A Caridade e Seus Frutos

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terça-feira, 9 de junho de 2015

A CARIDADE NOS DISPÕE A FAZER O BEM


A CARIDADE NOS DISPÕE A FAZER O BEM
A caridade é sofredora, é benigna.” (1 Co 13.4)

No último discurso a partir dessas palavras, foi mostrado que a caridade, ou amor cristão, é longânima, ou seja, nos dispõe a mansamente suportar as injúrias recebidas dos outros. Agora me proponho a mostrar que é bondosa ou, em outras palavras,
A CARIDADE, OU UM ESPÍRITO VERDADEIRAMENTE CRISTÃO, NOS DISPORÁ A LIVREMENTE FAZER O BEM AOS OUTROS.
Abordando esse ponto, irei (1) desvendar brevemente a natureza do dever de fazer o bem aos outros, e (2) mostrar que um espírito cristão nos disporá a isso.
I. Mostrarei brevemente a natureza do dever de fazer o bem aos outros.
Aqui, três coisas devem ser consideradas: o ato, fazer o bem; os objetos, ou aqueles a quem devemos fazer o bem; e o modo pelo qual deve ser feito, isto é, livremente.
1. O ato que é a matéria do dever, que é fazer o bem aos outros.
Há muitas maneiras pelas quais as pessoas podem fazer o bem às outras, e pelas quais estão obrigados a assim fazer, na medida em que tiverem oportunidade.
Primeiro, as pessoas podem fazer o bem às almas dos outros, que é o modo mais excelente de se fazer o bem. Os homens podem ser, e com frequência são, os instrumentos do bem espiritual e eterno dos outros, e quando alguém assim procede é o instrumento de maior bem a eles do que se lhes houvesse dado todas as riquezas do universo.
Podemos fazer bem às almas dos outros esforçando-nos para instruir os ignorantes, e conduzi-los ao conhecimento das grandes coisas da religião, aconselhando-os e admoestando-os, animando-os ao seu dever e a um oportuno e completo cuidado pelo bem-estar de suas almas; apresentando-lhes bons exemplos, o que de tudo é o mais necessário e, geralmente, o meio mais eficaz de todos na promoção do bem de suas almas. Esse exemplo deve acompanhar os outros meios de se fazer o bem às almas dos homens, tais como a instrução, aconselhamento, avisos e reprovações, sendo necessário para dar força a esses meios, e torná-los eficazes. São mais promissores em torná-los efetivos do que qualquer outra coisa, e, sem ele, é provável que aqueles outros meios sejam vãos.
Os homens podem fazer o bem às almas das pessoas viciosas, sendo os meios no resgate deles de suas condutas viciosas; ou às almas dos que negligenciam o santuário, persuadindo-os a irem à casa de Deus; ou às almas dos pecadores seguros e descuidados, conscientizando-os de sua miséria e perigo. Podem ser, assim, os instrumentos no seu despertamento, e meios da sua conversão, e em trazê-los para o lar de Cristo. Assim, podem pertencer ao número daqueles a respeito de quem lemos que “a muitos conduzem à justiça” (Dn 12.3) e que “resplandecerão como o fulgor do firmamento.
Os santos também podem ser os instrumentos do conforto e estabelecimento uns dos outros, do fortalecimento mútuo na fé e na obediência; da vivificação, animação e edificação; do livramento mútuo das disposições débeis e mortas, e do auxílio nas tentações, em direção à vida divina; do aconselhamento uns dos outros em casos duvidosos e difíceis; do encorajamento mútuo sob trevas ou em provação; e, em geral, promovendo a alegria e força espiritual uns dos outros, sendo assim mutuamente auxiliadores na sua jornada para a glória.
Segundo, as pessoas podem fazer o bem a outras nas coisas exteriores, e relativas a este mundo. Podem ajudar os outros nas suas dificuldades e calamidades exteriores, pois há inúmeros tipos de calamidades temporais a que está sujeita a humanidade, nas quais permanece em bastante necessidade de ajuda de seus amigos e semelhantes. Muitos têm fome, ou sede, ou são estrangeiros, estão nus, doentes, ou em prisão (Mt 25.35,36), ou sofrem de alguma outra forma. A todos esses devemos ministrar.
Podemos fazer o bem aos outros promovendo suas condições ou propriedades materiais [substance] exteriores; ou apoiando seu bom nome, promovendo, assim, sua estima e aceitação entre os homens; ou por qualquer coisa que possa verdadeiramente somar a seu conforto e felicidade no mundo, seja na palavra bondosa, seja na obra discreta e benevolente. Esforçando-nos, assim, para lhes fazer o bem externamente, estamos na maior vantagem de fazer bem às suas almas; pois quando nossas instruções, conselhos, avisos e bons exemplos são acompanhados com essa bondade exterior, esta última tende a abrir o caminho para o melhor efeito das daqueles primeiros, e dar-lhes sua plena força, e a levar aquelas pessoas a apreciarem nossos esforços quando buscarmos seu bem espiritual.
Assim, podemos contribuir para o bem dos outros de três modos: dando-lhes as coisas de que precisam e que possuímos; fazendo por eles, e esforçando-nos para ajudá-los e promover seu bem estar; e sofrendo por eles, auxiliando-lhes a suportar seus fardos, fazendo tudo em nosso poder para tornar esses fardos leves. Em cada um desses modos, o cristianismo requer que façamos o bem aos outros. Ele requer que demos aos outros, “dai, e dar-se-vos-á” (Lc 6.38). Requer que façamos pelos outros, e trabalhemos por eles: “Porque, vos recordais, irmãos, do nosso labor e fadiga; e de como, noite e dia labutando para não vivermos à custa de nenhum de vós, vos proclamamos o evangelho de Deus.” (1 Ts 2.9) e : “Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos.” (Hb 6.10) E requer de nós que, se for necessário, soframos pelos outros: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo.” (Gl 6.2) E: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos.” (1 Jo 3.16) De modo que, de todas essas maneiras, as Escrituras requerem que façamos o bem a todos. Passo então a falar,
2. Dos objetos deste ato, ou daqueles a quem devemos fazer o bem.
As Escrituras com frequência referem-se a eles pela expressão “nosso próximo”, pois o dever diante de nós é implicado no mandamento de que amemos nosso próximo como a nós mesmos. Mas aqui, talvez, estejamos apressados a, como o jovem advogado que veio a Cristo (Lc 10.29), perguntar: “Quem é nosso próximo?” E assim como a resposta de Cristo lhe ensinou que o samaritano era próximo dos judeus, embora os samaritanos e judeus estimassem uns aos outros como vis e malditos, e como amargos inimigos, também podemos ser ensinados sobre quem são aqueles a quem devemos fazer o bem, em três aspectos:
Primeiro, devemos fazer o bem tanto ao bom quanto ao mau. Isso devemos fazer, se quisermos imitar nosso Pai celeste, pois “ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos.” (Mt 5.45) O mundo está cheio de tipos variados de pessoas, algumas boas, outras más; devemos fazer o bem a todas. Devemos, na realidade, em especial, “fazer o bem aos da família da fé”, ou que tenhamos razão, no exercício da caridade, de reputar como santos. Mas, ainda que devamos abundar no exercício da beneficência a eles, o bem que fazemos não deve ser confinado a eles, mas devemos fazer o bem a todos os homens, quando tivermos oportunidade.
Enquanto vivermos neste mundo, devemos esperar encontrar alguns homens de qualidade muito más, e de inclinações e práticas odiosas. Alguns são orgulhosos, outros imorais, invejosos, profanos, injustos ou severos, e alguns desprezam a Deus. Mas quaisquer uma ou todas essas más qualidades não deve impedir nossa beneficência, ou prevenir que lhes façamos o bem enquanto tivermos oportunidade. Por esse exato motivo é que devemos, ao contrário, ser diligentes em beneficiá-los, para que os ganhemos para Cristo; e em especial devemos ser diligentes para beneficiá-los nas coisas espirituais.
Segundo, devemos fazer o bem tanto a amigos quanto a inimigos.
Somos obrigados a fazer o bem aos nossos amigos, não apenas pela obrigação sob a qual nos encontramos de lhes fazer o bem na condição de nossos semelhantes, e de pessoas feitas à imagem de Deus, mas pela obrigação da amizade, gratidão e da afeição que lhes devotamos. Também somos obrigados a fazer o bem aos nossos inimigos, pois nosso Salvador diz: “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.” (Mt 5.44) Fazer o bem aos que nos prejudicam é a única retaliação que incumbe a nós, como cristãos, pois somos ensinados a “Não tornar a ninguém mal por mal” (Rm 12.17) mas, ao contrário, “a vencer o mal com o bem” (Rm 12.20); e novamente está escrito: “Evitai que alguém retribua a outrem mal por mal; pelo contrário, segui sempre o bem entre vós e para com todos;” (1 Te 5.15) e ainda: “não pagando mal por mal ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo, pois para isto mesmo fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança.” (1 Pe 3.9)
Terceiro, devemos fazer o bem tanto aos agradecidos quanto aos ingratos . A isso somos obrigados pelo exemplo de nosso Pai celeste, pois ele “é benigno até para com os ingratos e maus.” (Lc 6.35) E o mandamento é que, “sede misericordiosos, como ele é misericordioso”. Muitos fazem objeção a fazermos o bem aos outros, dizendo: “Se eu fizer, jamais me agradecerão; pela minha bondade, me recompensarão com abuso e injúria.” Assim, estão prontos a se escusarem do exercício da bondade, especialmente àqueles que podem ter se lhes mostrado ingratos. Mas essas pessoas não olham o suficiente para Cristo, e, ou mostram sua falta de familiaridade com os preceitos do cristianismo, ou sua indisposição de acalentar seu espírito.
