domingo, 11 de maio de 2014

MEMÓRIAS DE JONATHAN EDWARDS - CAP. 1

CAPÍTULO 1
NASCIMENTO – PARENTESCO – PRIMEIROS AVANÇOS RELIGIOSOS – SÉRIAS IMPRESSÕES E RELATO DE SUA EXPERIÊNCIA
Por Sereno E. Dwight

Poucos indivíduos já apareceram na igreja de Deus que mereceram, e, de fato, receberam, mais altos tributos de respeito do que Jonathan Edwards. Seus poderes intelectuais eram incomuns, e sua diligência no cultivo desses poderes está fortemente marcada nessa vasta extensão da maior parte do conhecimento que ele possuía. Se o considerarmos como se igualando a Hartley, Locke e Bacon, na escala do intelecto, pouco temos a temer de que sua habilitação a tal distinção seja contestada. Sua mente poderosa captava com facilidade aqueles assuntos nos quais outros falhavam. Ele via a verdade quase intuitivamente, e era igualmente afiado na detecção do erro em todos os seus variados contornos. Este homem distinto reivindica admiração, não meramente com base na força incomum dos poderes intelectuais, e pela intensa aplicação da mente, recompensada com realizações proporcionais, mas também como um servo muito humilde e devoto de Cristo. Trazia tudo o que havia recebido ao seu serviço, e vivia apenas para Ele. Sua alma era, de fato, um templo do Espírito Santo, e sua vida manifestava uniformemente toda a simplicidade, pureza, desinteresse e o caráter elevado do evangelho de Cristo. A glória de Deus era seu objeto supremo, seja quando ocupado em seus exercícios devocionais, seus estudos, suas relações sociais, o ofício de seu ministério pastoral, ou nas publicações de seus escritos. Todos os motivos inferiores parecem não ter tido qualquer influência detectável sobre ele. Enquadrava-se plenamente na linguagem expressiva de Paulo: “Pois o amor de Cristo nos constrange,” “Para mim, o viver é Cristo.” Seu exemplo pessoal instruirá, animará e encorajará por muito tempo, e seus escritos necessariamente serão muito altamente estimados enquanto prevalecer o amor pela verdade.
Foi com justiça observado que: “O número daqueles homens que produziram grandes e permanentes mudanças no caráter e condição da humanidade, e estamparam sua própria imagem nas mentes das gerações subsequentes, é comparativamente pequeno. E, até mesmo desse pequeno número, o grosso deve sua superior eficiência, ao menos em parte, a circunstâncias externas, enquanto que a muitos poucos pode-se atribuí-lo à simples força do próprio intelecto. Contudo, aqui e ali, pode-se achar um indivíduo que, pela sua mera energia mental, mudou o curso do pensamento e sentimento humano, e conduziu a humanidade adiante nesse novo e melhor caminho que abriu para a sua vista. Jonathan Edwards  foi um desses indivíduos. Nascido em uma colônia obscura, no meio de um ermo, e educado em um seminário que dava seus primeiros passos, passou a melhor parte de sua vida como pastor de uma vila fronteiriça, e o restante como missionário para os índios, em um acampamento ainda mais humilde. Ele descobriu, e desvendou um sistema do governo moral divino tão novo, tão claro, tão pleno, que, logo na sua primeira revelação, nem necessitou de algum auxílio de seus amigos, nem temeu oposição alguma de seus inimigos, e, por fim, constrangeu um mundo relutante a se curvar em cortesia à sua verdade.”
Jonathan Edwards nasceu no dia 5 de outubro de 1703, em Windsor, às margens do [Rio] Connecticut. Seu pai, o Rev. Timothy Edwards, era pastor daquele lugar há cerca de 60 anos. Timothy Edwards morreu em janeiro de 1758, aos 89 anos de idade, menos de dois meses antes de seu único filho. Era um homem de grande piedade e prática. No dia 6 de novembro de 1694, casara-se com Esther Stoddard, filha do reverenciado e celebrado Solomon Stoddard, de Northampton, quando esta tinha 23 anos. Viveram juntos como casados por mais de 63 anos. A Sra. Edwards, mãe de nosso autor, nascera em 2 de julho de 1672, e viveu até quase os noventa anos de idade, (alguns anos a mais que seu filho); um exemplo notável de pouca perda dos poderes mentais em tão avançada idade. Este venerável casal teve onze filhos: um homem, o objeto destas memórias, e dez mulheres, quatro das quais eram mais velhas, e seis mais novas que ele.
Devido ao caráter altamente espiritual e às realizações intelectuais de seus pais, se poderia naturalmente esperar que sua educação primária fosse acompanhada de vantagens incomuns. E assim aconteceu. Muitas foram as preces apresentadas pela afeição paternal para que esse único e amado filho pudesse ser cheio do Espírito Santo, que conhecesse desde a infância as Santas Escrituras e fosse grande aos olhos do Senhor. Aqueles que, com esse fervor e constância, o recomendavam a Deus, manifestavam igual diligência em treiná-lo para Deus. A oração estimulava a ação, e a ação, por seu turno, era novamente encorajada pela oração. O círculo doméstico era um cenário de súplica, e também de instrução. Na residência de tais servos exemplares de Deus, a instrução abundava. Aquilo que o olho via, bem como o que o ouvido ouvia, formava uma lição. Nada havia no exemplo dos que ensinavam que diminuísse a força da instrução. Nada havia nos hábitos sociais que fosse contrário às lições de sabedoria, e infundissem aqueles princípios que, após anos, produziam o fruto da tolice e do pecado. Ao contrário, havia tudo para alargar, purificar e elevar o coração, e ao mesmo tempo treinar a mente para aqueles exercícios do pensamento,  dos quais somente se podem esperar eminentes realizações.
As fiéis instruções religiosas de seus pais “o tornaram, quando criança, familiarmente íntimo com Deus e com Cristo, com seu próprio caráter e dever, com o caminho da salvação, e com a natureza daquela vida eterna que, começando na terra, é aperfeiçoada no céu.” Suas orações não foram esquecidas, e seus esforços não permaneceram sem efeito. No progresso da infância, ele foi, em diversos momentos, objeto de fortes impressões religiosas. “Isso foi particularmente verdadeiro alguns anos antes de ir para a faculdade, durante um poderoso reavivamento da religião na congregação de seu pai. Ele, e dois outros rapazes de sua idade, que tinham os mesmos sentimentos que ele, levantaram uma tenda em um lugar muito retirado, num pântano, para servir como lugar de oração, e se retiravam para ali para a oração social. Isso continuou por um longo período; mas as impressões, ao fim, desapareceram, e, em sua própria opinião, não foram seguidas por quaisquer efeitos permanentes de uma natureza salutar.”
O período exato quando considerou ter entrado na vida religiosa, não menciona em lugar algum, nem foi achado qualquer registro da época em que fez a pública profissão da religião. Até mesmo a igreja a qual se afiliou certamente não teria sido conhecida, não fora o fato de que, em uma ocasião, alude a si mesmo como membro da igreja em East Windsor. Baseado em várias circunstâncias, parece que o tempo em que se uniu a ela não foi muito distante da época de sua partida para a faculdade. Das opiniões e sentimentos de sua mente sobre esse assunto tão importante, tanto antes quanto após esse evento, há um relato bastante satisfatório e instrutivo que foi achado entre seus papéis, escritos por sua própria mão, cerca de vinte anos depois, para seu uso privado. É como se segue:
“Tive uma variedade de preocupações e exercícios acerca da minha alma desde a minha infância; mas tive duas temporadas mais notáveis de despertamento, antes que encontrasse com aquela mudança pela qual fui trazido a estas novas disposições, e a este novo senso das coisas, que tenho tido desde então.
A primeira vez foi quando eu era um garoto, alguns anos antes de ir para a faculdade, em uma época de notável despertamento na congregação de meu pai. Fui, então, profundamente afetado por muitos meses, e me preocupava com as coisas da religião, e com a salvação de minha alma e abundava nos deveres religiosos. Costumava orar em secreto, cinco vezes ao dia, e gastava muito tempo em conversas religiosas com outros garotos, e costumávamos nos encontrar para orarmos juntos. Experimentava não sei que tipo de deleite na religião. Minha mente muito se ocupava nisso, e tinha muito prazer na justiça própria, e era meu deleite abundar nos deveres religiosos. Eu, com alguns colegas de escola, nos ajuntamos e construímos uma tenda em um pântano, em um lugar bastante retirado, para servir como lugar de oração. Além disso, tinha lugares secretos particulares na floresta, para onde costumava me retirar, e era, de tempos em tempos, muito afetado. Minhas afeiçoes pareciam ser vívidas e facilmente movidas, e eu parecia estar em meu momento mais feliz quando me ocupava nos deveres religiosos. Estou pronto a pensar que muitos são enganados com essas afeições, e com esse tipo de deleite, como então eu tinha na religião, e o confundem com a graça.
Mas, com o passar do tempo, minhas convicções e afeições se deterioraram, e eu perdi inteiramente todas aquelas afeições e deleites, e abandonei a oração secreta, ao menos quanto a qualquer preferência constante por ela. Retornei como um cão ao seu vômito, e continuei nos caminhos do pecado. Na realidade, às vezes me sentia muito incomodado, especialmente na última parte do meu tempo na faculdade, quando agradou a Deus me atingir com a pleurisia [infecção das pleuras pulmonares], com a qual me trouxe à beira do túmulo, e me sacudiu sobre o abismo do inferno. E não demorou muito tempo após minha recuperação, antes que caísse novamente nos meus antigos caminhos de pecado. Mas Deus não permitiria que continuasse com aquela tranquilidade. Tinha grandes e violentas lutas interiores, até que, após muitos conflitos com as inclinações ímpias, repetidas resoluções e compromissos, com os quais me obrigava, por votos, a Deus, fui levado a romper completamente com todos os caminhos ímpios e com todas as formas de pecado exterior conhecidas, e a me aplicar na busca da salvação, e a praticar muitos deveres religiosos, mas sem aquele tipo de afeição e deleite que anteriormente tinha experimentado.
Minha preocupação agora gerava mais lutas e conflitos internos, e autorreflexão. Fiz da busca da salvação a principal ocupação da minha vida. Contudo, parece a mim que a buscava de um modo miserável, o que me fez algumas vezes desde então questionar se alguma vez produziu algo que fosse salvífico, estando pronto a duvidar se tal busca miserável alguma vez teve sucesso. Fui, realmente, levado à busca da salvação, de uma maneira inédita. Senti uma inclinação para romper com todas as coisas do mundo, para obter um interesse em Cristo. Minha preocupação continuava e prevalecia, com muitos pensamentos esforçados e lutas interiores. Contudo, nunca parecia ser apropriado expressar essa preocupação pelo nome de terror.
Desde a minha infância, minha mente esteve repleta de objeções contrárias à doutrina da soberania de Deus, em escolher os que quisesse para a vida eterna e rejeitar os que lhe agradasse, deixando-os perecer eternamente, e serem para todo o sempre atormentados no inferno. Costumava parecer uma doutrina horrível para mim. Mas, me lembro muito bem o tempo quando pareci estar convencido, e plenamente satisfeito quanto à soberania de Deus, e sua justiça em dispor desta maneira eternamente dos homens, de acordo com sua boa vontade soberana. Mas nunca consegui dar um relato de como, ou por quais meios, fui assim convencido, nem ao menos imaginar, à época, nem muito tempo depois, que houve uma extraordinária influencia do Espírito de Deus nisso. Somente que agora via mais longe, e minha razão apreendeu a justiça e razoabilidade disso. Contudo, minha descansou, e pôs um fim em todos aqueles sofismas e objeções.
