequeno rebanho que receberá o reino, quando a maior
parte colherá a miséria que plantaram. Na natureza, são poucas as coisas
excelentes. O mundo não tem muitos sóis ou luas. Não é senão um pouco da terra
que é ouro ou prata. Príncipes e nobres são uma pequena parte dos filhos dos
homens. E não é grande o número dos letrados, judiciosos e sábios neste mundo.
Portanto, se estreita é a porta e muito apertada, não serão senão poucos que
acharão a salvação. Mas, nestes poucos, Deus terá sua glória e prazer. E quando
Cristo vier com seus anjos poderosos, em fogo chamejante, tomando vingança
sobre os que não conhecem a Deus, e não obedecem ao evangelho de nosso Senhor
Jesus Cristo, sua vinda será glorificada nos santos, e admirada em todos os
crentes verdadeiros (2 Te 1:7-10).
E para os demais, como Deus Pai condescendeu em criá-los, e
Deus Filho não desprezou carregar a penalidade de seus pecados na cruz, e não
reputou tais sofrimentos como vãos, ainda que soubesse que, ao recusar a
santificação do Espírito Santo eles finalmente destruiriam a si mesmos, também
nós, que somos seus ministros, ainda que estes não sejam reunidos, não
reputaremos nosso labor como inteiramente perdido. (Is 49:5)
Leitor, terminei com você (quando tiver lido todo este livro), mas
o pecado ainda terminou (mesmo aqueles que você pensa ter esquecido há muito
tempo), e Satanás não terminou com você (mesmo que esteja fora de vista) e Deus
ainda não terminou com você, porque você não será persuadido a terminar com o
poder reinante e mortal do pecado. Escrevi-lhe estes argumentos como alguém que
está indo ao outro mundo, onde se podem ver as coisas que aqui são faladas, e
como alguém que sabe que brevemente você estará lá. Se alguma vez, você me
encontrar com conforto diante do Senhor que nos criou; se alguma vez escapar
das pragas eternas preparadas para os desprezadores finais da salvação, e para
todos os que não são santificados pelo Espírito Santo, e não amam a comunhão
dos santos, como membros da santa igreja universal; se alguma vez você espera
ver a face de Cristo, o juiz, e a majestade do Pai, com paz e conforto, e ser
recebido em glória quando partir nu deste mundo; eu lhe imploro, eu lhe
responsabilizo, ouça e obedeça ao Chamado de Deus, e resolutamente se arrependa
para que possa viver.
Mas, se não o fizer, mesmo que não tenha razão verdadeira
para isso, senão a falta de vontade, eu o invoco a responder diante do Senhor,
e lhe peço que, lá, preste testemunho sobre mim, que lhe avisei, e que você não
foi condenado por falta de um chamado para se converter e viver, mas porque não
creu e obedeceu a esse chamado. Isso também deverá ser o testemunho de
Seu
sério Admoestador
RICHARD
BAXTER
Assinar:
Postagens (Atom)