Tendo assim falado do dever de fazer o bem, e das pessoas a quem devemos fazê-lo, passo, como proposto, a falar,
3. Da maneira pela qual devemos fazer o bem aos outros. Ela está expressa na única palavra “livremente.” Isso parece estar implicado nas palavras do texto; pois ser bondoso é ter disposição para livremente fazer o bem. Qualquer bem que seja feito, não há propriamente bondade no seu autor, a menos que seja feito livremente. E fazer o bem livremente implica três coisas:
Primeiro, que a nossa prática do bem não seja em um espírito mercenário. Não devemos fazê-lo por causa de qualquer recompensa recebida ou esperada daquele a quem fazemos o bem. O mandamento é: “Fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga.” (Lc 6.35) Frequentemente, os homens farão o bem aos outros esperando receber o mesmo tanto novamente; mas devemos fazer o bem aos pobres e necessitados, de quem nada podemos esperar em retorno. O mandamento de Cristo é: “Quando deres um jantar ou uma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos; para não suceder que eles, por sua vez, te convidem e sejas recompensado. Antes, ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos.” (Lc 14.12-14).
Para que a nossa prática do bem seja livre, e não mercenária, é necessário que o que fazemos seja feito não por causa de qualquer bem temporal, ou para promover nosso interesse temporal, ou honra, ou lucro, mas devido ao espírito de amor.
Segundo, que a nossa prática do bem seja livre é requisito para que o façamos alegre ou sinceramente, e com verdadeira boa vontade para com aquele que beneficiaremos. O que é feito sinceramente, é feito pelo amor; e o que é feito pelo amor, é feito com prazer, e não com murmuração ou má vontade e relutância de espírito. “Sede hospitaleiros”, diz o apóstolo (1 Pe 4.9), “sem murmuração”. E Paulo diz: “Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria.” (2 Co 9.7) Esse requisito ou qualificação na nossa prática do bem é bastante insistido nas Escrituras. “O que contribui,” diz o apóstolo “faça com liberalidade; o que preside, com diligência; quem exerce misericórdia, com alegria.” (Rm 12.8) E Deus dá uma responsabilidade estrita: “Não seja maligno o teu coração, quando lho deres.” (Dt 15.10) E, em uma palavra, a própria ideia de dar de boa vontade é apresentada por toda a Bíblia como implicando que demos com um espírito cordial e alegre. Dar livremente também implica,
Terceiro, que o façamos liberal e abundantemente. Não devemos ser escassos e poupadores em nossas dádivas ou esforços, mas devemos ter os corações e as mãos abertas. Devemos “abundar em toda boa obra” (2 Co 9.8,11), “enriquecendo-vos, em tudo, para toda generosidade”. Assim, Deus requer que quando dermos ao pobre, devamos “lhe abrir de todo a mão.” (Dt 15.8) E nos é dito que “a alma generosa prosperará.” (Pv 11.25) O apóstolo queria que os coríntios fossem abundantes em suas contribuições aos santos pobre na Judeia, assegurando-lhes que “aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com fartura com abundância também ceifará.” (2 Co 9.6)
Tendo assim explicado a natureza deste dever de livremente fazer o bem aos outros, prossigo agora para mostrar,
II. Que um espírito cristão nos disporá a assim fazer o bem aos outros. E isso aparece a partir de duas considerações:
1. A coisa principal naquele amor, que é a soma do espírito cristão, é a benevolência ou a boa vontade com os outros. Já vimos o que é o amor cristão, e como é variadamente denominado de acordo com seus vários objetos e exercícios; e particularmente  como, uma vez que diz respeito ao bem desfrutado, ou a ser desfrutado pelo objeto amado, é chamado o amor de benevolência, e, no que diz respeito ao bem a ser desfrutado no objeto amado é chamado de amor de complacência. O amor de benevolência é aquela disposição que nos leva a ter desejo, ou prazer no bem do outro; e essa é a coisa principal no amor cristão; com efeito, é a coisa mais essencial nele, e aquilo pelo qual nosso amor é em grande parte uma imitação do amor e da graça eterna de Deus, e do amor sacrificial de Cristo, que consiste na benevolência ou boa vontade  aos homens, como foi cantado pelos anjos no seu nascimento (Lc 2.14). De modo que a coisa principal no amor cristão é a boa vontade, ou uma disposição para se deleitar e buscar o bem daqueles que são objetos desse amor.
2. A evidência mais natural e conclusiva de que tal princípio é verdadeiro e sincero é que seja eficaz. A evidência mais natural e conclusiva de nosso desejo ou disposição em fazer o bem aos outros é quando o fazemos. Em cada caso, nada pode ser mais claro do que o fato de que a natural e conclusiva evidência da vontade é a ação; e a ação sempre segue a vontade, onde há poder para agir. A evidência natural e conclusiva de que um homem sinceramente deseja o bem de outro é que ele o busca na sua prática: pois tudo o que verdadeiramente desejamos, realmente assim buscamos. As Escrituras, portanto, falam de fazer o bem, como a evidência própria e plena do amor; e elas com frequência falam de amar em obras ou práticas, como sendo equivalente a amar em verdade e realidade: “Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade. E nisto conheceremos que somos da verdade,” isto é, saberemos que somos sinceros. E novamente: “Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso?” (Tg 2.15-16) Não há proveito algum para eles, logo, não há nenhuma evidência de sinceridade de sua parte, e que você realmente deseje que sejam vestidos e alimentados. Sinceridade de desejo levaria não meramente à palavras, mas a atos de benevolência.
APLICAÇÃO
Na aplicação desse assunto, concluindo, podemos usá-lo,
1. Como reprovação.
Se um espírito verdadeiramente cristão dispõe as pessoas a fazer o bem livremente às outras, então todos que são de espírito e prática contrários podem ser reprovados. Um espírito maligno e malicioso é o exato oposto disso, pois dispõe os homens a fazer o mal aos outros, e não o bem. E, do mesmo modo, é um espírito difícil e egoísta, pelo qual os homens estão totalmente inclinados a seus próprios interesses, e totalmente indispostos a renunciar a seus próprios fins por causa dos outros.
Também são de um espírito e prática muito opostos ao espírito de amor aqueles que exibem um ânimo exorbitantemente ganancioso e avarento, e que aproveitam toda oportunidade para obter tudo que puderem de seus conhecidos, ao lidarem com eles. Pedem-lhes pelo que fizeram ou lhes venderam mais do que verdadeiramente merecem, e achacam-nos ao máximo com suas demandas exorbitantes. Não se preocupam em avaliar a coisa para seus conhecidos, mas, por assim dizer, forçam-nas para que possam obter o máximo dela. E os que fazem essas coisas, em geral são muito egoístas também ao comprar dos outros, reduzindo e comprimindo até os menores preços, e se opondo a pagar pela coisa seu preço justo.
Esse espírito e prática são muito opostos ao espírito cristão, e são severamente reprovados pela grande lei do amor, isto é, que façamos aos outros como queremos que nos façam.
O assunto que estamos considerando também,
2. Exorta a todos ao dever de livremente fazer o bem aos outros.
Visto que este é um dever cristão, e uma virtude apropriada ao evangelho, e para a qual o espírito cristão, se o possuímos, vai nos dispor, procuremos, enquanto temos oportunidade, fazer o bem para as almas e os corpos de outros, esforçando-nos para sermos uma bênção para eles no tempo e na eternidade. Com esse propósito, estejamos dispostos a fazer, ou dar, ou sofrer, para que possamos fazer o bem do mesmo modo a amigos e inimigos, maus e bons, gratos e ingratos. Que nossa benevolência e beneficência sejam universais, constantes, livres, habituais, e de acordo com as nossas oportunidades e capacidades; pois isso é essencial à verdadeira piedade, e exigido pelos mandamentos de Deus! E aqui várias coisas devem ser consideradas:
Em primeiro lugar, que grande honra é ser feito um instrumento do bem no mundo. Quando enchemos nossas vidas com a prática do bem, Deus coloca sobre nós a alta honra de nos tornar uma bênção para o mundo - uma honra, como a que colocou sobre Abraão, quando disse: “De ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção!” (Gênesis 12:2) A própria luz da natureza ensina que esta é uma grande honra. Portanto, os reis e governantes do Oriente costumavam assumir para si o título de benfeitores, ou seja, “executores do bem”, como o mais honrado que podiam conceber (Lucas 22:25). Era uma coisa comum em terras pagãs, quando aqueles que tinham feito uma grande porção de bem em sua vida morriam, que os povos entre os quais habitavam  os reputassem como deuses, e construíssem templos em sua honra e para o seu culto. Até onde Deus faz os homens os instrumentos de fazer o bem para os outros, ele os torna como os corpos celestes - o sol, a lua e as estrelas, que abençoam o mundo através do derramamento da sua luz; ele os faz como os anjos, que são espíritos ministradores para os outros, para o bem deles. Sim, os faz como ele mesmo, a grande fonte de todo o bem, que está sempre derramando suas bênçãos sobre a humanidade.