E houve uma maravilhosa alteração em minha mente, com respeito à doutrina da soberania de Deus, daquele dia até hoje, de modo que eu raramente achei, desde então, sequer uma pequena objeção contraria, no sentido mais absoluto, ao fato de Deus mostrar misericórdia a quem ele tem misericórdia, e endurecer quem lhe apraz. A soberania e justiça absoluta de Deus, com respeito à salvação e condenação, é no que minha mente parece descansar segura, tanto quanto em qualquer coisa que vejo com meus olhos; ao menos é assim, às vezes. Mas tive, com frequência, desde essa primeira convicção, outro tipo de senso da soberania de Deus, diferente do que tive antes. Com frequência, desde então, tive não apenas uma convicção, mas uma deliciosa convicção. A doutrina me parece sempre extremamente agradável, brilhante e doce. A soberania absoluta é o que amo atribuir a Deus. Mas minha primeira convicção não era essa.
A primeira ocasião que me lembro desse tipo de deleite doce e interior em Deus e nas coisas divinas, no qual tenho vivido bastante desde então, foi ao ler estas palavras: “1 Timóteo 1:17  Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém!
Enquanto as lia, veio à minha alma, e era como se, por assim dizer, fosse disseminado através dela, um senso da glória do Ser Divino; um novo senso, bem diferente de qualquer outro que experimentara antes. Nunca quaisquer palavras da Escritura pareceram para mim como aquelas. Pensei comigo mesmo que Ser excelente era aquele, e como eu seria feliz se pudesse desfrutar desse Deus, e ser arrebatado por ele para o céu; e ser, por assim dizer, tragado para sempre! Continuava falando, e, por assim dizer, cantando, estas palavras da Escritura a mim mesmo. E fui orar a Deus para que pudesse desfrutá-lo; e orei de um modo bastante diferente do que costumava fazer, com uma nova espécie de afeição. Mas nunca me veio ao pensamento que houvesse algo de especial, ou de natureza salvífica nisto.
Mais ou menos a partir desse tempo comecei a ter um novo tipo de apreensão e ideias de Cristo, e da obra da redenção, e do glorioso caminho da salvação por ele. Um doce senso interior das coisas, às vezes, vinha ao meu coração; e minha alma foi conduzida a agradáveis visões e contemplações dessas coisas. E minha mente estava grandemente ocupada em gastar meu tempo na leitura e meditação sobre Cristo, sobre a beleza e excelência de sua pessoa, e o amável caminho da salvação pela livre graça nele. Não achei nenhum livro tão deleitoso para mim, quanto os que tratavam desses assuntos. Aquelas palavras de Cânticos 2:1, costumavam estar abundantemente comigo: Eu sou a rosa de Sarom, o lírio dos vales. As palavras pareciam para mim docemente representar a amabilidade e beleza de Jesus Cristo. Todo o livro de Cânticos costumava ser agradável para mim, e eu sempre estava ocupado na leitura dele, naquela época. E achava, de tempos em tempos, uma doçura interior, que me conduzia em minhas contemplações. Isto não sei expressar de outro modo, senão por uma calma, doce abstração da alma de todas as preocupações deste mundo; e, às vezes, um tipo de visão, ou ideias e imaginações fixas de estar sozinho nas montanhas, ou em algum ermo solitário, longe de toda humanidade, docemente conversando com Cristo, e envolvido e absorvido em Deus. O senso que tive das coisas divinas, com frequência, inflamava repentinamente, por assim dizer, uma doce chama em meu coração, um ardor de alma, que não sei como expressar.
Não muito tempo depois que comecei a experimentar essas coisas, fiz um relato a meu pai de algumas delas, que tinham se passado em minha mente. Fui bastante afetado pela conversa que tivemos, e quando ela terminou, fui para longe, sozinho, a um lugar solitário no pasto de meu pai, para contemplação. E, enquanto andava por lá, e olhava para o céu e as nuvens, veio à minha mente um senso tão doce da gloriosa majestade e graça de Deus, que não sei como expressar. Parecia ver a ambas em uma união doce; majestade e mansidão juntas: era uma majestade doce, gentil e santa. E também uma mansidão majestosa, uma doçura terrível, uma gentileza alta, grandiosa e santa.
Depois disso, meu senso das coisas divinas gradualmente aumentou, e se tornou mais e mais vívido, e tive mais dessa doçura interior. A aparência de todas as coisas foi alterada; parecia haver, por assim dizer, uma calma, doce amostra ou exibição da glória divina, em quase todas as coisas. A excelência de Deus, sua sabedoria, sua pureza e amor pareciam se mostrar em todas as coisas: no sol, lua e estrelas; nas nuvens e no céu azul; na grama, flores, árvores; na água e toda a natureza, que costumavam prender grandemente minha mente.
Com frequência, costumava sentar e olhar a lua por um longo tempo; e, durante o dia, gastava muito tempo vendo as nuvens e o céu, para contemplar a doce glória de Deus nestas coisas. Enquanto isso, cantava, com uma voz baixa, minhas contemplações do Criador e Redentor. E havia poucas coisas, entre todas as obras da natureza, que fossem tão doces quanto o trovão e o relâmpago, que anteriormente haviam sido tão terríveis para mim. Antes, geralmente era aterrorizado de modo incomum com o trovão, e costumava ser tomado pelo terror quando via uma tempestade com trovões surgindo. Mas agora, ao contrário, isso me regozijava. Eu sentia Deus, se posso assim dizer, no primeiro surgimento de uma tempestade; e costumava aproveitar a oportunidade, em tais tempos, para me preparar a fim de ver as nuvens, e os relâmpagos brincarem, e ouvir a voz majestosa e terrível dos trovões de Deus, que, muitas vezes, era extremamente agradável, me levando à doces contemplações de meu grande e glorioso Deus. Enquanto estava assim ocupado, sempre me parecia natural cantar ou recitar minhas meditações; ou falar meu pensamento por meio de solilóquios em uma voz cantante.
Sentia, então, grande satisfação quanto ao meu bom estado; mas aquilo não me contentava. Tinha veementes desejos de alma por Deus e por Cristo, e por mais santidade, com a qual meu coração desejava estar cheio, e pronto a explodir. Isto sempre trazia à minha mente as palavras do salmista: Sl 119:20: “Consumida está a minha alma por desejar.” Sempre sentia uma tristeza e lamentava no coração que não tivesse me tornado para Deus mais cedo, para que tivesse tido mais tempo de crescer em graça. Minha mente estava enormemente fixada nas coisas divinas; quase que perpetuamente na contemplação delas. Passava a maior parte do meu tempo pensando nelas, ano após ano. Frequentemente, andava sozinho pelas florestas, em lugares solitários, para meditação, solilóquios, oração e conversa com Deus; e era sempre meu costume, em tais tempos, cantar minhas contemplações. Estava constantemente em oração exclamatória, onde quer que estivesse. A oração parecia natural para mim, como o suspiro por onde as chamas internas do meu coração saíam.
As delícias que agora sentia nas coisas da religião eram de um tipo bastante diferente daquelas anteriormente mencionadas, que tive quando garoto, e o que tive então era tão sem noção quanto um cego de nascença tem das cores agradáveis e belas. Elas eram de uma natureza mais interior, pura, animadora da alma e refrescante. Aqueles deleites anteriores nunca alcançaram o coração; e nem surgiram de qualquer visão da excelência divina das coisas de Deus, ou de qualquer sabor de satisfação da alma pelo bem que concede a vida que havia nelas.
Meu senso das coisas divinas pareceram aumentar gradualmente, até que fui pregar em Nova York, o que se deu cerca de um ano e meio depois que este senso começou. Enquanto estava lá, senti este senso de modo muito claro, em grau muito maior do que tinha sentido antes. Meus desejos por Deus e pela santidade cresceram bastante. Puro e humilde, santo e celestial, o cristianismo parecia extremamente amável para mim. Sentia um desejo ardente de ser, em tudo, um cristão completo; e de ser conformado à bendita imagem de Cristo; e que pudesse viver, em todas as coisas, de acordo com as normas puras, doces e benditas do evangelho. Tinha uma sede ávida por progresso nestas coisas. Isto me levava a perseguir e a me esforçar por elas. Era minha luta contínua, noite e dia, e minha investigação constante, saber como eu poderia ser mais santo, e viver mais santamente. E como poderia me tornar ainda mais filho de Deus, e discípulo de Cristo. Eu agora buscava um aumento da graça e da santidade, e uma vida santa, com muito mais avidez do que havia buscado a graça antes de alcançá-la. Costumava estar continuamente a me examinar, e a estudar e planejar os caminhos e meios prováveis para que vivesse uma vida santa, com maior diligência e veemência do que qualquer coisa que já buscara em minha vida. Contudo, ainda tinha muita dependência de minha própria força, o que, posteriormente, provou ser de grande dano para mim. Minha experiência ainda não me mostrara, como tem feito desde então, minha extrema fraqueza e impotência, de todos os modos; e as profundezas sem fim da corrupção secreta e do engano que havia em meu coração. Contudo, persisti com minha ávida procura por mais santidade e conformidade com Cristo.
O céu que eu desejava era um céu de santidade; estar com Deus e gastar minha eternidade no amor divino, e na santa comunhão com Cristo. Minha mente estava bastante absorta com as contemplações do céu, e com as delícias de lá, com o viver em perfeita santidade, humildade e amor. E, na época, costumava parecer uma grande parte da felicidade do céu que lá os santos pudessem expressar seu amor por Cristo. A mim me parecia grande obstáculo e peso que o que eu sentia por dentro não pudesse expressar como desejava. O ardor interior de minha alma parecia estar travado e trancado, e não podia livremente se inflamar como deveria. Pensava sempre em como, no céu, esta fonte poderia livre e plenamente fluir e se expressar. O céu parecia extremamente deleitoso, como um mundo de amor; e onde toda a felicidade consistia em viver no puro, humilde, celestial e divino amor.
Lembro-me dos pensamentos que tinha então acerca da santidade. Às vezes, dizia a mim mesmo: ‘Certamente sei que amo a santidade, tal como o evangelho prescreve.’ Parecia-me que nela nada havia senão aquilo que era arrebatadoramente amável; a mais alta beleza e amabilidade – uma beleza divina; muito mais pura que qualquer coisa aqui da terra; e que tudo o mais era como lama e corrupção em comparação com ela.
A santidade, como então escrevi em algumas de minhas contemplações a seu respeito, parecia ser de uma natureza doce, agradável, charmosa, serena e calma. Ela trazia uma pureza, brilho, paz e arrebatamento inexprimível para a alma. Em outras palavras, era o que tornava a alma semelhante ao jardim de Deus, com todo tipo de flores agradáveis, desfrutando de uma doce calma, e dos raios suaves e vívidos do sol. A alma do verdadeiro cristão, como então escrevi nas minhas meditações, se mostrava como uma florzinha branca que vemos na primavera do ano: pequena e humilde sobre o solo, desabrochando para receber os agradáveis raios da glória do sol; regozijando-se, por assim dizer, em um calmo arrebatamento; exalando em volta uma doce fragrância; permanecendo pacífica e amorosamente em meio às outras flores, todas semelhantemente abrindo seus botões para beber da luz do sol. Não havia nenhuma parte da criatura que me fizesse ter um senso tão grande de sua amabilidade como a humildade, o quebrantamento do coração e a pobreza de espírito; e não havia nada pelo que ansiasse mais avidamente. Meu coração desejava ardentemente me rebaixar diante de Deus, no pó, para que pudesse ser nada e Deus ser tudo, para que eu fosse como uma criancinha.
Enquanto estava em Nova York, às vezes, era muito afetado com as reflexões sobre minha vida passada, considerando como demorei para que pudesse ser verdadeiramente religioso, e como tinha sido ímpio até então. E, uma vez que pensava, chorava abundantemente, e por um tempo considerável.
No dia 12 de janeiro de 1723, fiz uma solene dedicação de mim mesmo a Deus e a escrevi. Entregava-me, e a tudo que tinha, para Deus, para não pertencer no futuro, em nenhum aspecto, a mim mesmo; para agir como alguém que não tem direito a si mesmo, em nenhum aspecto. E fiz um voto solene de tomar a Deus como minha inteira porção e felicidade, a não buscar a nada mais como qualquer parte de minha felicidade, nem agir como se fosse; e a tomar sua lei como regra constante de minha obediência. Dispus-me a lutar com todas as minhas forças contra o mundo, a carne e o diabo, até o fim de minha vida. Mas tenho razão para me humilhar infinitamente quando considero o quanto falhei em responder a minhas obrigações.
Tive, à época, muitas conversas religiosas e doces com a família com quem vivia, com o Sr. John Smith e sua piedosa mãe. Meu coração estava ligado em afeição àqueles em que havia sinais da verdadeira piedade. Não podia suportar nem mesmo pensar em outras companhias que não fossem a dos santos e discípulos do bendito Jesus. Tinha grandes desejos pelo avanço do reino de Cristo no mundo, e minhas orações secretas costumavam, em grande parte, ser ocupadas com isso. Se ouvisse a menor sugestão de qualquer coisa que acontecera em alguma parte do mundo, que me parecia, por algum aspecto ou outro, ser favorável aos interesses do reino de Cristo, minha alma prontamente se agradava, e isto muito me animava e refrescava. Costumava estar pronto a ler os jornais públicos, principalmente com este propósito, para ver se conseguia achar alguma notícia favorável aos interesses da religião [cristã] no mundo.
Retirava-me com frequência para um lugar solitário, às margens do rio Hudson, a alguma distância da cidade, para a contemplação das coisas divinas e conversação secreta com Deus; e tinha muitas horas doces por lá. Às vezes, o Sr. Smith e eu andávamos por lá juntos, para conversar sobre as coisas de Deus; e nossa conversa costumava girar em torno do avanço do reino de Cristo no mundo, e das gloriosas coisas que Deus realizaria por sua igreja nos últimos dias.
Tinha então, e em outros tempos, o maior deleite nas Sagradas Escrituras, acima de qualquer livro. Muitas vezes, ao lê-la, cada palavra parecia tocar meu coração. Sentia uma harmonia entre algo no meu coração e aquelas doces e poderosas palavras. Parecia sempre ver muita luz exibida em cada frase, e um alimento tão refrescante comunicado que não conseguia ir adiante na leitura. Com frequência, me detinha muito tempo em uma frase, para ver as maravilhas contidas ali; porém, quase todas as frases pareciam estar cheias de maravilhas.
Voltei de Nova York em abril de 1723, e tive uma despedida bastante dolorosa da Sra. Smith e seu filho. Meu coração parecia afundar dentro de mim, enquanto deixava a cidade e a família onde tinha desfrutado tantos dias doces e agradáveis. Vim de Nova York a Wethersfield de barco e, enquanto navegava, mantive a vista na cidade enquanto pude. Contudo, naquela noite, após esta dolorosa partida, fui grandemente confortado em Deus em West Chester, onde desembarcamos para nos alojarmos. Também tive um tempo agradável durante toda a viagem para Saybrook. Era doce para mim pensar em encontrar queridos cristãos no céu, onde não mais haveria despedida. Em Saybrook, desembarquei para me alojar no sábado, e lá guardei o Dia do Senhor, no qual tive um doce e refrescante tempo enquanto andava sozinho nos campos.
Depois que cheguei à minha casa, em Windsor, permaneci bastante tempo em disposição de mente semelhante a que tive em Nova York; apenas algumas vezes sentia meu coração pronto a afundar de saudades pelos meus amigos de lá. Meu auxílio estava nas contemplações do estado celestial, como descubro no meu diário de 1º de maio de 1723. Era um consolo pensar nesse estado, onde há plenitude de alegria; onde reina celestial, calmo e deleitoso amor, sem misturas; onde há continuamente as mais queridas expressões deste amor; onde há o desfrute das pessoas amadas, sem que jamais haja despedidas; onde aquelas pessoas que neste mundo parecem tão amáveis serão verdadeira e inexprimivelmente mais amáveis, e cheias de amor por nós. E quão secretamente os amantes mútuos se unirão para cantar os louvores de Deus e do Cordeiro! Como nos encherá de alegria pensar que este gozo, este doces exercícios, jamais cessarão, mas durarão por toda a eternidade!”
Assim profundas, decididas e poderosas eram as operações da divina graça sobre a mente deste eminente servo de Cristo. Que o seu entendimento era muito iluminado nas coisas de Deus, e seu coração profundamente afetado por elas, são circunstâncias que de imediato chamarão a atenção de todo observador sério. Havia nele uma santa ansiedade para obter o mais satisfatório testemunho de uma mudança de coração. Com este propósito, ele examinava íntima e diligentemente a si mesmo; não tinha inclinação alguma para evitar este autoexame. O exame pessoal parece ter sido considerado por ele ao mesmo tempo como algo agradável e um exercício importante. Muitos crentes professos se revoltam com o pensamento de tal pesquisa interior. Eles se contentam em olhar (e isso apressadamente) as coisas exteriores, mas não olham para dentro, ainda que esta negligência ponha em perigo seu bem eterno. Os sentimentos com os quais os homens encaram o dever do exame pessoal podem, com justiça, ser vistos como um critério preciso de seu estado espiritual, pois, em proporção à preocupação deles com a eternidade, estarão suas disposições em testar a si mesmos. Em outras palavras, na mesma medida em que a graça existe, haverá um desejo de investigar plenamente sua existência e progresso.
Após uma revisão da declaração dada pelo Sr. Edwards quanto às suas primeiras experiências religiosas, é evidente que ele não era dos que se satisfazem com quaisquer bases insuficientes: nenhuma indicação de descuido ou presunção pode ser discernida. Ele se olhava com um santo zelo; pensava, lia, conversava e, acima de tudo, orava, para que pudesse ser capacitado a mais acuradamente sondar o próprio coração, e assim escapar do perigo do autoengano, e ser convencido por provas que passaria pelo teste do julgamento de Deus; que era um filho da luz, objeto de santidade e herdeiro da glória. E assim, estudando a si mesmo sob a penetrante luz da Palavra, e das graciosas influências do Espírito de Deus, adquiriu este exato conhecimento dos variados exercícios e amostras exteriores do caráter cristão, o que o capacitou, em anos posteriores a, com tanta habilidade, separar aparências ilusórias daquilo que é sólido, e marcar a forte diferença entre o mero professo do nome de Cristo, e do verdadeiro participante do poder do evangelho. Foi nestes anos iniciais de sua vida que estas perspectivas corretas foram formadas, estas mesmas que, mais tarde, se expandiram em seu tratado admirável sobre as Afeições Religiosas.




quinta-feira, 8 de maio de 2014

A PORÇÃO DOS ÍMPIOS


“Mas ira e indignação aos facciosos, que desobedecem à verdade e obedecem à injustiça. Tribulação e angústia virão sobre a alma de qualquer homem que faz o mal, ao judeu primeiro e também ao grego.” (Romanos 2:8, 9)

É a intenção do apóstolo Paulo, nos três primeiros capítulos desta epístola, mostrar que tanto judeus quanto gentios estão debaixo do pecado e que, portanto, não podem ser justificados por obras da lei, mas apenas pela fé em Cristo. No primeiro capítulo, ele mostrou que os gentios estavam debaixo do pecado. Neste, mostra que os judeus também estão, e que, conquanto fossem severos nas suas censuras aos gentios, faziam as mesmas coisas que condenavam, pelo que o apóstolo os acusa: “Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas.” E os adverte que não sigam por este caminho, prevenindo-os da miséria a que ficariam expostos, e dando-lhes a entender que, ao invés de sua miséria ser menor que a dos gentios, seria maior, pelo fato de Deus ter sido mais benevolente para com eles do que para com os gentios. Os judeus achavam que estavam livres da ira vindoura, porque Deus os escolhera para ser Seu povo peculiar. Mas o apóstolo os informa que haveria indignação e ira, tribulação e angústia, para a alma de todo homem, não apenas dos gentios, mas para toda alma, e para o do judeu primeiramente e em especial, quando faziam o mal, pois seus pecados tinham mais agravantes.
Na passagem lida, encontramos:
1. Uma descrição dos ímpios, na qual podem ser observadas aquelas suas características que têm a natureza de uma causa, e as que têm a natureza de um efeito.
Aquelas características dos ímpios aqui mencionadas que têm a natureza de uma causa são o fato de serem facciosos, e não obedecerem à verdade, mas obedecerem à injustiça. Ser faccioso significa ser avesso à verdade, disputar com o evangelho, achar defeitos nas suas declarações e ofertas. Os incrédulos encontram muitas coisas nos caminhos de Deus em que tropeçam, e pelas quais se ofendem. Sempre estão disputando e achando defeitos em uma coisa ou outra. Com isso são impedidos de crer na verdade e render-se a ela. Cristo é para eles uma pedra de tropeço, uma rocha de ofensa. Não obedecem à verdade, ou seja, não se rendem a ela, não a recebem com fé. Esse render-se à verdade e abraçá-la, que se encontra na fé salvífica, é chamado de obedecer, na Escritura. Rm 6:17: “Mas graças a Deus porque, outrora, escravos do pecado, contudo, viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues.Hb 5:9: “E, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem.
Mas os ímpios obedecem à injustiça, ao invés de se render ao evangelho. Estão sob o poder e domínio do pecado, e são escravos de suas luxúrias e corrupções.
São nestas características dos ímpios que está a essência de sua impiedade. Sua descrença e oposição à verdade e sua submissão servil aos desejos pecaminosos são o fundamento de toda impiedade.
Aquelas características dos ímpios que têm a natureza de um efeito são o fazer o mal. Esta é a sua menor oposição contra o evangelho, e é por serem servilmente submissos a seus desejos carnais que fazem o mal. Aqueles princípios ímpios são o fundamento, e a prática ímpia é a estrutura. Aqueles são a raiz, esta, o fruto.
2. Encontramos também a punição dos ímpios, na qual podem ser também notados a causa e o efeito.
As coisas mencionadas em sua punição que têm a natureza de uma causa são indignação e ira; ou seja, a indignação e ira de Deus. É o furor de Deus que tornará os homens miseráveis. Serão os objetos da ira divina, e daí surgirá toda sua total punição.
As coisas em sua punição que têm a natureza de um efeito são tribulação e angústia. A indignação e ira de Deus se converterão em extrema dor, aflição e angústia de coração neles.

Doutrina


Indignação, ira, miséria e angústia de alma são a porção que Deus reservou aos ímpios.
Todo ser humano terá a porção que lhe pertence. Deus reserva a cada um a sua porção. A porção do ímpio nada mais é senão ira, aflição e angústia de alma. Embora possam gozar alguns prazeres e deleites vazios e inúteis, por alguns dias, enquanto permanecem neste mundo, contudo, o que lhes está reservado pelo Senhor e Governador de todas as coisas, como sua porção, é apenas indignação e ira, tribulação e angústia.
Essa não é a porção que os ímpios escolhem. O que escolhem é a felicidade mundana. Contudo, essa é a porção que Deus lhes concede. É a porção que, para todos os efeitos, eles escolhem para si, pois escolhem aquelas coisas que natural e necessariamente conduzem a esta porção, e aquelas que são claramente ditas, incontáveis vezes, que levam a ela. Pv 8:36: “Mas o que peca contra mim violenta a própria alma. Todos os que me aborrecem amam a morte.” Mas, quer a escolham ou não, esta será a porção por toda a eternidade daqueles que vivem e morrem como ímpios. Indignação e ira os perseguirão enquanto viverem neste mundo, daqui os arrebatarão, e os seguirão para o próximo mundo. E lá, ira e miséria permanecerão sobre eles por toda a eternidade.
O método que usarei para tratar deste assunto é descrever a ira e a miséria das quais os ímpios serão os objetos, tanto aqui quanto na eternidade, em suas partes e períodos sucessivos, de acordo com a ordem do tempo.