Em segundo lugar, fazer livremente o bem para os outros, é tão somente fazer a eles o que gostaríamos que fizessem a nós. Se outros têm um boa vontade sincera para conosco, e nos mostram uma grande quantidade de bondade, e estão prontos para nos ajudar quando estamos em necessidade, e com esse propósito são livres para fazer, ou dar, ou sofrer por nós, e suportar nossos fardos, e sentir por nós em nossas calamidades, e são calorosos e liberais em tudo isso, nós muito grandemente aprovamos o seu espírito e conduta. E não apenas aprovamos, mas grandemente recomendamos, e, talvez, aproveitemos as ocasiões para falar bem dessas pessoas, nunca pensando, no entanto, que ultrapassaram o seu dever, mas que agem como deveriam fazer. Lembremos-nos, então, que, se isso é tão nobre e digno de ser elogiado em outros quando somos seus objetos, então devemos fazer o mesmo para eles, e para todos. O que nós assim aprovamos devemos exemplificar em nossa própria conduta.
Em terceiro lugar, consideremos como Deus e Cristo têm sido bons para nós, e quanto bem recebemos deles. A sua bondade nas coisas concernentes a este mundo tem sido muito grande. As misericórdias divinas se renovam para nós todas as manhãs e todas as noites: são tão incessantes como o nosso ser. E coisas boas ainda maiores Deus concedeu para o nosso bem espiritual e eterno. Deu-nos o que é de mais valor do que todos os reinos da terra. Deu o seu Filho unigênito e bem-amado - o maior presente que poderia dar. E Cristo não apenas fez, mas sofreu grandes coisas, e deu a si mesmo para morrer por nós; e tudo livremente, sem murmuração, ou esperança de recompensa. “Sendo rico,” com todas as riquezas do universo, “se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos.” (2 Cor. 8:9). E que grandes coisas Deus tem feito para os que dentre nós são convertidos, e foram trazidos para o lar de Cristo; libertando-nos do pecado, justificando-nos e santificando-nos, fazendo-nos reis e sacerdotes para Deus e nos dando um direito “a uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros.” (1 Pe 1:4). E tudo isso, quando não éramos bons, mas maus e ingratos, e merecíamos em nós mesmos apenas a ira.
Em quarto lugar, vamos considerar que grandes recompensas são prometidas àqueles que livremente fazem o bem aos outros. Deus prometeu que para “com o benigno, benigno te mostras” (Sl 18:25); e não há praticamente qualquer dever mencionado em toda a Bíblia, que tenha tantas promessas de recompensa como este, seja para este mundo ou o mundo porvir.
Para este mundo, como nosso Salvador declara: “Mais bem-aventurado é dar que receber.” (Atos 20:35) Aquele que dá generosamente é mais abençoado nos dons abundantes de que ele compartilha, do que aquele que recebe a recompensa . O que é oferecido ao fazer o bem aos outros não é perdido, como se tivesse sido atirado ao mar. É, antes, como nos diz Salomão (Eclesiastes 11:1), como a semente que os orientais plantam espalhando-a pelas águas quando vêm as enchentes, a qual afunda até o leito, e lá se enraíza, e germina, e depois é encontrada novamente, em abundante colheita. O que assim é dado, é emprestado ao Senhor (Pv 19:17), e o que temos, portanto, lhe emprestado, ele vai nos pagar novamente. E não somente irá pagar, mas vai aumentar muito o seu valor. Porque, se damos, é declarado (Lucas 6:38), que “de boa medida, recalcada, sacudida, transbordante, generosamente vos darão” Na verdade, essa é a maneira de aumentar; pois é dito (Pv 11:24.) “A quem dá liberalmente, ainda se lhe acrescenta mais e mais; ao que retém mais do que é justo, ser-lhe-á em pura perda”, e novamente (Isaías 32: 8) “o liberal projeta coisas liberais, e pela liberalidade está em pé.
Até mesmo o que os homens não regenerados dão dessa forma, Deus muitas vezes parece recompensar com grandes bênçãos temporais. Sua própria declaração é (Pro 28:27.), que “o que dá ao pobre não terá falta,” e a promessa não se restringe aos santos: e nossa observação da providência mostra que os presentes dos homens para os pobres são quase sempre recompensados por Deus, como a semente que semeiam no campo. É fácil para Deus compensar, e mais do que compensar a nós todos para que, assim, doemos para o bem dos outros. É sobre esse tipo de doação, que o apóstolo diz aos coríntios (2 Co 9:6-8), que “o que semeia com abundância, com abundância ceifará”, acrescentando que “Deus ama ao que dá com alegria”, e que ele “pode fazer-vos abundar em toda graça”, isto é, fazer com que todos as suas dádivas abundem para si mesmos.
Muitas pessoas pouco consideram o quanto a sua prosperidade depende da providência. E, no entanto, mesmo para este mundo, é “a bênção de Deus que enriquece” (Pv 10:22.); e daquele que tem consideração pelo pobre, está escrito (Sl. 41:1), que “o Senhor o livrará no dia do mal.” E se dermos da forma e com o espírito da caridade cristã, devemos, portanto, ajuntar tesouros no céu, e receber finalmente as recompensas da eternidade. Isso é aquele entesourar que não falha, do qual Cristo fala (Lucas 0:33), e, com relação ao qual declara (Lucas 14:13, 14) que, apesar de os pobres a quem beneficiamos não poderem nos recompensar, “seremos recompensados na ressurreição dos justos”

Esta, então, é a melhor maneira de dispor para nós mesmos no tempo ou para a eternidade. É a melhor maneira de dispor para nós mesmos, e a melhor maneira de dispor para nossa posteridade; pois do homem bom, que mostra favor e empresta, está escrito (Sl. 112) que “o seu poder se exaltará em glória”, e que “a sua descendência será poderosa na terra; será abençoada a geração dos justos. Na sua casa há prosperidade e riqueza, e a sua justiça permanece para sempre.” E quando Cristo vier para o julgamento, e todas as pessoas forem reunidas diante dele, em seguida, para aqueles que foram gentis e benevolentes, no verdadeiro espírito do amor cristão, para com os sofredores e pobres, deve dizer (Mat. 25: 34-36, 40): “Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me.” “Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A CARIDADE NOS DISPÕE A SUPORTAR MANSAMENTE OS DANOS CAUSADOS PELO OUTROS



A CARIDADE NOS DISPÕE A SUPORTAR MANSAMENTE OS DANOS CAUSADOS PELO OUTROS
1 Coríntios 13:4
A caridade é sofredora, é benigna.

O apóstolo, nos versículos anteriores, apresenta como a caridade – ou um espírito de amor cristão – é, no cristianismo, algo grande e essencial: que é muito mais necessária e excelente que quaisquer dos dons extraordinários do Espírito; que excede de longe a todas as realizações e sofrimentos externos e, resumindo, é a soma de tudo o que seja distinto e salvífico no cristianismo, a própria vida e alma de toda religião, sem a qual, ainda que déssemos todos os bens para alimentar o pobre, e nossos corpos para serem queimados, nada seríamos. E agora ele prossegue, à medida que o assunto naturalmente o conduz, para mostrar a natureza excelente da caridade, descrevendo seus diversos frutos amáveis e excelentes. No nosso texto, dois deles são mencionados: ela é sofredora, no que diz respeito ao mal e dano recebidos dos outros; e benigna, no que diz respeito ao bem a ser feito aos outros. Manejando agora o primeiro destes pontos, me esforçarei por demonstrar:
QUE A CARIDADE, OU UM ESPÍRITO VERDADEIRAMENTE CRISTÃO, NOS DISPORÁ A MANSAMENTE SUPORTAR O MAL QUE RECEBEMOS DOS OUTROS, OU OS PREJUÍZOS QUE POSSAM NOS CAUSAR.
A mansidão é grande parte do espírito cristão. Cristo, naquele urgente e tocante chamado e convite que temos no capítulo décimo-primeiro de Mateus, no qual convida a todos os cansados e sobrecarregados a virem a ele para descansar, menciona em particular que viessem para aprender dele, pois adiciona: “sou manso e humilde de coração.” E a mansidão, no que diz respeito aos danos recebidos dos homens, é chamada de longanimidade nas Escrituras, e é sempre mencionada como um exercício, ou fruto do espírito cristão: “Mas o fruto do Espírito é: caridade, gozo, paz, longanimidade...” (Gl 5:22); e: “Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade...” (Ef 4:1,2), e: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também.” (Cl 3:12, 13)
Ao trabalhar mais plenamente sobre este ponto, irei: i) notar alguns dos vários tipos de danos que os outros podem nos causar; ii) mostrar o que se quer dizer por mansamente suportar tais danos; e, iii) como esse amor, que é a soma do espírito cristão, nos disporá a fazer isso.
I. Notarei brevemente alguns dos vários tipos de danos que podemos ou de fato recebemos dos outros.
Alguns prejudicam os outros nos seus negócios, pela injustiça e desonestidade na sua maneira de relacionar-se com eles, sendo fraudulentos e enganadores, ou pelo menos ao levá-los a agir no escuro, e ao tomar vantagem de sua ignorância. Também ao oprimi-los, tomando vantagem de suas necessidades; sendo-lhes infiéis ao nao cumprir com suas promessas e pactos, e sendo remissos e relaxados em algum empreendimento no qual seus próximos os empregam; eles nada visam senão obter o preço estipulado, sendo despreocupados quanto ao máximo aproveitamento do tempo na realização da tarefa a eles proposta; ou ao pedir preços exorbitantes pelo que fazem; ou ao reter o que é devido ao próximo injustamente, negligenciando pagar suas dívidas; ou pondo o próximo desnecessariamente em problemas e dificuldades para obterem o que é deles por direito.