I. Descreverei a ira que frequentemente acompanha os ímpios nesta vida. Indignação e ira, com frequência, os alcançam ainda aqui.
1. Deus, com frequência, na sua ira, os entrega a si mesmos. São entregues aos seus pecados, e abandonados para que destruam a si mesmos, e trabalhem em sua própria ruína; Ele os abandona no pecado. Os 4:17: “Efraim está entregue aos ídolos; é deixá-lo.” Deus, com frequência, permite que caminhem grandes distâncias no pecado, e não lhes concede a graça refreadora que dá a outros. Ele os entrega a sua própria cegueira, de maneira que permanecem ignorantes de Deus e de Cristo, e das coisas que pertencem à sua paz [Lc 19:42]. Eles são, às vezes, entregues à dureza de coração, e se tornam estúpidos e insensíveis, de tal maneira que nada, jamais, os despertará completamente. São entregues à própria cobiça dos corações, para insistirem em certas práticas ímpias, todos os seus dias. Alguns são entregues à avareza, outros à bebedeira, alguns à impureza, outros ao orgulho, disputas e espírito invejoso, e alguns a uma disposição acusadora e antagonista para com Deus. Ele os entrega à sua estultice, para agirem com excessiva tolice, para que adiem os cuidados de suas almas de tempos em tempos, para nunca acharem que o presente é o melhor tempo, mas sempre o manterem a distância, e tolamente se gabarem com esperanças de uma vida longa, e adiarem o dia mau, e se bendizerem no coração, dizendo: “Terei paz, ainda que ande na perversidade do meu coração, para acrescentar à sede a bebedice.” Alguns são deixados em tal estado que se tornam miseravelmente endurecidos e insensíveis, enquanto outros ao seu redor são despertados e, muito preocupados, perguntam-se o que devem fazer para ser salvos.
Às vezes, Deus entrega os homens a uma fatal apostasia devido ao mau aproveitamento dos esforços do Seu Espírito. São abandonados para a apostasia eterna. Terrível é a vida e a condição dos que são assim deixados sem Deus. Temos exemplos da miséria dos tais na santa Palavra de Deus, particularmente de Saul e Judas. Estes são, às vezes, entregues ao poder de Satanás para que os tente, e os conduza a práticas ímpias, agravando bastante sua própria culpa e miséria.
2. Indignação e ira são, às vezes, exercidas contra eles neste mundo, sendo amaldiçoados em todas as suas ocupações. Esta maldição de Deus os segue em tudo. São amaldiçoados nos seus prazeres. Se têm prosperidade, ela lhes é amaldiçoada; se possuem riquezas, se têm honra, se desfrutam prazeres, lá está a maldição de Deus presente. Sl 92:7: “Ainda que os ímpios brotam como a erva, e florescem todos os que praticam a iniquidade, nada obstante, serão destruídos para sempre.
Há uma maldição de Deus que acompanha sua alimentação diária: cada pedaço de pão que comem, cada gota de água que bebem. Sl 69:22: “Sua mesa torne-se-lhes diante deles em laço, e a prosperidade, em armadilha.” São amaldiçoados em todas suas ocupações, em qualquer coisa em que põem a mão; quando vão ao campo trabalhar, ou quando trabalham nos seus respectivos negócios. Dt 28:16: “Maldito serás tu na cidade e maldito serás no campo.” A maldição de Deus permanece na casa em que habitam, e o enxofre está espalhado nas suas habitações [Jó 18:15]. A maldição de Deus está presente nas suas aflições, enquanto que as aflições dos justos são correções paternais, e vêm pela misericórdia. As aflições que os ímpios enfrentam são devidas à ira, e vêm de Deus como um inimigo, e são o prenúncio de sua punição eterna. A maldição de Deus também os acompanha nos seus aproveitamentos e oportunidades espirituais, e lhes seria melhor não haver nascido em uma terra onde há a luz [do evangelho]. O fato de terem a Bíblia e o Dia do Senhor apenas agrava sua culpa e miséria. A palavra de Deus quando lhes é pregada é cheiro de morte para a morte. Melhor lhes seria se Cristo jamais houvesse vindo ao mundo, se jamais houvesse oferta de um Salvador. A própria vida lhes é uma maldição; pois vivem apenas para encher a medida dos seus pecados. O que buscam em todos os divertimentos, e empregos, e preocupações da vida, é sua própria felicidade; mas jamais a obtêm. Jamais obtêm conforto verdadeiro, todos os consolos que têm são inúteis e não satisfazem. Se vivessem cem anos, com muito do mundo em sua possessão, suas vidas seriam todas preenchidas com vaidade. Tudo o que possuem é vaidade de vaidades, não acham descanso verdadeiro paras suas almas, tudo o que fazem é alimentar o vento oriental [Os 12:1] e não têm real contentamento. Sejam quais forem os prazeres exteriores que possam ter, suas almas estão famintas. Não têm paz real de consciência, não têm nada do favor de Deus. O que quer que façam, vivem em vão, e futilmente. São inúteis na criação de Deus, pois não respondem ao fim para o qual foram criados. Vivem sem Deus, não têm a Sua presença, e nenhuma comunhão com Ele. Pelo contrário, tudo o que têm, e tudo o que fazem, não têm outro fim senão o de contribuir para sua própria miséria, e tornar seu estado eterno e futuro mais terrível. Os melhores dos ímpios vivem vidas miseráveis e mesquinhas, mesmo com toda a sua prosperidade; suas vidas são muito indesejadas, e, o que quer que tenham, a ira de Deus permanece sobre eles.
3. Depois de um tempo devem morrer. Ec 9:3: “Este é o mal que há em tudo quanto se faz debaixo do sol: a todos sucede o mesmo; também o coração dos homens está cheio de maldade, nele há desvarios enquanto vivem; depois, rumo aos mortos.
A morte que recai sobre os ímpios é bem diferente da que recai sobre os justos; para os ímpios é uma execução da maldição da lei, e da ira de Deus. Quando um ímpio morre, Deus o extirpa em ira, ele é levado por uma tempestade de ira, e é impelido em sua impiedade. Pv 14:32: “Pela sua malícia é derribado o perverso, mas o justo, ainda morrendo, tem esperança.Jó 18:18: “Da luz o lançarão nas trevas e o afugentarão do mundo.” Jó 27:21: “O vento oriental o leva, e ele se vai; varre-o com ímpeto do seu lugar.” Embora os ímpios, em vida, possam viver na prosperidade mundana, contudo, não podem viver aqui sempre, mas devem morrer. O lugar que conhecem não mais conhecerão; e o olho que os vê não mais os verão na terra dos vivos [Jó 7:8].
Seus limites estão inalteravelmente estabelecidos, e, quando o atingirem, devem partir, e deixar todas as boas coisas mundanas. Se viveram na glória exterior, sua glória não os acompanhará; nada que possuam poderá ser levado. Ec 5:15: “Como saiu do ventre de sua mãe, assim nu voltará, indo-se como veio; e do seu trabalho nada poderá levar consigo.” Ele deve deixar todas as suas posses para outros. Se estão tranquilos e quietos, a morte acabará com essa tranquilidade, roubará seu escárnio carnal, e os desnudará de toda sua glória. Como vieram nus ao mundo, nus voltarão, e irão como vieram. Se estocaram muitos bens, por muitos anos, se armazenaram em depósitos, na esperança de ter conforto e prazer, a morte lhes cortará tudo isso. Lc 12:16: “E lhes proferiu ainda uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produziu com abundância. E arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos? E disse: Farei isto: destruirei os meus celeiros, reconstruí-los-ei maiores e aí recolherei todo o meu produto e todos os meus bens. Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te. Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” Se têm nos seus peitos muitos desígnios e projetos para promoverem sua prosperidade e vantagem mundana, quando vem a morte, tudo vai-se embora com um sopro. Sl 144:4: “Sai-lhes o espírito, e eles tornam ao pó; nesse mesmo dia, perecem todos os seus desígnios.” E assim, qualquer diligência que tenham tido em buscar sua salvação, a morte a desapontará, não aguardará que eles cumpram seus projetos e esquemas. Se afagaram, enfeitaram e adornaram seus corpos, a morte roubará todo seu prazer e glória; tornará seu semblante pálido e seu aspecto repulsivo. Ao invés das alegres roupas e dos belos ornamentos, terão apenas uma mortalha; sua casa será o escuro e silencioso túmulo; e esse corpo que tanto adoravam, se converterá em podridão repugnante, será comido pelos vermes, e se tornará pó. Alguns ímpios morrem na juventude, a ira os persegue, e logo os derruba e não lhes é permitido viver metade dos seus dias. Jó 36:14: “Perdem a vida na sua mocidade e morrem entre os prostitutos cultuais.” Sl 55:23: “Tu, porém, ó Deus, os precipitarás à cova profunda; homens sanguinários e fraudulentos não chegarão à metade dos seus dias.” Eles são, às vezes, arrebatados em meio ao pecado e à vaidade, e a morte põe fim súbito a todos os seus prazeres juvenis. São, com frequência, interrompidos no meio de uma carreira no pecado, e se seu coração já se apegou firmemente a essas coisas, devem ser separados delas. Não possuem bens, senão os exteriores; mas, então, deverão eternamente os abandonar, devem para sempre fechar os olhos para tudo o que lhes foi querido e agradável aqui.
4. Os ímpios são, às vezes, objetos de muita tribulação e angústia de coração nos seus leitos de morte. Às vezes, as dores do corpo são muito extremas e terríveis; e o que suportam nestas agonias e lutas pela vida, quando corpo e alma estão lutando para se separar, ninguém saberá. Ezequias teve um senso terrível disso. Ele compara a um leão quebrando todos os seus ossos. Is 38:12, 13: “A minha habitação foi arrancada e removida para longe de mim, como a tenda de um pastor; tu, como tecelão, me cortarás a vida da urdidura, do dia para a noite darás cabo de mim.  Espero com paciência até à madrugada, mas ele, como leão, me quebrou todos os ossos; do dia para a noite darás cabo de mim.” Mas isto é pouco comparado ao que, às vezes, é suportado pelas almas dos ímpios quando estão no seu leito de morte. A morte parece, às vezes, ter um aspecto muito horrível para eles, quando ela vem e os encara na face, não conseguem contemplá-la. É sempre assim quando os ímpios têm notícias da aproximação da morte, e têm a razão e a consciência em exercício, e não são estúpidos ou distraídos. Quando essa rainha dos terrores vem e se revela, e são chamados a encontrá-la, oh, como é terrível seu conflito! Mas é necessário que a encontrem: Ec 8:8: “Não há nenhum homem que tenha domínio sobre o vento para o reter; nem tampouco tem ele poder sobre o dia da morte; nem há tréguas nesta peleja; nem tampouco a perversidade livrará aquele que a ela se entrega.
A morte vem a eles com toda sua terrível armadura, e com seu aguilhão; e é o suficiente para encher suas almas com um tormento que não pode ser expresso.
É ruim para uma pessoa estar em uma cama, doente, ser desenganada pelos médicos, com os amigos ao redor chorando, como se esperassem partir juntos; e em tais circunstâncias não ter esperança, não ter interesse em Cristo, e ter a culpa dos pecados posta sobre sua alma; estar saindo do mundo ser ter feito a paz com Deus; permanecer diante do seu trono de julgamento com todos os seus pecados, sem ter nada para objetar, ou responder. Ver a única oportunidade para se preparar para a eternidade chegando ao fim, depois da qual não haverá mais tempo para aprovação, mas sua situação estará inalteravelmente fixada, e jamais haverá outra oferta de um Salvador. É horrível para a alma chegar às margens do ilimitado mar da eternidade e insensivelmente se atirar nele, sem qualquer Deus ou Salvador para lhe preservar. Ser trazida à beira do precipício e ver a si mesma caindo no lago de fogo e enxofre, e sentir que não tem nenhum poder de impedir sua queda: quem poderá contar os apertos e apreensões do coração em tal situação? Como ela tenta voltar, mas, não obstante, continua; é vão desejar mais uma oportunidade! Oh, como ele pensa que são felizes aqueles que estão a sua volta, que ainda podem viver, ter sua vida prolongada, enquanto ele vai para uma eternidade infindável! Como desejaria que acontecesse consigo o mesmo que ocorre com os que têm mais tempo de se preparar para o julgamento! Mas não será assim. A morte, enviada com o propósito de chamá-lo, não lhe dará descanso nem alívio: ele deve comparecer diante do trono de Deus como está, ter seu estado eterno determinado de acordo com suas obras. Para tais pessoas, como as coisas parecem diferentes dos seus tempos de saúde, quando contemplavam a morte à distância! Como o pecado lhes parece diferente agora, aqueles mesmos pecados que costumavam menosprezar! Como é terrível olhar para trás e considerar como gastaram seu tempo, sendo tolos, e como gratificaram e premiaram seus desejos carnais, e viveram nos caminhos da impiedade; como foram descuidados, e como negligenciaram suas oportunidades e vantagens, recusando-se a ouvir o conselho, e como não se arrependeram apesar de todos os avisos que receberam! (Pv 5:11-13): “e gemas no fim de tua vida, quando se consumirem a tua carne e o teu corpo, e digas: Como aborreci o ensino! E desprezou o meu coração a disciplina! E não escutei a voz dos que me ensinavam, nem a meus mestres inclinei os ouvidos!
Como o mundo lhes parece diferente agora! Costumavam lhe dar muito valor, e ter seus corações arrebatados por ele; mas de que vale agora? Como são insignificantes todas as riquezas! (Pv 11:4): “As riquezas de nada aproveitam no dia da ira, mas a justiça livra da morte.” Que pensamentos diferentes têm agora a respeito de Deus e de sua ira! Eles costumavam desprezar a ira de Deus, mas como ela parece terrível agora! Como os seus corações se comprimem ao pensar em comparecer diante desse Deus! Como seus pensamentos a respeito do tempo são diferentes! Agora o tempo parece precioso e o que não dariam por mais um pouco de tempo! Alguns, nestas circunstâncias, foram levados a clamar: “Oh, um milhão de mundos por uma hora, por um momento!” E como a eternidade parece diferente agora! Sim, ela é de fato terrível. Alguns, no leito de morte, foram levados a clamar: “Oh essa palavra Eternidade! Eternidade! Eternidade!” Que mar sombrio ela lhes parece, quando chegam às suas margens! Com frequência, nestes tempos, clamam por misericórdia, e clamam em vão. Deus os chamou, mas não ouviram. “Antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão; também eu me rirei na vossa desventura, e, em vindo o vosso terror, eu zombarei” (Pv 1:26). Rogam a outros que orem por eles, chamam os pastores, mas nada resolve. Chegam mais e mais perto da morte, e a eternidade está mais e mais à porta. E quem pode expressar o seu horror, quando se sentem agarrados pelos braços gelados da morte, quando sua respiração falha mais e mais, e seus olhos começam a ficar fixos e a fraquejar! O que eles sentem não pode ser dito ou concebido. Alguns ímpios têm muito do horror e desespero do inferno na sua última doença. Ec 5:17: “Nas trevas, comeu em todos os seus dias, com muito enfado, com enfermidades e indignação.
II. Descreverei agora a ira que acompanha os ímpios no porvir.
1. A alma, quando separada do corpo, será lançada no inferno. Há, sem dúvida, um julgamento específico pelo qual todo homem deve ser provado na morte, além do julgamento geral, pois a alma, tão logo parte do corpo, aparece diante de Deus para ser julgada. Ec 12:7: “e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.” Isto é, para ser julgada e preparada por Ele. Hb 9:27: “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo.” Mas este julgamento particular provavelmente não é uma ocasião solene como aquele que acontecerá no dia final. A alma deve aparecer diante de Deus, mas não da forma como os homens aparecerão no fim do mundo. As almas dos ímpios não irão ao céu para se apresentar diante de Deus, nem Cristo descerá de lá para a alma se apresentar diante dele. Nem se supõe que a alma será carregada a algum lugar, onde haja algum símbolo especial da presença divina. Mas Deus está presente em todo lugar, então a alma se conscientizará imediatamente da Sua presença. As almas em um estado separado [do corpo] estarão sensíveis da presença de Deus e de Suas operações de maneira diferente do que estão agora. Pode-se dizer que todos os espíritos separados estão diante de Deus: os santos estão em Sua gloriosa presença, e os ímpios no inferno estão em Sua terrível presença. Somos informados que são atormentados na presença do Cordeiro. Ap 14:10: “Também esse beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro.” Assim, a alma de um ímpio, na sua partida do corpo, ficará imediatamente consciente de que está diante de um Deus infinitamente santo e terrível, e do seu próprio Juiz final. E então verá como Ele é um Deus terrível, verá como é santo, como odeia infinitamente o pecado; estará ciente da grandeza da ira de Deus contra o pecado, e como é terrível Seu desprazer. Estará consciente da terrível majestade e poder de Deus, e como é horrível coisa cair em Suas mãos. Então a alma virá nua, com toda a sua culpa, em toda sua imundície; uma vil, repugnante, abominável criatura, uma inimiga de Deus, rebelde contra Ele, com a culpa de toda sua rebelião e menosprezo dos mandamentos de Deus, e desprezo de Sua autoridade, e desrespeito pelo glorioso evangelho, diante de Deus como seu Juiz. Isso a encherá de horror e espanto. Não se deve pensar que esse julgamento será acompanhado com qualquer voz ou qualquer outro relatório, como o julgamento no fim do mundo; mas Deus Se manifestará em sua estrita justiça interiormente, às vistas imediatas da alma, e ao sentido e apreensão da consciência. Este julgamento particular não será obstáculo para que a alma seja lançada no inferno imediatamente ao sair do corpo. Tão logo ela saia do corpo, saberá qual será seu estado e condição por toda a eternidade.
Enquanto houver vida, há esperança. O homem, enquanto vivia, embora sua situação fosse extremamente terrível, possuía ainda esperança. Quando estava moribundo, havia ainda possibilidade de salvação. Mas, uma vez que a união entre a alma e corpo for quebrada, nesse exato momento o caso se torna desesperador, e não subsiste mais esperança alguma, nenhuma possibilidade. Nos seus leitos de morte talvez tivessem esperança que Deus se compadeceria deles e ouviria seus clamores, ou que ouviria as preces dos seus amigos piedosos por eles; estavam prontos para se agarrar em qualquer coisa que encontrassem, algum afeto religioso ou alguma mudança na sua conduta externa, e se gabavam que eram então convertidos. Eram capazes de se permitir algum grau de esperança devido às vidas morais que viviam e que Deus os respeitaria e os salvaria.
Mas tão logo a alma parte do corpo, a partir desse momento o caso está absolutamente determinado. Haverá então um fim eterno para toda esperança, para tudo que os homens se agarravam nesta vida; a alma então saberá com segurança que deve ser miserável por toda eternidade, sem qualquer remédio. Verá que Deus é seu inimigo; verá seu Juiz vestido em Sua ira e vingança. Então, sua miséria começará e será, neste momento, engolida pelo desespero. O grande mar estará fixo entre ela e a felicidade, a porta da misericórdia fechada para sempre, a sentença irrevogável será dada. Então, os ímpios saberão o que está diante deles. Antes, a alma estava aflita por temer como seria; mas agora, todos os seus temores sobrevirão. Sobrevirão como um dilúvio poderoso, e não haverá escape. Devido ao medo, a alma anteriormente estava cheia de espanto; mas agora, quem pode conceber o assombro que a enche, quando toda esperança estiver cortada, e estiver ciente que nada fará alguma diferença!
Quando morre um homem bom, sua alma é conduzida pelos santos anjos ao céu. Lc 16:22: “Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico e foi sepultado.” Assim, podemos bem supor que quando um ímpio morre, sua alma é agarrada pelos anjos maus; que eles cercam sua cama prontos para arrebatar a alma miserável tão logo ela deixe o corpo. E com que violência e fúria estes espíritos cruéis voarão sobre suas presas e ela será deixada nas suas mãos! Não haverá bons anjos para guardá-la e defendê-la. Deus não terá cuidado dela, não haverá nada que lhe sirva de auxílio contra estes espíritos cruéis que a tomarão e a levarão ao inferno, para ser atormentada para sempre. Deus a deixará completamente em suas mãos, e a dará para sua possessão, quando vier a morrer; e será conduzida ao inferno, a habitação dos demônios e espíritos condenados. Se o temor do inferno no leito de morte, às vezes, enche os ímpios de terror, como serão esmagados quando sentirem seus tormentos, quando descobrirem que são não apenas tão grandes, mas até mesmo maiores que seus temores! Descobrirão que são muito além do que poderiam conceber ao sentirem; pois ninguém sabe o poder da ira de Deus, senão os que a experimentam. Sl 90:11: “Quem conhece o poder da tua ira? E a tua cólera, segundo o temor que te é devido?
As almas dos ímpios que partiram são, sem dúvidas, levadas para algum lugar específico no universo que Deus preparou para ser o receptáculo dos seus súditos ímpios, rebeldes e miseráveis. Um lugar onde a justiça vingadora de Deus será glorificada; um lugar feito para a prisão, onde demônios e ímpios estão reservados até o dia do julgamento.
2. Aqui, as almas dos ímpios sofrerão miséria extrema e incrível, em um estado separado [do corpo], até ao dia da ressurreição. Esta miséria não é, na verdade, seu castigo pleno, assim como não é a felicidade dos santos completa antes do dia do julgamento. Acontece com as almas dos ímpios o mesmo que acontece com os demônios. Embora estes sofram tormentos extremos agora, contudo ainda não sofrem seu castigo completo; e, portanto, é dito que foram lançados ao inferno e presos em cadeias. 2 Pe 2:4: “Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo.Jd 6: “E a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia.” Eles são reservados no estado em que estão; e para que estão reservados, senão para grau maior de punição? Logo, vemos que tremem de medo. Tg 2:19: “Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios creem e tremem.” Da mesma forma, quando Cristo esteve sobre a terra, os demônios tinham muito medo que Ele tivesse vindo para os atormentar. Mt 8:29: “E eis que gritaram: Que temos nós contigo, ó Filho de Deus! Vieste aqui atormentar-nos antes de tempo?Mc 5:7: “exclamando com alta voz: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!”
Mas, ainda assim, lá eles estão, em extrema e inconcebível miséria; privados de todo bem, sem nenhum descanso ou conforto, e estão sujeitos à ira de Deus. Ele lá executa Sua ira contra eles sem misericórdia, e são engolidos em ira. Lc 16:24: “Então, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim! E manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama.” Aqui nos é dito que, quando o rico morreu, estando em tormentos, levantou seus olhos e disse a Abraão que estava atormentado em uma chama. E parece que a chama não estava apenas sobre ele, mas nele; assim,  pede por uma gota de água para refrescar sua língua. Isto, sem dúvida, serve para nos representar que eles estão cheios da ira de Deus, como se fosse fogo, e estarão lá atormentados em meio a demônios e espíritos condenados; e terão tormentos indizíveis devidos às suas próprias consciências. A ira de Deus é o fogo que nunca será apagado, e a consciência o verme que nunca morre (Is 66:24). Como os homens sofrem do horror da consciência, às vezes, neste mundo! Mas como sofrerão ainda mais no inferno! Quantas reflexões amargas e atormentadoras terão com relação à tolice de que foram culpados em suas vidas, por terem negligenciado suas almas, quando tiveram oportunidade de arrependimento; por terem continuado tão tolamente a entesourar ira para o dia da ira, acrescentando pecados ao seu registro, dia após dia, fazendo sua miséria cada mais maior; como atiçaram as chamas do inferno para si mesmos, e passaram suas vidas ajuntando combustível! Não serão capazes de resolver tais pensamentos em suas mentes; e como serão atormentadores! E os que vão ao inferno, jamais podem escapar de lá; lá ficarão aprisionados até o dia do julgamento, e seus tormentos continuarão perpetuamente. Os ímpios que morreram muitos anos atrás, suas almas foram para o inferno, e ainda estão lá; os que foram ao inferno nas eras passadas, desde então, estão lá, sempre em tormentos. Não têm mais nada para passar o tempo, senão sofrendo tormentos, são mantidos conscientes para nenhum outro propósito; e, embora tenham muitos companheiros no inferno, contudo não têm conforto, pois não há amigo, amor, piedade, quietude, nem sombra de esperança.