Além disso, ha inúmeros outros métodos pelos quais os homens prejudicam uns aos outros em seus negócios, pela abundância de caminhos tortuosos e perversos, nos quais estão longe de fazer aos outros o que desejariam fosse feito a si mesmos, e pelos quais provocam-se e prejudicam-se mutuamente.
Alguns prejudicam o bom nome dos outros, ao reprová-los ou falar mal deles pelas costas. Nenhum dano é mais comum, e nenhuma iniquidade mais frequente ou vil do que essa. Outras formas de dano são abundantes, mas a quantidade de dano causado por este tipo de maledicência não tem conta. Outros, sem dizer o que é diretamente falso, grandemente representam mal as coisas, pintando tudo o que diz respeito ao próximo com as piores cores, exagerando suas faltas, e as apresentando como muito maiores do que realmente são, sempre falando deles de uma maneira injusta e desonesta.
Grande quantidade de prejuízo é feita entre as pessoas ao julgarem-se mutuamente sem a caridade, interpretando de modo prejudicial e maldoso as palavras e ações dos outros.
As pessoas podem prejudicar grandemente as outras em seus pensamentos, ao injustamente manterem pensamentos maldosos sobre elas, ou as tendo em baixa estima. Alguns são profunda e continuamente prejudiciais aos outros, pelo desprezo que habitualmente têm nos corações a respeito deles, e pela disposição de pensar o pior deles. E, assim como o fluxo de pensamentos, muito se faz para o prejuízo dos outros por meio de palavras; pois a língua encontra-se muito disposta a ser o instrumento ímpio da expressão dos maus pensamentos e sentimentos da alma; daí, nas Escrituras (Jó 5:21), ela ser chamada de açoite, e ser comparada (Sl 140:3) às peçonhas de algumas das mais venenosas espécies de serpentes, cuja picada é capaz de levar à morte.
Às vezes, os homens prejudicam os outros nos seus tratamentos e ações para com eles, e nos atos injuriosos que cometem contra eles. Se vestidos de autoridade, às vezes, conduzem-se de modo bastante prejudicial para com os que estão sob sua autoridade, se comportando muito presunçosa, autoritária e tiranicamente para com eles.
Às vezes, os que estão sob autoridade, comportam-se de modo bastante prejudicial para com os que estão acima deles, ao negarem-lhes o respeito e a honra que lhes é devido pelas suas posições, e, desse modo, a si mesmos também, quando ocupam essas posições.
Alguns se conduzem de modo bastante prejudicial para com os outros pelo exercício de um espírito em extremo egoísta, tendo um elevado conceito de si mesmos, e aparentemente não se preocupando com o bem ou benefício do próximo, mas todos os seus projetos são apenas para o bem de seus próprios interesses.
Alguns se conduzem prejudicialmente pela manifestação de um espírito altivo e orgulhoso, como se pensassem ser mais excelentes que todos os outros, e que não devessem se preocupar com mais ninguém senão consigo mesmos. Isso se mostra em seu aspecto, conversas e ações, e pelo seu comportamento grandemente pretencioso em geral, que chega a tal ponto que os que estão a volta deles sentem, e com razão, que são por eles injuriados.
Alguns se conduzem muito prejudicialmente pelo exercício de um espírito voluntarioso, sendo tão desesperadamente estabelecidos em ter seus próprios caminhos, que irão, se possível, curvar tudo o mais à sua própria vontade, e jamais alterarão sua carreira, nem cederão aos desejos de outrem. Eles fecham os olhos contra a luz ou motivos que os outros possam oferecer, e não têm preocupação alguma com a inclinação de ninguém mais senão a sua própria, sendo sempre perversos e obstinados em realizar as coisas do seu modo.
Alguns se conduzem prejudicialmente durante o período em que tomam parte dos assuntos públicos, agindo menos pela preocupação com o bem público, e mais com o espírito de oposição a algum partido, ou a alguma pessoa em particular, de modo que a pessoa ou partido oposto é prejudicada, e com frequência grandemente provocada e exasperada.
Alguns prejudicam os outros pelo espírito malicioso e ímpio que entretêm contra eles, com ou sem motivo. Não é incomum que as pessoas se desgostem ou até mesmo se odeiem, não acariciando qualquer coisa semelhante ao amor um pelo outro nos corações; mas, quer reconheçam ou não, odiando na realidade um ao outro, não tendo prazer na honra ou prosperidade do outro, mas, ao contrário, se agradando quando são lançados na adversidade, tola e impiamente pensando que, talvez, a queda do outro signifique a sua própria exaltação, o que nunca ocorre.
Alguns prejudicam os outros pelo espírito de inveja que lhes mostram, mantendo uma disposição hostil para com eles, sem razão nenhuma, a não ser devido à honra e prosperidade que lhes invejam.
Muitos prejudicam os outros por um espírito de vingança, deliberadamente pagando o mal com o mal, por danos reais ou imaginários que receberam deles. Alguns, enquanto viverem, manterão rancor nos corações, e no momento em que se oferecer a oportunidade, agirão contra eles com o espírito da malícia. E em inúmeros outros modos específicos que poderiam ser mencionados os homens prejudicam uns aos outros, embora esses mencionados possam ser suficientes para o presente propósito.
II. Prossigo para mostrar o que se quer dizer por mansamente suportar tais danos, ou como devem ser mansamente suportados.
Aqui mostrarei primeiro a natureza do dever ordenado; e então o porquê de ser chamado longanimidade, ou paciência duradoura.
1. Mostrarei a natureza do dever de mansamente suportar os danos que sofremos dos outros.
Primeiro, implica que os danos sofridos devem ser suportados sem que nada seja feito para vingá-los.
Há muitos modos pelos quais os homens se vingam, não apenas ao realmente infligir algum sofrimento imediato sobre aquele que o prejudicou, mas por qualquer coisa, seja nas palavras, seja na conduta, que mostre um espírito amargo contra o outro pelo que fez. Logo, se após sermos ofendidos ou prejudicados, falarmos condenatoriamente ao nosso próximo, com o propósito de rebaixá-lo ou prejudicá-lo, e para que gratifiquemos o espírito amargo que sentimos no coração pelo prejuízo sofrido, isso é a vingança.
Aquele, portanto, que exerce a longanimidade cristã em relação ao próximo, suportará o dano recebido dele sem se vingar ou retaliar, quer por atos prejudiciais quer por palavras rancorosas. Ele o suportará sem fazer coisa alguma contra o próximo que manifeste o espírito do ressentimento; sem falar com ele, ou dele, com palavras vingativas, e sem permitir um espírito vingativo no coração, ou que se manifeste em sua prática. A tudo receberá com uma postura calma, impassível, e com uma alma cheia de mansidão, quietude e bondade. Manifestará isso em todo o seu proceder para com aqueles que o prejudicaram, seja na sua presença, seja na ausência.
É por isso que essa virtude é recomendada nas Escrituras com o nome de benignidade, ou como sempre conectado a ela, como se pode ver em Tiago 3.17 e Gálatas 5.22. Naquele que exercita apropriadamente o espírito cristão, não haverá uma expressão passional, temerária ou apressada, nem uma postura amarga e exasperada, ou um ar de violência no falar ou no gesto. Mas, ao contrário, o gesto, as palavras e o procedimento, todos manifestarão o sabor da pacificação, calma e benignidade. Ele talvez reprove seu próximo. Esse pode ser claramente seu dever. Mas, se o fizer, será sem indelicadeza, e sem aquela severidade que tende apenas à cólera. Ainda que seja com força de razão e argumento, e com clara e decidida admoestação, será sem refletir raiva ou linguagem depreciativa. Pode mostrar desaprovação pelo que foi feito, mas não o será com uma amostra de alto ressentimento, e sim como uma reprovação ao ofensor pelo pecado contra Deus, ao invés da ofensa contra si mesmo. É mais um lamento pela sua calamidade, do que ressentimento pelo seu prejuízo, buscando seu bem, não seu dano; é como alguém que mais deseja livrar o ofensor do erro no qual caiu, do que igualar-se a ele pela injúria que lhe foi feita.
O dever ordenado também implica,
Segundo, que os danos sejam suportados com a continuação do amor no coração, e sem aquelas emoções e paixões interiores que tendem a interrompê-lo e destruí-lo.
Devemos suportar os danos, onde formos chamados a sofrê-los, não apenas sem que manifestemos um espírito mal e vingativo em nossas palavras e ações, mas também sem tal espírito no coração. Devemos não apenas controlar nossas paixões quando somos prejudicados, e nos restringir em dar lugar à vingança exterior, mas devemos suportar o dano sem o espírito de vingança no coração. Não apenas um comportamento externo polido deve ter continuidade, mas também, com ele, um amor sincero. Não devemos cessar de amor o próximo porque ele nos prejudicou. Podemos nos compadecer, mas não odiá-lo por isso. O dever ordenado também implica,
Terceiro, que suportemos os danos sem que percamos a calma e repouso de nossas mentes e corações.