3. As almas separadas dos ímpios, além da miséria presente que sofrem, estarão em terrível medo de seu julgamento mais pleno no Dia do julgamento. Embora sua punição no estado separado seja extremamente terrível, e muito além do que possam suportar, embora seja tão grande a ponto de afundá-las e esmagá-las, contudo, não termina aqui, pois estão reservadas para uma punição muito maior e mais terrível. Seus tormentos serão, então, vastamente aumentados, e continuarão aumentando por toda a eternidade. Seu castigo será tão grande que suas misérias nesse estado separado não são senão como uma prisão antes da execução; elas, bem como os demônios, estão presas em cadeias de escuridão. Jd 6: “E a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia.” Os espíritos separados são chamados “espíritos em prisão.” 1 Pe 3:19: “no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão.” E, se a prisão é terrível, como será terrível a execução! Quando estamos sofrendo alguma dor muito forte no corpo, como lamentamos qualquer aumento nela! Só o fato de continuar a doer é muito ruim, quanto mais aumentar. Como esses espíritos separados, que sofrem os tormentos do inferno, mais ainda temerão o aumento e plenitude do seu tormento que haverá no Dia do julgamento. O que já sentem é largamente mais do que podem suportar; quando estão, por assim dizer, rogando por uma gota d’água para refrescar sua língua, quando dariam dez mil mundos por um mínimo de abatimento de sua miséria! Como seria então sinistro pensar que, ao invés disso, está vindo o Dia quando Deus dará do céu a sentença de um grau de miséria muito mais terrível, e que continuarão debaixo dele para sempre! A experiência que têm do terror da ira de Deus os convence completamente como é terrível Sua ira; eles, portanto, ficarão extremamente temerosos dessa ira plena que ele executará no Dia do julgamento; não terão esperança de escapar, saberão com certeza que ela virá.
O temor disso faz os demônios, estes espíritos poderosos, orgulhosos e teimosos, tremerem: eles creem na ameaça, e, portanto, tremem. Se este temor os vence, como não esmagará as almas dos ímpios! Todo o inferno treme ao pensar no dia do julgamento.
4. Quando vier o dia do julgamento, deverão levantar-se para a ressurreição da condenação. Quando esse dia vier, toda a humanidade que houver morrido na face da terra ressurgirá; não apenas os justos, mas também os ímpios. Dan 12:2: “Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno.Ap 20:13: “Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras.” Os condenados no inferno não sabem o tempo em que o Dia do julgamento acontecerá, mas quando este tempo chegar, será conhecido, e serão as notícias mais terríveis que jamais foram ouvidas neste mundo de misérias. Sempre é tempo doloroso no inferno; o mundo da escuridão é cheio de gritos e clamores dolorosos; mas quando as novas forem ouvidas, que o Dia apontado do julgamento chegou, o inferno se encherá de gritos mais altos e clamores mais terríveis que jamais houve. Quando Cristo vier nas nuvens dos céus para o julgamento, as notícias sobre Ele encherão tanto a terra quanto o inferno com gemidos e gritos amargos. Lemos que todas as famílias da terra se lamentarão por sua causa, e, da mesma forma, os habitantes do inferno; e então as almas dos ímpios devem ser unidas aos seus corpos, e permanecerão diante do Juiz. Não devem vir voluntariamente, mas serão arrastadas, como o malfeitor é arrastado do calabouço para a execução. Não foi de boa vontade que morreram, e deixaram a terra para ir ao inferno; mas é de muito mais má vontade que sairão do inferno para se dirigirem ao julgamento final. Não será uma libertação para elas, será apenas uma ida para a execução. Irão retroceder, mas devem vir; os demônios e espíritos condenados devem vir juntos. A última trombeta será então ouvida, e este será o som mais pavoroso para os ímpios e demônios que jamais foi ouvido; e não apenas os ímpios, que então serão achados habitando a terra, a ouvirão, mas também os que estiverem nos seus túmulos. Jo 5:28, 29: “Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo.” E então as almas dos ímpios deverão entrar novamente nos seus corpos, que estarão preparados apenas para serem os vasos de tormento e miséria. Será uma visão terrível para elas quando entrarem novamente nos seus corpos, os mesmos que anteriormente foram usados como membros e instrumentos do pecado e da impiedade, e cujos apetites e desejos elas permitiram e gratificaram. A separação do corpo e da alma lhes foi terrível quando morreram, mas a reunião na ressurreição será ainda mais terrível. Receberão seus corpos imundos e odiosos, de acordo com a vergonha e desprezo eterno para o qual estão destinados. Assim como os corpos dos santos surgirão mais gloriosos que na terra, e serão à semelhança do corpo glorioso de Cristo, da mesma forma, podemos bem supor que os corpos dos ímpios serão proporcionalmente mais deformados e odiosos. Muitas vezes neste mundo uma alma poluída está escondida em um corpo fino e belo, mas não será assim então, quando as coisas aparecerão como elas são; a forma e o aspecto do corpo serão de acordo com a deformidade infernal da alma. Assim surgirão dos seus túmulos, e levantarão os olhos, e verão o Filho de Deus nas nuvens dos céus, na glória de Seu Pai, com Seus santos anjos com Ele. Então verão seu Juiz em Sua terrível majestade, que será a visão mais incrível que jamais tiveram, e acrescentará ainda mais novos horrores. Essa terrível e esplêndida majestade na qual Ele aparecerá, e as manifestações de sua infinita santidade, espicaçará suas almas. Virão dos seus túmulos, todos tremendo e atônitos; o terror os surpreenderá.
5. Então, aparecerão diante do seu Juiz para prestar contas. Não acharão montanhas ou rochas que caiam sobre eles, que possam cobri-los, e escondê-los da ira do Cordeiro. Muito deles verão outros nessa ocasião, que foram seus antigos conhecidos, que aparecerão em corpos gloriosos, e com semblantes alegres e cânticos de louvor, e se elevando como que com asas para encontrar o Senhor nos ares, enquanto eles são deixados para trás. Muitos verão seus antigos vizinhos e conhecidos, seus companheiros, irmãos, e suas esposas sendo levados. Serão convocados a comparecer diante do tribunal; e devem ir, mesmo que não queiram; devem permanecer à esquerda de Cristo, em meio a demônios e ímpios. Isto, de novo, acrescentará mais espanto, e fará com que seu horror seja ainda maior. Com que terror essa sociedade se ajuntará! E então serão chamados a prestar contas; serão trazidas à luz as coisas ocultas das trevas; todas as impiedades do coração serão conhecidas; serão declaradas as reais impiedades de que são culpados; aparecerão seus pecados secretos, que foram cometidos longe dos olhos do mundo; agora serão manifestos na sua luz verdadeira aqueles pecados que costumavam apreciar, e desculpar e justificar. E todos os seus pecados serão apresentados com todos os seus terríveis agravantes, e sua imundície será trazida à luz para sua vergonha e desprezo eterno. Então ficará claro como muitas destas coisas eram hediondas, coisas que em vida faziam pouco caso; então aparecerá como foi terrível sua culpa no seu desprezo por um Salvador tão glorioso e bendito. E todo mundo verá e muitos se levantarão em julgamento contra eles e os condenarão; seus companheiros a quem tentaram para a impiedade, outros que foram endurecidos pelo seu exemplo, se levantarão contra muitos deles; e os pagãos que não tiveram tantas vantagens em comparação com eles, e muitos que, ainda assim, viveram vidas melhores, se levantarão contra eles. Serão, então, chamados para um relato especial; o Juiz declarará sua pena, ficarão mudos, sem ter o que dizer, pois verão então como Ele é um Deus grande e terrível, este mesmo contra quem pecaram. Então ficarão à Sua esquerda, enquanto outros a quem conheceram na terra sentarão à direita de Cristo em glória, brilhando como o sol, aceitos por Cristo, e sentados com Ele para julgá-los e condená-los.
6. Então a sentença da condenação será pronunciada pelo Juiz sobre eles. Mt 25:41: “Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.” Essa sentença será pronunciada com terrível majestade; e haverá grande indignação, e terrível ira aparecerá no Juiz, e em sua voz, com a qual pronunciará a sentença; e com que horror e surpresa estas palavras atingirão os corações dos ímpios, para quem serão pronunciadas! Cada palavra e sílaba será como o mais terrível trovão para eles, e espicaçará suas almas como o relâmpago mais penetrante. O Juiz lhes ordenará que se apartem dele; os expulsará de Sua presença, como grandemente abomináveis para Ele, e lhes alcunhará de malditos; serão uma sociedade maldita, e não apenas lhes ordenará que saiam de sua presença, mas que vão para o fogo eterno, para lá habitar como a sua única morada digna. E o que mostra como o fogo é terrível é que ele está preparado para o diabo e seus anjos: eles permanecerão para sempre no mesmo fogo em que os demônios, estes grandes inimigos de Deus, serão atormentados. Quando esta sentença for pronunciada, haverá no vasto grupo à esquerda tremores e soluços, e gritos, e ranger de dentes, de uma nova forma, que jamais houve antes. Se os demônios, estes espíritos soberbos e elevados, tremem há muitas eras de antemão ao mero pensamento desta sentença, como irão tremer quando ela vier a ser pronunciada! E como os ímpios tremerão! Sua angústia será agravada ao ouvirem a bendita sentença pronunciada para aqueles que estarão à direita: “então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.
7. Então a sentença será executada. Quando o Juiz ordenar que partam, devem ir; mesmo contra sua vontade, devem ir. Imediatamente após o fim do julgamento e a pronúncia da sentença, chegará ao fim o mundo. A estrutura deste mundo será dissolvida. A pronúncia da sentença será, provavelmente, seguida de trovões, que rasgarão os céus e tremerão a terra do seu lugar. 2 Pe 3:10: “Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas.” Então o mar e as ondas se agitarão, e as rochas serão derrubadas, e as montanhas serão rasgadas, e haverá um naufrágio universal deste grande mundo. Os céus serão dissolvidos, e a terra será posta em chamas. Assim como Deus, em ira, uma vez destruiu o mundo por um dilúvio de águas, assim agora faz com que ele se afogue em um dilúvio de fogo; e os céus estarão em chamas, serão dissolvidos, e os elementos se fundirão com o calor fervente. (2 Pe 3:10); e aquela grande súcias de demônios e ímpios entrará nessas chamas eternas para a qual foram sentenciados.
8. Nesta condição permanecerão por todas as infindáveis eras da eternidade. Sua punição estará, então, completa, e permanecerá nesta completude para sempre. Agora virá sobre eles tudo o que temeram enquanto suas almas estavam no estado separado. Habitarão em um fogo que jamais se apagará, e aqui vestirão a eternidade.  Aqui suportarão mil anos após mil anos, e sem chegar ao fim. Não há cálculo dos milhões de anos ou milhões de eras; toda aritmética falha aqui, não há regras de multiplicação que possa alcançar a quantidade, pois não haverá fim. Não terão nada a fazer para passar a eternidade, a não ser se atormentar com aqueles tormentos; este será seu trabalho para todo o sempre; Deus não terá nenhum outro uso para eles; esta é a maneira que responderão ao propósito de suas existências. E nunca terão descanso, nem expiação, mas seus tormentos se manterão a sua altura, e nunca ficarão mais toleráveis, pois jamais se acostumarão a eles. O tempo lhes parecerá longo, todo momento será longo para eles, mas jamais acabarão, como todas as eras de seu tormento.