Eles devem não apenas ser suportados sem uma postura áspera, mas com uma continuidade da calma interior e do repouso de espírito.
Quando se permite que os prejuízos que sofremos perturbem nosso repouso de mente, e nos coloquem em excitação e tumulto, então, cessamos de suportá-los no verdadeiro espírito da longanimidade. 
Se se permite ao prejuízo nos descompor e inquietar, e quebrar nosso descanso interior, não podemos desfrutar de nós mesmos, e não estamos em um estado apto a nos ocupar em nossos variados deveres. Não estamos especialmente em um estado para os assuntos religiosos – para a oração e a meditação.
Tal estado de mente é o contrário do espírito de longanimidade e de mansamente suportar os prejuízos de que se fala no texto. Os cristãos devem ainda manter a calma e serenidade de suas mentes sossegadas, sob qualquer prejuízo que possam sofrer. Suas almas devem ser serenas, não como a superfície instável da água, agitada por todo vento que sopra. Não importa que males sofram, ou que prejuízos possam lhes infligir, ainda devem agir no princípio das palavras do Salvador a seus discípulos: “Na vossa paciência, possuí a vossa alma.” (Lucas 21.19)
O dever de que falamos também implica, uma vez mais,
Quarto, que em muitas situações onde somos prejudicados, devemos estar dispostos a sofrer muito em nossos interesses e sentimentos pela causa da paz, ao invés de fazer o que tivermos a oportunidade e, talvez, o direito de fazer na defesa de nós mesmos.
Quando sofremos prejuízos dos outros, o caso é que, com frequência, um espírito cristão, se apenas o exercitarmos como nos convém, nos disporá a abster-nos de tomar a vantagem que possamos ter para nos vindicar e fazer justiça a nós mesmos. Pois, agindo de outro modo, podemos ser o meio em trazer uma grande calamidade sobre o que nos prejudicou; e a ternura por ele pode e deve nos dispor a um grande grau de abstenção e a sofrermos de alguma forma nós mesmos, ao invés de trazer excessivo sofrimento sobre ele. Ademais, tal atitude provavelmente levaria à violação da paz, e ao estabelecimento da hostilidade, enquanto que, nesse caminho, pode haver esperança de ganhar nosso próximo, e de um inimigo, torná-lo um amigo.
Essas coisas estão patentes a partir do que o apóstolo diz aos coríntios quanto às demandas judiciais mútuas: “Na verdade, é já realmente uma falta entre vós terdes demandas uns contra os outros. Por que não sofreis, antes, a injustiça? Por que não sofreis, antes, o dano?” (1 Co 6.7)
Não que todos os esforços dos homens para defender-se e fazer justiça quando são prejudicados por outros, sejam censuráveis, ou que tenham que sofrer todos os danos que agrade a seus inimigos infligir-lhes, ao invés de aproveitar a oportunidade que tenham para defender e vindicar-se a si mesmos, ainda que seja para o dano daquele que lhes prejudica.
Mas em muitos, e provavelmente na maior parte dos casos, os homens devem ser primeiramente longânimos [suffer long], no espírito da caridade longânima do texto. E a situação pode ser frequentemente tal que podem ser chamados a sofrer consideravelmente, como orientará a caridade e a prudência, pela causa da paz, e por um amor cristão sincero àquele que lhes prejudica, ao invés de se entregarem ao caminho que possam ter oportunidade.
Tendo assim mostrado o que essa virtude implica, agora mostrarei, brevemente:
2. Por que é chamada longanimidade [long-suffering], ou paciência duradoura [suffering long].
Ela parece ser assim chamada, especialmente por dois motivos:
Primeiro, porque devemos mansamente suportar não apenas um pequeno dano, mas também uma enorme porção de tratamento prejudicial dos outros.
Devemos perseverar e continuar em uma disposição calma, sem cessar de amar nosso próximo, não apenas quando nos prejudica um pouco, mas quando muito nos prejudica, e os danos que nos causa são grandes. Assim, devemos suportar não apenas alguns poucos danos, mas uma enormidade, e ainda que nosso próximo persista no seu tratamento prejudicial conosco por longo tempo.
Quando se diz que a caridade suporta [suffer] por muito tempo [long], não podemos daí inferir que devemos suportar os danos mansamente por uma temporada e que, após essa temporada, devemos parar de suportá-los.  O sentido não é que devamos, de fato, suportar prejuízos por um longo tempo e, por fim, parar de suportá-los. Mas é que devemos mansamente persistir em suportá-los, ainda que perdurem por longo tempo, mesmo até ao fim. O espírito da longanimidade nunca deve cessar.
E é chamada longanimidade:
Segundo, porque em alguns casos devemos estar dispostos a sofrer muito em nossos interesses, antes que aproveitemos as oportunidades para nos fazer justiça.
Embora por fim devamos defender-nos, quando levados, por assim dizer, pela necessidade a isso, contudo, não devemos fazê-lo por vingança, ou para prejudicar aquele que nos prejudicou, mas tão somente pela necessária autodefesa. Mesmo assim, em muitos casos, deve-se ceder à paz, e agir em um espírito cristão para com o que nos prejudicou, para que não o prejudiquemos.
Tendo assim mostrado de que maneira somos frequentemente prejudicados pelos outros, e o que implica em mansamente suportar os prejuízos assim infligidos, venho agora a mostrar:
III. Como esse amor ou caridade, que é a soma do espírito cristão, nos disporá a mansamente suportar esses danos.
E pode-se demonstrar isso tanto em referência ao amor a Deus quanto ao amor a nosso próximo.
1. O amor a Deus e ao Senhor Jesus Cristo tem a tendência de nos dispor a isso. Pois,
Primeiro, o amor a Deus nos dispõe a imitá-lo, portanto, nos dispõe à mesma longanimidade que ele manifesta. A longanimidade com frequência é referida como um dos atributos de Deus. Em Êxodo 34.6 é dito: “E, passando o SENHOR por diante dele, clamou: SENHOR, SENHOR Deus compassivo, clemente e longânimo.” [ARA] Em Romanos 2.4, o apóstolo diz: “Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência, e longanimidade...?”
Muito maravilhosamente se manifesta a longanimidade de Deus na sua tolerância [bearing] de inumeráveis injúrias dos homens, e injúrias que são grandes e muito persistentes. Se considerarmos a impiedade que há no mundo e então considerarmos como Deus continua com o mundo em existência, e não o destrói, mas lhe mostra inúmeras misericórdias; se considerarmos as abundâncias de sua providência e graça diárias, fazendo seu sol nascer sobre os maus e os bons, e enviando chuva igualmente sobre justos e injustos, ofertando suas bênçãos espirituais incessantemente e para todos, perceberemos como é abundante sua longanimidade para conosco.
Se considerarmos sua longanimidade com algumas das grandes e populosas cidades do mundo, e pensarmos como constantemente as dádivas de sua bondade são concedidas e consumidas por eles, e depois considerarmos como é grande a impiedade dessas mesmas cidades, isso nos mostrará como é maravilhosamente grande sua longanimidade.
E essa mesma longanimidade foi manifestada a muitas pessoas particulares, em todas as eras do mundo. Ele é longânimo com os pecadores que poupa, e a quem oferece sua misericórdia, mesmo enquanto ainda são rebeldes contra ele. E é longânimo com seu próprio povo eleito, muitos dos quais viveram no pecado, desprezando tanto sua bondade quanto sua ira. Contudo, por muito tempo os suportou, mesmo até ao fim, até que fossem trazidos ao arrependimento e feitos, pela sua graça, vasos de misericórdia e graça. E esta misericórdia lhes mostrou enquanto eram inimigos e rebeldes, como nos diz o apóstolo acerca de sua própria situação: “Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério, a mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade. Transbordou, porém, a graça de nosso Senhor com a fé e o amor que há em Cristo Jesus. Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna.” (1 Tm 1.12-16)
Ora, é da natureza do amor, ao menos em referência a um superior, que ele sempre inclina e dispõe à sua imitação. Um amor do filho a seu pai o dispõe a imitar o pai, e especialmente o amor dos filhos de Deus os dispõe a imitar seu Pai celeste. E assim como ele é longânimo, também eles o devem ser.
Segundo, o amor a Deus nos disporá a assim expressar nossa gratidão pela sua longanimidade exercida em nós. O amor não apenas dispõe a imitar, mas opera pela gratidão. Aqueles que amam a Deus lhe serão gratos pela abundante longanimidade que exerceu para com eles em particular. Aqueles que amam a Deus como devem, terão esse senso de sua maravilhosa longanimidade para com eles nas muitas injúrias que lhe ofereceram, que lhes parecerá ninharia suportar as injúrias causadas a eles pelos seus semelhantes.
Todas as injúrias que receberam dos outros, em comparação com as que foram oferecidas a Deus, parecerão menos do que alguns centavos em comparação com dez mil talentos. E como aceitam agradecidamente e se admiram da longanimidade de Deus para com eles, também não podem senão testificar sua aprovação e gratidão por ela, manifestando até onde forem capazes, a mesma longanimidade com os outros. Pois, se se recusarem a exercer a longanimidade com aqueles que os prejudicaram, na prática, desaprovariam a longanimidade de Deus para consigo mesmos; pois aquilo que verdadeiramente aprovamos e em que nos deleitamos, não podemos, na prática, rejeitar.
Então, a gratidão pela longanimidade de Deus também nos disporá à obediência a Deus neste particular, quando nos ordena que sejamos longânimos com os outros. E assim, novamente:
Terceiro, o amor a Deus tende a humildade, a qual é uma raiz principal de um espírito manso e longânimo.
O amor a Deus, uma vez que o exalta, tende a diminuir os pensamentos e a estima de nós mesmos, e leva a um profundo senso de nossa indignidade e nosso merecimento do mal. Porque aquele que ama a Deus está sensível da odiosidade e vileza do pecado cometido contra o ser a quem ama. Discernindo em si uma abundância daquilo, aborrece a si mesmo em seus próprios olhos, como indigno de qualquer bem, e merecedor de todo mal.
Sempre se acha a humildade conectada com a longanimidade, como diz o apóstolo: “Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor.” (Efésios 4.2) Um espírito humilde nos indispõe de ressentir-nos dos prejuízos; pois o que é pequeno e indigno aos seus olhos, não pensará tanto de um prejuízo recebido por ele, quanto o que se tem em alta conta, pois se julga maior e mais alta a enormidade da ofensa contra quem é grande e importante, do que quem é desprezível e vil. É o orgulho ou a presunção que é o principal fundamento de um elevado e amargo ressentimento, e de um espírito implacável e vingativo.
Quarto, o amor a Deus dispõe os homens a levarem em conta a mão de Deus nos danos que sofrem, e não apenas a mão do homem, e a mansamente submeterem a sua vontade nisso.
O amor a Deus dispõe os homens a ver sua mão em tudo; a confessá-lo como o governante do mundo, e regente da providência; e a reconhecer sua disposição em tudo o que acontece. E o fato de que a mão de Deus está mais preocupada em tudo o que nos acontece do que está o tratamento dos homens deve nos conduzir, em grande medida, a não pensar nas coisas como se de homens, mas ter-lhes respeito principalmente como de Deus – como ordenado por seu amor e sabedoria, mesmo quando sua fonte imediata for a malícia ou a insensatez de um semelhante. E, se de fato considerarmos e sentirmos que elas procedem da mão de Deus, então estaremos dispostos a mansamente recebê-las e calmamente nos submetermos a elas, e a conceder que os maiores danos recebidos dos homens são justa e até mesmo bondosamente ordenados por Deus, e assim estarmos longe de qualquer irritação ou tumulto de mente por causa delas. Foi tendo isso em vista que Davi aceitou tão mansa e quietamente as maldições de Simei, quando se adiantou e o amaldiçoou, atirando-lhe pedras (2 Sm 16.5,10); ele disse que o Senhor o havia encarregado de assim proceder, e proibiu seus seguidores de se vingarem. E, uma vez mais,
Quinto, o amor a Deus nos dispõe a mansamente suportar os danos de outros, porque nos coloca muito acima dos danos dos homens. Ele assim o faz em dois aspectos.
Em primeiro lugar nos coloca acima do alcance dos danos dos outros, pois nada jamais pode verdadeiramente ferir aqueles que são verdadeiros amigos de Deus. Sua vida está escondida com Cristo em Deus. Ele, como seu guardião e amigo, os carregará nas alturas, como em asas de águia e todas as coisas cooperarão para o bem deles (Rm 8.28). A ninguém será permitido que lhes machuque, enquanto forem seguidores daquele que é bom (1 Pe 3.13).
Em segundo lugar, enquanto o amor a Deus prevalece, tende a colocar as pessoas acima dos danos humanos, no sentido de que quanto mais amam a Deus, mais colocarão nele toda a sua felicidade. Olharão para Deus como seu tudo, e buscarão sua felicidade e porção em seu favor, e assim não apenas no quinhão de sua providência. Quanto mais amam a Deus, menos colocam seus corações nos seus interesses mundanos, os quais são tudo o que seus inimigos podem tocar. Os homens podem prejudicar o povo de Deus apenas com respeito a seus bens terrenos. Mas, quanto mais um homem ama a Deus, menos seu coração está firmado nas coisas deste mundo, e menos sente os prejuízos que seus inimigos possam infligir, porque não podem alcançar além dessas coisas. E assim, com frequência, é o caso que os amigos de Deus dificilmente pensam que os prejuízos que sofrem dos homens são dignos de serem chamados de prejuízos; e a calma e quietude de suas mentes dificilmente se perturba por eles. Enquanto tiverem o favor e amizade Deus,  não estão muito preocupados com as más obras e os prejuízos dos homens. O amor a Deus e um senso do seu favor os dispõe a dizer sobre os prejuízos dos homens, quando os tirarem seus deleites mundanos, como Mefibosete falou a respeito da tomada da terra por Ziba: “Fique ele, muito embora, com tudo, pois já voltou o rei, meu senhor, em paz à sua casa.” (2 Sm 19.30) E, assim como o amor a Deus nos disporá, nestes diversos aspectos, à longanimidade sob os danos recebidos dos outros, também,
2. O amor ao próximo nos disporá ao mesmo.
Neste sentido a caridade é longânima – a longanimidade e a paciência são sempre o fruto do amor. Como intima o apóstolo (Ef. 4.1,2), faz parte do nosso andar de modo digno da nossa vocação cristã que andemos “com toda a mansidão e humildade.” O amor suportará uma multidão de faltas e ofensas, e nos inclinará a encobrir os pecados (Pv 10.12). Assim vemos por abundante observação e experiência que, aqueles pelos quais temos grande e forte afeição, sempre suportamos muitissimamente mais do que daqueles de quem não gostamos, ou a quem somos indiferentes. Um pai suportará muitas coisas em seu próprio filho que reprovaria grandemente no filho de outro. Um amigo tolera muitas coisas em seu amigo que não toleraria em um estranho. Mas não há necessidade de multiplicar palavras, ou razões, neste ramo do assunto, pois ele é excessivamente claro a todos.
Todos sabem que o amor é de tal natureza que é diretamente contrário tanto ao ressentimento quanto à vingança, pois estas coisas implicam rancor, o qual é o exato reverso do amor, e não pode coexistir com ele. Sem me demorar, portanto, nesse ponto, passo, em conclusão, a fazer algum breve aproveitamento do assunto.
APLICAÇÃO
1. Ele exorta a todos nós ao dever de mansamente suportar os danos que possamos receber dos outros.
Que o que foi dito possa ser aproveitado por nós para suprimir toda ira, vingança, e amargura de espírito para com aqueles que nos prejudicaram ou que possam nos prejudicar algum dia, quer nos prejudiquem em nossos negócios, ou na boa reputação, quer abusem de nós com suas línguas ou com suas mãos, quer sejam nossos superiores, inferiores ou nossos iguais o que nos prejudicam. Não digamos em nosso coração: “Farei a ele o mesmo que fez a mim.” Não nos esforcemos a, como algumas vezes se diz, “sermos semelhantes a ele,” por algum tipo de retaliação, ou ao ponto de permitirmos que qualquer ódio, amargura ou índole vingativa surja em nossos corações. Esforcemo-nos, sob todo dano, a preservar a calma e quietude de espírito; estarmos prontos a sofrer consideravelmente em nossos justos direitos, a fazer alguma que possa ocasionar nosso ânimo e nos levar a viver em brigas e contendas. Com este propósito devo oferecer para consideração os seguintes motivos.
Primeiro, considere o exemplo que Cristo nos deu. Ele foi de um espírito manso e quieto, e de um comportamento muito longânimo. Em 2 Co 10.1, o apóstolo nos fala acerca da mansidão e gentileza de Cristo. Ele mansamente suportou inúmeras e enormes injúrias dos homens. Ele foi, em grande medida, objeto de amargo desprezo e reprovação, e insultado e desprezado, e não lhe deram valor. Ainda que fosse o Senhor da glória, contudo foi reputado como nada, rejeitado e não estimado pelos homens. Foi objeto do ódio e da malícia, e de amargos insultos daqueles a quem veio salvar. Suportou a contradição de pecadores contra si. Foi chamado de glutão e de beberrão; mesmo sendo santo, inocente, imaculado e separado dos pecadores, foi, contudo, acusado de ser amigo de publicanos e pecadores. Foi chamado de enganador do povo, e muitas vezes (como em João 10.20 e 7.20) disseram que estava louco, e possesso de demônios. Às vezes, o reprovaram (Jo 8.48), chamando-o de samaritano e dizendo que estava possesso de demônios; aqueles eram estimados pelos judeus como os maiores réprobos, e estes como implicando a mais diabólica impiedade. Às vezes, foi acusado de ser um ímpio blasfemo (Jo 10.33), e alguém que, por esse motivo, merecia a morte. Outras vezes, o acusaram de realizar milagres pelo poder e auxílio de Belzebu, o príncipe dos demônios, e lhe chamaram de demônio (Mt 10.25). E tal era o ódio deles contra Jesus, que concordaram em expulsar ou expelir da sinagoga qualquer um que dissesse que ele era o Cristo. Odiavam-no com ódio mortal, e desejavam que estivesse morto, e, de tempos em tempos, esforçavam-se em matá-lo, sim, estavam quase sempre se esforçando para manchar suas mãos com seu sangue. Sua própria vida lhes era um aborrecimento, e por isso o odiavam, pois não podiam suportar que estivesse vivo (Sl 41.5). Lemos, com frequência, (como em Jo 5.16), que eles buscavam matá-lo. Alguns deles sofreram bastante para vigiá-lo em suas palavras, para que pudessem ter algo para acusá-lo, e assim ser capazes, com a apresentação de uma razão, de condená-lo à morte. Muitas vezes combinaram entre si em tirar sua vida dessa maneira. Eles, com frequência, na verdade, pegavam pedras para atirar-lhe, e uma vez o levaram ao topo de uma colina para que pudessem atirá-lo de lá para baixo, e assim fazê-lo em pedaços.