Aplicação


I. Assim, que cuidado temos que ter que nosso fundamento para a eternidade esteja assegurado! Os que edificam em um falso fundamento, não estão seguros dessa miséria. Os que constroem um refúgio de mentiras descobrirão que seu refúgio de nada lhes adiantará. Os muros que rebocaram com cimento frágil cairão. Quanto mais terrível a miséria, mais necessidade temos de ver que estejamos livres dela. Será terrível, de fato, ser desapontado em tal matéria. Acariciar-nos com sonhos e vãs imaginações de ser filho de Deus, e de ir para o céu, e, ao fim, acordar no inferno, ver nosso refúgio varrido, e nossa esperança eternamente perdida, e nos descobrir engolidos pelas chamas, e ver uma eternidade infindável diante de nós. Como será terrível!
Haverá muitos que serão assim desapontados. Muitos virão à porta e a encontrarão fechada, estes mesmos que a esperavam aberta, e baterão, mas Cristo lhes dirá que não os conhece, e os ordenará que partam, e será inútil para eles comunicar a Cristo acerca das afeições que tiveram, e como foram religiosos, e como foram bem reputados na terra. Não terão resposta alguma senão: "Apartai-vos de mim, não vos conheço, vós os que praticais a iniquidade." Consideremos isto, e tenhamos toda diligência em ver que edificamos na certeza de que, de toda forma, seremos achados em Cristo. Observemos se, de fato, estamos bem seguros desta terrível miséria. Do que adiantará nos agradar com uma noção de sermos convertidos, e sermos amados por Deus? E do que adiantará termos uma boa reputação com os nossos vizinhos por alguns dias, se formos no fim lançados no inferno, e aparecermos no dia do julgamento à esquerda [de Cristo], e termos nossa porção eterna com os ímpios? Uma falsa esperança não tem valor, e é mil vezes pior do que o total desespero. E quem é mais miserável do que aqueles que acham que Deus perdoou seus pecados e que esperam ter uma porção com os santos na eternidade, mas, enquanto isso, estão se precipitando de cabeça nesta miséria terrível? Que situação seria mais triste do que a dos que assim são conduzidos vendados para a morte, prometendo a si mesmos uma felicidade que jamais virá, pelo contrário, estarão se afogando na tribulação e angústia infindáveis!
Que todos, portanto, que mantêm esperança de seu próprio estado, vejam que estão bem fundamentados; e que não descansem em sucessos passados, mas prossigam em frente, para as coisas que estão adiante com toda a sua força.
II. Também podemos derivar um argumento para o despertamento dos ímpios. Esta indignação e ira, tribulação e angústia é a porção reservada a você, se continuar no seu estado atual. Você é a pessoa a quem me referia; é para você que toda essa miséria está reservada pelas ameaças da Santa Palavra de Deus. É sobre você que permanece essa ira de Deus. Neste momento, você está em um estado de condenação a esta miséria. Jo 3:18: "o que não crê já está condenado." Ainda não foi executada a sentença, mas você já está condenado a ela; não está simplesmente exposto à condenação, mas já está sob a sentença real de condenação. Esta é a porção que lhe está reservada pela lei, e você está sob a lei e não sob a graça. Esta é a miséria na qual você corre o perigo diário de cair. Você não está seguro nem por uma hora. O tempo em que ela virá, é incerto. Você está suspenso sobre ela por um fio, que a cada dia se torna mais e mais fraco. Esta miséria terrível, em todas as suas partes sucessivas, lhe pertence, e é a sua porção.
Se seus amigos e vizinhos, se todos ao seu redor, soubessem qual é a sua condição, poderiam muito bem levantar a voz em um clamor alto e amargo por sua causa, quando o contemplassem. Poderiam dizer: “Eis aqui um ser infeliz, condenado a ser entregue eternamente nas mãos dos demônios e ser atormentado por eles. Eis aqui um miserável, que está em perigo diário de ser engolido pelo mar sem fundo de tristeza e miséria. Eis aqui uma criatura miserável e perdida, condenada a passar a eternidade em fogo que não se apaga, e habitar em meio a chamas eternas; e ainda assim, não tem interesse em um Salvador, não tem nada para o defender, nada com que possa aplacar a ira de um Deus ofendido.” Aqui, considere duas coisas:
1. Você não tem razão alguma para questionar a realidade destas misérias e tormentos futuros, que são ameaçados na Palavra de Deus. Não se exalte com o pensamento de que isso pode não acontecer. Não diga: “Como eu saberei que existe tal miséria a ser infligida em outro mundo? Como eu saberei se isso não passa de uma fábula, e que quando vier a morrer haverá um fim para mim, e ocorrerá comigo o mesmo que acontece com as feras?” Não diga: “Como eu saberei se tudo isso não passa de fantasmas da invenção humana? Como eu saberei se as Escrituras, que ameaçam estas coisas, são a Palavra de Deus? Talvez Ele tenha ameaçado essas coisas apenas para amedrontar os homens, para mantê-los no seu dever, sem ter jamais a intenção de cumprir com suas ameaças.”
Digo que não há base para suspeitas, nem razões para ela, pois que não haverá um castigo futuro é não apenas contrário à Escritura, mas à razão. Não é razoável supor que não haverá um castigo futuro, ou supor que Deus, que fez o homem racional, capacitado a reconhecer seu dever, e sensível de que merece punição quando não o faz, deixaria o homem abandonado, para viver ao seu capricho, e que nunca o puniria por seus pecados, e não diferenciaria entre o bom e o mau. Ou que faria a humanidade e a abandonaria, que deixaria o homem viver todos os seus dias na impiedade, no adultério, homicídio, roubo e abuso, e coisas tais, e permitiria que vivessem prosperamente, sem puni-los jamais; que ficaria passivo vendo sua prosperidade no mundo, muito além dos justos, sem puni-los na eternidade. Como é irracional supor que Aquele que fez o mundo deixaria as coisas em tal confusão, e nunca tomaria cuidado com o governo de Suas criaturas e que jamais julgaria Suas criaturas racionais! A razão ensina que há um Deus, e também ensina que, se houver, Ele deve ser um Deus sábio e justo, e que deve se preocupar em ordenar as coisas sábia e justamente entre Suas criaturas. Portanto, não é razoável supor que os homens morrem como as feras e que não há castigo futuro. E se há castigo futuro, não é razoável supor que Deus não tenha, em algum lugar ou outro, dado aviso aos homens acerca dele, e lhes revelado que tipo de punição devem esperar. Um legislador sábio manteria seus súditos em ignorância quanto à punição que devem esperar por quebrar sua lei? E se Deus a revelou, onde mais será encontrada a não ser na Escritura? Que revelação temos de um estado futuro se não estiver nela revelada? Onde mais, senão aqui, Deus fala à humanidade que tipo de recompensas e punições deve ela esperar? E está abundantemente manifesto, por inúmeras evidências, que estas ameaças são as ameaças de Deus, e que este livro temível é Sua revelação. E uma vez que esta ameaça procede de Deus, não há motivo para objeção quanto ao seu cumprimento. Pois Ele disse, sim, até mesmo jurou, que retribuirá ao ímpio na sua face, de acordo com suas ameaças, e que será glorificado em sua destruição, e que este céu e esta terra passarão. Como é tolo, então, pensar que Deus possa apenas ameaçar tais castigos para o amedrontamento dos homens, sem jamais pretender executá-los! Pois tão certo como Deus é Deus, fará conforme Suas palavras. Ele destruirá as montanhas da iniquidade conforme Suas ameaças, e não haverá escape. Como é vão o pensamento daqueles que se iludem dizendo que Deus não cumprirá Suas ameaças, e que Ele apenas atemoriza e engana os homens por meio delas. Como se Deus não pudesse de outra maneira governar o mundo senão por meio de engodos e embustes falaciosos para iludir seus súditos! Os que acariciam tais pensamentos, conquanto possam estar endurecidos no presente, os entreterão somente por um pouco. Sua experiência, em breve, lhes convencerá que Deus é um Deus da verdade, e que Suas ameaças não são ilusões. Quando for tarde demais para escapar, serão convencidos de que ele é um Deus que de forma alguma inocenta o culpado, e que Suas ameaças são substanciais e não meras sombras. Dt 29:18-21: “Para que, entre vós, não haja homem, nem mulher, nem família, nem tribo cujo coração, hoje, se desvie do SENHOR, nosso Deus, e vá servir aos deuses destas nações; para que não haja entre vós raiz que produza erva venenosa e amarga, ninguém que, ouvindo as palavras desta maldição, se abençoe no seu íntimo, dizendo: Terei paz, ainda que ande na perversidade do meu coração, para acrescentar à sede a bebedice. O SENHOR não lhe quererá perdoar; antes, fumegará a ira do SENHOR e o seu zelo sobre tal homem, e toda maldição escrita neste livro jazerá sobre ele; e o SENHOR lhe apagará o nome de debaixo do céu. O SENHOR o separará de todas as tribos de Israel para calamidade, segundo todas as maldições da aliança escrita neste Livro da Lei.Sl 50:21: “Tens feito estas coisas, e eu me calei; pensavas que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista.
2. Não há razão para pensar que seja possível que os ministros [do evangelho] apresentem este assunto além do que realmente seja; que possivelmente não seja tão horrível e terrível como se pretende, e que os ministros forçam a sua descrição além dos limites justos. Alguns prontamente pensam assim, pois lhes parece incrível que haja miséria tão terrível para qualquer criatura; mas não há razão alguma para tais pensamentos, se considerarmos:
Primeiro. Como é grande a punição que merecem os pecados dos ímpios. A Escritura nos ensina que qualquer pecado merece a morte eterna: Rm 6:23: “porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.” E que ele merece a maldição eterna de Deus. Dt 27:26: “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo. E todo o povo dirá: Amém!Gl 3:10: “Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las.” Tudo isso implica que o menor pecado merece destruição eterna e total. A morte eterna, no seu grau mínimo, equivale a tal grau de miséria, assim como a destruição perfeita da criatura, a perda de todo bem, e a perfeita miséria; e, portanto, ser maldito de Deus implica nisso. Ser maldito de Deus é ser destinado à perfeita e final destruição. A Escritura ensina que os ímpios serão punidos em seu completo merecimento, que devem pagar toda sua dívida.
Segundo. Não há razão para achar que os ministros descrevem a miséria dos ímpios além do que ela é, porque a Escritura nos ensina que este é um dos fins dos ímpios: Rm 9:22: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição.” A Bíblia, com frequência, nos diz que é parte da glória de Deus que Ele seja um Deus terrível e temível. Sl 68:35: “Ó Deus, tu és tremendo nos teus santuários”; que é um fogo consumidor. Sl 66:3: “Que tremendos são os teus feitos! Pela grandeza do teu poder, a ti se mostram submissos os teus inimigos.” E que assim uma parte da glória de Deus seja representada, é terrível coisa injuriar e ofender a Deus. A ira de um rei é como o rugido de um leão, a de um homem é, às vezes, terrível, mas a punição futura dos ímpios serve para mostrar como é a ira de Deus; é para mostrar a todo o universo a glória do Seu poder. 2 Ts 1:9: “Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder.” E, portanto, o sofrimento aqui descrito não é de forma alguma incrível, e não há razão para supor que tenha sido minimamente descrito além do que realmente seja.