Cristo, contudo, mansamente suportou essas injúrias, sem ressentimento ou palavra de censura; e com uma quietude celestial de espírito passou por todas elas. E, por fim, quando foi mais ignominiosamente tratado, quando seu amigo professo o traiu, e seus inimigos o agarraram e o conduziram ao açoite e à morte na cruz, foi como um cordeiro ao matadouro, não abrindo sua boca. Nem uma só palavra de amargura escapou dele. Não houve interrupção da calma de sua mente sob essas pesarosas aflições e sofrimentos; nem houve o mínimo desejo de vingança. Mas, ao contrário, orou por seus assassinos para que fossem perdoados, mesmo quando estavam prestes a pregá-lo na cruz; e não apenas orou por eles, mas defendeu-lhes junto ao Pai, dizendo que não sabiam o que faziam. Os sofrimentos de sua vida, e as agonias de sua morte, não interromperam sua longanimidade para com aqueles que o prejudicaram.
Segundo, se não estivermos dispostos a mansamente suportar os prejuízos, não estamos aptos a viver no mundo, pois nele devemos esperar encontrar muitos prejuízos dos  homens. Não habitamos em um mundo de pureza, inocência e amor, mas em um mundo caído e corrupto, miserável e ímpio, e que está enormemente sob o reino e domínio do pecado. O princípio do amor divino, que uma vez esteve no coração do homem, está extinto, e agora não reina senão em alguns, e neles em um grau muito imperfeito. Aqueles princípios que tendem à malícia e ao dano são os princípios que a generalidade do mundo está sob o poder. Este mundo é um lugar onde o diabo, que é chamado de o deus deste século, tem influência e domínio, e onde multidões estão possuídas com seu espírito. Nem todos os homens, como diz o Apóstolo (2 Te 3.2) têm fé; e, de fato, somente alguns poucos têm o espírito da fé no coração, que leva a vida a ser governada pelas regras da justiça e da bondade para com os outros.
O aspecto do mundo é bastante semelhante ao que falou nosso Salvador, quando, ao enviar seus discípulos, disse: “Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas.” (Mt 10.16) Portanto, aqueles que não possuem um espírito de mansidão e calma, de longanimidade e tranquilidade de alma para suportar os danos em tal mundo, são de fato miseráveis, e é provável que sejam infelizes em cada passo de seu caminho na vida. Se cada injúria com que nos encontrarmos, e cada impropério e ação maliciosa e injusta colocarem nossas mentes e corações em desordem e tumulto, e perturbarem a calma e paz nas quais podemos nos deleitar, então não podemos ter posse ou aproveitamento de espírito, e seremos mantidos em perturbação e tumulto perpétuos, como a barca que é levada para lá e para cá continuamente no oceano tempestuoso.
Homens que tem seus espíritos aquecidos e enfurecidos, e que se levantam em amargo ressentimento quando são prejudicados, agem como se pensassem que alguma coisa estranha lhes aconteceu, enquanto que são muito tolos em assim pensar; pois não é coisa estranha de modo algum, mas apenas o que deveria ser esperado em um mundo como este. Portanto, não agem sabiamente aqueles que permitem que seus espíritos sejam insuflados pelos danos que sofrem; pois um homem sábio tão somente espera mais ou menos dano no mundo e está preparado para ele, e, em mansidão de espírito, está preparado para suportá-lo.
Terceiro, deste modo devemos estar muito acima dos danos. Aquele que estabeleceu tal espírito e disposição de mente, que os danos recebidos dos outros não o exasperam nem o provocam, ou perturbam a calma de sua mente, vive, por assim dizer, acima dos danos e fora de seu alcance. Ele os conquista, e cavalga sobre eles em triunfo, exaltado acima de seus poderes. Aquele que tem tanto do exercício de um espirito cristão, ao ponto de ser capaz de mansamente suportar todos os danos feitos a ele, mora nas alturas, onde inimigo algum pode alcançá-lo.
A História nos conta que quando os persas sitiaram a Babilônia, os muros da cidade eram tão excessivamente altos que os habitantes costumavam ficar no topo deles e riam de seus inimigos. Desse modo, uma alma que é fortificada com o espírito da mansidão cristã, e uma disposição de calmamente suportar todos os danos, pode rir-se dos inimigos que a prejudicam. Se alguém que tenha um espirito maldoso contra nós, estando, portanto, disposto a nos prejudicar ao nos maldizer ou de alguma outra forma, ver que, ao assim fazer, pode nos perturbar e irritar, nisso ele se gratifica. Mas se virem que, por tudo que possam fazer, não podem interromper a calma de nossas mentes, ou quebrar a serenidade da alma, então são frustrados em seu desígnio, e as flechas com que nos feririam retrocederão sem que façam a execução pretendida. Enquanto que, por outro lado, na mesma proporção em que permitimos que nossas mentes sejam perturbadas e embaraçadas pelas injúrias oferecidas por um adversário, nós caímos debaixo do seu poder.
Quarto, o espirito da longanimidade cristã e da mansidão em suportar os prejuízos, é uma marca da verdadeira grandeza da alma. Mostra uma natureza nobre e verdadeira e uma real grandeza de espírito, assim manter a calma da mente em meio de injúrias e males. É uma evidência da excelência de temperamento, e de fortaleza e força interior. “Melhor é o longânimo do que o herói da guerra, e o que domina o seu espírito, do que o que toma uma cidade,” (Pv 16.32) isto é, ele mostra uma natureza mais nobre e excelente, e mais verdadeira grandeza de espírito do que os grandes conquistadores da terra. É pela pequenez de mente que a alma é facilmente perturbada e retirada do repouso pelas invectivas e maltrato dos homens, assim como pequenas torrentes de água são muito perturbadas pelas pequenas desigualdades e obstáculos que encontram em seu curso, e fazem grande barulho enquanto passam por eles, enquanto que grandes e poderosas torrentes passam pelos mesmos obstáculos calma e quietamente, sem uma onda sequer na superfície que mostrem que estejam perturbadas. Aquele que é senhor de sua alma de modo tal que, quando os outros o machucam e prejudicam, possa, não obstante, permanecer calmo e com boa-vontade interior para com eles, compadecendo-se e perdoando-lhes de coração, manifesta nisso uma grandeza de espírito divinal. Tal espírito manso, sossegado e longânimo mostra uma verdadeira grandeza de alma, naquilo que exibe da grandiosa e verdadeira sabedoria, como diz o apóstolo: “Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras.” (Tg 3.13)
O sábio Salomão, que bem conhecia o que pertencia à sabedoria, frequentemente fala da sabedoria de tal espírito declarando que “Da soberba só resulta a contenda, mas com os que se aconselham se acha a sabedoria” (Pv 13.10); e novamente que: “A discrição do homem o torna longânimo, e sua glória é perdoar as injúrias.” (19.11) Ainda novamente que “os sábios desviam a ira.” (29.8). Em sentido contrário, aqueles que estão prontos a enormemente ressentir-se dos prejuízos e a se enfurecerem e aborrecerem-se grandemente por eles, são frequentemente mencionados nas Escrituras como pessoas de espírito pequeno e tolo. Salomão diz: “O longânimo é grande em entendimento, mas o de ânimo precipitado exalta a loucura;” (Pv 14.29) e novamente: “Melhor é o paciente do que o arrogante. Não te apresses em irar-te, porque a ira se abriga no íntimo dos insensatos;” (Ec 7:8,9) e, de novo: “O insensato encoleriza-se e dá-se por seguro.  O que presto se ira faz loucuras, e o homem de maus desígnios é odiado.  Os simples herdam a estultícia, mas os prudentes se coroam de conhecimento.” (Pv 14.16,17,18) Por outro lado, um espírito manso é expressamente mencionado na Escritura como um espírito honrado, como em Pv 20.3: “Honroso é para o homem o desviar-se de contendas, mas todo insensato se mete em rixas.”
Quinto, o espírito da longanimidade e mansidão cristãs é recomendado a nós pelo exemplo dos santos.
O exemplo de Cristo apenas pode ser e é suficiente, uma vez que é o exemplo daquele que é nosso Cabeça, Senhor e Mestre, de quem professamos ser seguidores, e cujo exemplo cremos ser perfeito. Contudo, alguns podem estar prontos a dizer, com relação ao exemplo de Cristo, que ele era impecável, e não tinha corrupção em seu coração, e que não poderia ser esperado de nós que procedêssemos em todas as coisas como ele. Agora, ainda que esse não seja objeção razoável, contudo o exemplo dos santos, que foram homens de paixões semelhantes às nossas, não fica sem seu uso especial, e pode em alguns aspectos ter uma influência particular. Muitos dos santos estabeleceram exemplos brilhantes dessa longanimidade que foi recomendada.
Por exemplo, com que mansidão Davi suportou o tratamento injurioso que recebeu de Saul, quando foi caçado por ele como uma perdiz pelas montanhas, perseguido com a mais descabida inveja e malícia, e com desígnios assassinos, embora tenha sempre se portado obedientemente diante dele. E quando teve a oportunidade colocada em suas mãos de liquidá-lo, e de livrar-se de imediato do seu poder, estando os outros ao seu redor dispostos a pensar que era muito lícito e louvável que assim procedesse, contudo, uma vez que Saul era o ungido do Senhor, preferiu antes confiar a si mesmo e a todos os seus interesses a Deus, e aventurar sua vida em suas mãos, e permitiu que seu inimigo ainda vivesse. Quando, após isso, viu que sua clemência e bondade não venceram Saul, mas que ainda o perseguia, e quando teve novamente a ocasião de destruí-lo, escolheu antes exilar-se como um errante e desterrado, a prejudicar aquele que o teria destruído.
Outro exemplo é o de Estêvão, de quem se diz (At 7.59,60) que, quando seus perseguidores descarregavam sua fúria sobre ele, apedrejando-o até à morte, “invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado!” Menciona-se essa oração como algo que fez com seu último suspiro, como as últimas palavras que proferiu após orar ao Senhor Jesus para que recebesse seu espírito. Imediatamente após fazer essa oração por seus perseguidores, somos informados que caiu desacordado, perdoando-os assim e encomendando-os à benção de Deus como o último ato de sua vida.
Outro exemplo é o do apóstolo Paulo, que foi objeto de inúmeros danos de homens ímpios e irracionais. Desses danos e de sua maneira de proceder sob eles, dá-nos algum relato em 1 Co 4.11-13: “Até à presente hora, sofremos fome, e sede, e nudez; e somos esbofeteados, e não temos morada certa, e nos afadigamos, trabalhando com as nossas próprias mãos. Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, procuramos conciliação; até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos.” Assim, manifestou um espírito manso e longânimo, sob todos os danos que se amontoaram sobre si.
E não apenas temos esses relatos a respeito dos homens inspirados, mas temos na mera história humana não inspirada o fantástico heroísmo e longanimidade dos mártires e de outros cristãos, debaixo do tratamento mais irracional e ímpio recebido dos homens. Isso tudo deve nos levar ao mesmo espirito manso e longânimo.
Sexto, esse é o modo de ser recompensado com o exercício da longanimidade divina a nós.
As Escrituras nos informam que, daqui por diante, Deus lidará com os homens do modo pelo qual eles lidam com os outros. Assim nos diz o Salmo 18.25,26: “Para com o benigno, benigno te mostras; com o íntegro, também íntegro. Com o puro, puro te mostras; com o perverso, inflexível.” Também, “Com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também.” (Mt 7.2) E novamente: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas.” Por transgressões, aqui, se quer dizer o mesmo que injúrias feitas a nós; de modo que, se não suportarmos as injúrias dos homens contra nós, tampouco nosso Pai celeste suportará nossas injúrias contra ele; e se não exercermos a longanimidade com os homens, não podemos esperar que Deus a exercerá conosco. Mas, consideremos o quanto necessitamos da longanimidade de Deus com relação às injúrias que lhe fazemos.
Como tem sido frequente e excessiva a maneira injuriosa com que nos portamos para com Deus, e como é mal nosso tratamento dele todo dia! E se Deus não nos suportasse, e exercesse maravilhosa longanimidade para conosco, como seríamos miseráveis! E o que seria de nós? Que essa consideração, portanto, influencie a todos nós a buscar esse espírito excelente que foi falado, e a desaprovar e suprimir tudo que seja de espírito ou prática contrária. Teria uma influência muito feliz em nós como indivíduos, e em nossas famílias, e assim em todas as nossas associações e assuntos públicos se espírito semelhante a esse prevalecesse. Preveniria a contenda e a luta, e difundiria a gentileza e a bondade, a harmonia e o amor. Levaria para longe a amargura e confusão, e toda obra má. Nossos assuntos seriam todos conduzidos, tanto em público quanto em privado, sem fúria, ou aspereza, ou amargura de espírito; sem expressões rudes e ultrajantes aos outros e sem quaisquer dos discursos malignos, maledicentes e desdenhosos, que se ouvem com tanta frequência entre os homens, os quais, ao mesmo tempo, tantos danos trazem à sociedade, e se constituem em temível obra para o julgamento.
Mas alguns, em seus corações, podem estar prontos a objetar contra tal tolerância mansa e tranquila às injúrias, como foi falado; e pode ser útil mencionar e responder brevemente a algumas dessas objeções:
Objeção 1. Alguns podem ser rápidos em dizer que os danos que recebem dos homens são intoleráveis; que aquele que os prejudicou foi irracional demais no que disse ou fez, e que o que fez é tão injusto, injurioso e injustificável, coisas tais, que é mais do que a carne e sangue possam suportar; que são tratados com injustiça tal que seria suficiente para provocar um pedra; ou que são tratados com tanto desprezo que são verdadeiramente pisados, e não podem senão se ressentir. Mas, em resposta a essa objeção, perguntaria algumas coisas:
Primeiro, você acha que as injúrias que você sofre dos seus semelhantes é mais do que você tem oferecido a Deus? O seu inimigo tem sido mais vil, irracional, mais ingrato, do que você tem sido ao Altíssimo e Santo? Suas ofensas têm sido mais hediondas ou agravadas, ou maiores em número, do que as suas têm sido contra seu criador, benfeitor e redentor? Têm sido eles mais provocadores e irritantes do que sua conduta pecaminosa contra Aquele que é o autor de todas as nossas misericórdias, e a quem você deve as mais altas obrigações?
Segundo, você não espera que Deus, como até aqui o tem feito, irá suportá-lo nisso tudo, e que, apesar de tudo, exercerá em relação a você seu amor e favor infinitos? Você não espera que Deus lhe terá misericórdia, e que Cristo lhe abraçará com seu amor agonizante [dying], ainda que tenha sido um inimigo tão injurioso; e que, pela sua graça, ele apagará suas transgressões e todas as suas ofensas contra ele, e o fará seu filho por toda a eternidade, e um herdeiro de seu reino?
Terceiro, quando você pensa em tal longanimidade da parte de Deus, você não a aprova, e pensa bem dela, que é não apenas digna e excelente, mas excessivamente gloriosa? E você não aprova que Cristo tenha morrido por você, e que Deus, através dele, lhe ofereça perdão e salvação? Ou você desaprova isso? E você teria se agradaria mais de Deus, se não lhe tivesse suportado, mas há muito tempo o tivesse liquidado em sua ira?
Quarto, se tal atitude for excelente e digna de aprovação em Deus, por que não é em você? Por que você não deveria imitá-lo? É Deus bom demais em perdoar as injúrias? É menos odioso ofender o Senhor do céu e da terra do que alguém ofender você? É bom ser perdoado, e orar a Deus por perdão, contudo, você não estende isso aos seus semelhantes que lhe injuriaram?
Quinto, você estaria disposto a daqui por diante, que Deus não mais suportasse as suas injúrias e as ofensas que você cometeu contra ele? Está disposto a ir e pedir a Deus para lidar com você no futuro da mesma maneira como você lida com seus semelhantes?
Sexto, Cristo se virou contra os que o injuriavam e insultavam, e lhes pisou quando esteve aqui em baixo? E não foi ele injuriado muito mais gravemente do que você jamais foi? E você verdadeiramente não pisou o Filho de Deus, mais do que foi pisado pelos outros? É algo mais provocador que os homens lhe pisem e injuriem do que você pisar e injuriar a Cristo? Essas perguntas podem responder suficientemente sua objeção.
Objeção 2. Mas você pode dizer mais, que aqueles que lhe injuriaram persistem nisso, e não se arrependem, mais ainda continuam a fazê-lo. Mas que oportunidade pode haver para a longanimidade, se a injúria não persistisse por muito tempo? Se as injúrias são contínuas, pode ser o exato propósito, na providência, de testar se você exercerá a longanimidade e a mansidão, e aquela tolerância que foi mencionada. E Deus não o suportou quando você persistiu em ofendê-lo? Quando foi obstinado, e voluntarioso, e perseverou nas suas injúrias contra ele, cessou de exercer sua longanimidade sobre você?
Objeção 3. Mas você pode objetar, novamente, que seus inimigos serão encorajados a persistirem nas suas injúrias; escusando-se ao dizer que se suportar a injúria, será tão-somente injuriado ainda mais. Mas você não sabe isso, pois não tem conhecimento do futuro, ou do coração dos homens. Além disso, Deus trabalhará por você, se obedecer aos seus mandamentos; e ele é mais capaz de colocar um fim à ira do homem do que você. Ele disse : “A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor.” (Rm 12.19) Ele interveio maravilhosamente por Davi, como fez por muitos de seus santos; e se você tão somente obedecer-lhe, ele terá parte com você contra tudo o que se levante contra você. E, na observação e experiência dos homens, geralmente se descobre que um espírito solitário e manso põe fim às injúrias, enquanto um espírito vingativo não faz senão provocá-la. Acalente, então, o espírito da mansidão longânima, e da tolerância, e você possuirá na alma a paciência e a felicidade, e a ninguém será permitido machucá-lo mais do que a sabedoria e bondade de Deus possa permitir.