Terceiro. A Escritura mostra que a ira de Deus sobre os ímpios é terrível além do que possamos conceber. Sl 90:11: “Quem conhece o poder da tua ira? E a tua cólera, segundo o temor que te é devido?” Assim como não sabemos senão um pouco acerca de Deus, da mesma forma que não conhecemos e podemos conceber senão um pouco do seu poder e de sua grandeza, também é verdade que não conhecemos senão um pouco do terror de sua ira; e, portanto, não há razão para crer que a apresentamos além do que é. Temos razão, ao contrário, para supor que, após ter dito e pensado no nosso limite, tudo o que dissemos ou pensamos não passa de tosca sombra da realidade.
Somos ensinados que a recompensa dos santos está além de tudo que pode ser dito ou concebido. Ef 3:20: “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos.1 Co 2:9: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” E assim podemos racionalmente supor que o castigo dos ímpios da mesma forma será inconcebivelmente terrível.
Quarto. Não há razão para pensar que apresentamos a miséria do inferno além da realidade, porque a Escritura nos ensina que a ira de Deus é de acordo com seu temor (Sl 90:11). Esta passagem afirma que a ira de Deus é de acordo com os seus grandiosos atributos, a sua grandeza e seu poder, sua santidade e força. A majestade de Deus é extremamente grande e temível, e de acordo com seu temor é a sua ira; este é o sentido das palavras. Daí, podemos concluir que a ira de Deus é, sem dúvidas, terrível, além de toda expressão e significado. Como é, de fato, grande e temível Sua majestade, que criou os céus e a terra, e com que majestade virá julgar o mundo no último dia! Virá para tomar vingança contra os ímpios. A visão desta majestade atingirá os ímpios com apreensões e temores de destruição.
Quinto. A descrição que fiz da tribulação e ira que virá sobre os ímpios não está além da verdade, pois é a mesma descrição que a Escritura dá. Ela diz que os ímpios serão lançados na fornalha de fogo; não apenas no fogo, mas em uma fornalha. Mt 13:42: “e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes.Ap 20:15: “E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo.Sl 21:8, 9: “A tua mão alcançará todos os teus inimigos, a tua destra apanhará os que te odeiam. Tu os tornarás como em fornalha ardente, quando te manifestares; o SENHOR, na sua indignação, os consumirá, o fogo os devorará.
Se, portanto, representei esta miséria além da verdade, então a Escritura fez o mesmo. É evidente, então, que não há razão para se exaltar com tais imaginações. Se Deus for verdadeiro, você encontrará Sua ira, e sua miséria futura, tão plena quanto grande; e não apenas isso, mas muito maior, e descobrirá que conhecemos um pouco, e dissemos pouco sobre ela, e todas as nossas expressões são toscas quando comparadas à realidade.
III. Da mesma maneira, pode ser derivado um argumento para convencer os ímpios da justiça de Deus ao reservar-lhes tal porção. Os ímpios, quando ouvem falar de como é terrível a miséria que os ameaça, com frequência levantam os corações contra Deus por isso; parece-lhes muito dura a maneira que Deus lida com as suas criaturas. Não concebem o porquê de Deus ser tão severo com os ímpios, por seus pecados e tolices transitórios neste mundo; e quando consideram que Ele ameaçou tais castigos, são prontos a entreter pensamentos blasfemos contra Ele. Portanto, esforçar-me-ei para lhe mostrar como você está, com justiça, exposto a essa indignação e ira, tribulação e angústia, que ouviu. Em particular, quero mostrar:
Primeiro, como seria justo se Deus o abandonasse a si mesmo: seria muito justo se Deus rejeitasse estar com você ou ajudá-lo.
Você abraçou e se recusou a abandonar aquelas coisas que Deus odeia; recusou-se a esquecer de seus desejos carnais e abandonar os caminhos do pecado que são abomináveis a Ele. Quando Deus lhe ordenou que os abandonasse, se recusou, e ainda permanece neles, de maneira obstinada! Nem se apartou seu coração até hoje do pecado; mas ele lhe é querido, você o guarda no melhor lugar do coração, e o entroniza lá. Seria incrível então se Deus o abandonasse completamente, já que você não abandonará o pecado? Ele sempre declarou seu ódio pela iniquidade; e seria incrível se não estivesse disposto a habitar junto com o que lhe é tão odioso? Não é razoável que Deus insista que você se aparte da concupiscência a fim de desfrutar sua presença, e, visto que há tanto tempo se recusa, não seria justo se Deus o abandonasse completamente? Você sustenta e abriga os inimigos mortais de Deus, o pecado e Satanás; como é justo, portanto, que Deus se mantenha à distância! Ele é obrigado a estar presente com alguém que abriga seus inimigos, e se recusa a abandoná-los? Seria Ele injusto, se o abandonasse completamente a si mesmo, já que você não esqueceu seus ídolos?
Considere como seria justo se Deus o abandonasse, já que você O abandonou. Você não O buscou e à Sua presença e auxílio como deveria ter feito. Você O negligenciou. Não seria justo, portanto, se Ele o negligenciasse? Por quanto tempo muitos de vocês viveram na negligência de buscá-lo? Por quanto tempo vocês restringiram as orações? Portanto, uma vez que se recusaram tanto buscar a Sua presença e ajuda, não poderia Ele, com justiça, reter [essas bênçãos] para sempre, e, dessa maneira, deixá-los completamente entregues a si mesmos?
 Você fez o que esteve ao seu alcance para se alienar de Deus, e fazer com que Ele o abandonasse completamente. Quando Deus, nos tempos passados, não o abandonou, mas foi incansável em despertá-lo, você não resistiu aos movimentos e influências do Seu Espírito? Não se recusou a ser conduzido, ou render-se a Ele? Zc 7:11: “Eles, porém, não quiseram atender e, rebeldes, me deram as costas e ensurdeceram os ouvidos, para que não ouvissem.” Como seria justo, então, Deus recusar-se a mover ou lutar por você! Quando Deus esteve batendo a sua porta, você se recusou a abri-la; como seria justo então se Ele fosse embora, e não mais batesse nela! Quando o Espírito de Deus esteve lutando com você, não foi você culpado de entristecer o Espírito Santo ao dar espaço a um espírito disputador, e ao render-se como uma presa para a luxúria? E alguns de vocês não apagaram o Espírito, e não são culpados de apostasia? E Deus é obrigado, apesar disso tudo, a continuar a lutar com Seu Espírito com vocês, a ser resistido e entristecido, até o momento que se agradarem? Pelo contrário, não seria justo se os abandonasse eternamente, e os deixasse sozinhos?
2. Como seria justo se você fosse amaldiçoado em todos os seus interesses neste mundo! Seria justo se Deus o amaldiçoasse em tudo, e fizesse todas as suas diversões e ocupações voltarem-se para a sua destruição.
Você vive aqui em todas as ocupações da vida como um inimigo de Deus; e usou todas as suas posses e prazeres contra Ele, e para a Sua desonra. Não seria, então, justo se Deus o amaldiçoasse nessas coisas, e as revertesse contra você, e para a sua destruição? Que benção temporal que Deus lhe deu, que você não usou no serviço de suas luxúrias, e no serviço do pecado e de Satanás? Se teve prosperidade, você a usou para a desonra de Deus; quando engordou, abandonou o Deus que o criou. Como não seria justo, portanto, se a maldição de Deus acompanhasse todas as suas diversões! Quaisquer empregos que teve, não serviu a Deus com eles, mas aos Seus inimigos. Como seria justo então se fosse amaldiçoado nos seus empregos! Os meios de graça que desfrutou, você não fez uso deles como deveria ter feito; mas os menosprezou, e os tratou de uma maneira desrespeitosa e descuidada; fez o pior e o não o melhor com eles.  Assim atendeu e fez uso do Dia do Senhor, e das oportunidades espirituais, apenas como ocasião para manifestar seu desprezo por Deus e por Cristo, e pelas coisas divinas, pela sua maneira profana de aproveitá-los. Portanto, não seria justo se a maldição de Deus acompanhasse seus meios de graça, e as oportunidades que você desfruta para a salvação da sua alma?
Você aproveitou seu tempo apenas com provocações e acrescentando às suas transgressões, em oposição a todos os chamados e avisos que lhe poderiam ter sido dado; quão justo seria, portanto, se Deus tornasse a sua própria vida uma maldição, e se Ele o tolerasse apenas para encher a medida dos seus pecados!
Você, agindo ao contrário dos conselhos de Deus, fez uso das suas diversões apenas para ferir sua [própria] alma, portanto, se Deus as revertesse para a sua dor e ruína, estaria lidando com você como você lida consigo mesmo. Deus o aconselhou incansavelmente a usar os aproveitamentos temporais para o seu bem espiritual, mas você se recusou a ouvi-lo, e tolamente os perverteu para entesourar ira para o dia da ira, e voluntariamente usou o que Deus lhe deu para a sua ruína espiritual, para aumentar a culpa e machucar sua própria alma; e, portanto, se a maldição de Deus os acompanhar, de forma que eles se tornem para a ruína da sua alma, você estaria sendo tratado da mesma forma como trata a si mesmo.
3. Como seria justo se Deus o cortasse e pusesse um fim a sua vida!
Você grandemente abusou da paciência e longanimidade de Deus, que já foi exercida em seu favor. Deus, com maravilhosa longanimidade, suportou-o, quando se rebelou contra Ele, e recusou-se a se desviar dos maus caminhos. Ele o contemplou caminhando obstinadamente nos caminhos da provocação, e ainda assim não derramou sua ira sobre você, para destruí-lo, mas ainda tem aguardado para ser gracioso. Ele tem sido longânimo com você, ao permiti-lo ainda viver em Sua terra, e respirar Seu ar; e o manteve e o preservou, e continuou a alimentá-lo, e vesti-lo, e a mantê-lo, e dar-lhe espaço para se arrepender. Mas, ao invés de fazer o melhor em troca de sua paciência, você fez o pior, ao invés de ser quebrantado por isso, você foi endurecido, e se tornou mais ousado no pecado. Ec 8:11: “Visto como se não executa logo a sentença sobre a má obra, o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto a praticar o mal.” Você foi culpado de desprezar as riquezas de Sua bondade, e tolerância e paciência ao invés de ser levado ao arrependimento por elas. Você não pode viver um só dia sem que Deus o mantenha e sustente; não pode dar um suspiro, ou viver um momento, a menos que Deus o sustente, pois a sua respiração está nas Suas mãos, e Ele preserva a sua alma com vida, e Sua visitação preserva o seu espírito. Mas, que graças Deus recebeu por isso, uma vez que você, ao invés de se voltar para Ele, apenas tornou-se mais plenamente consolidado e terrivelmente endurecido nos caminhos do pecado? Como seria justo, portanto, se a paciência de Deus se acabasse, e ele cessasse de ainda tolerar você.
Você não apenas abusou de Sua paciência passada, mas também abusou de Suas intenções de paciência futura. Tem se gabado de que a morte não está próxima, e que deve viver muito tempo no mundo, e isto o tornou ainda mais abundantemente ousado no pecado. Portanto, uma vez que esse foi o uso que fez da esperança de ter sua vida preservada, como seria justo se Deus desapontasse sua expectativa, e lhe cortasse dessa longa vida de que você se gaba, e em cujos pensamentos se encoraja no pecado contra Ele! Como seria justo se sua respiração fosse em breve cortada, e isso repentinamente, quando menos pensasse, e você fosse levado na sua impiedade!
Enquanto vive no pecado, nada faz senão sobrecarregar o solo, você é completamente inútil e vive em vão. Aquele que se recusa a viver para a glória de Deus não responde ao fim da sua criação, e vive para quê? Deus fez os homens para servi-lo. Para este fim, lhes deu vida; e se não devotarem suas vidas a este fim, não seria justo se Deus se recusasse a continuar ainda com suas vidas? Ele o plantou em sua vinha, para produzir fruto; e se você não produz, por que deveria ainda mantê-lo? Como seria justo se o cortasse!
Enquanto você viveu, muitas das bênçãos de Deus foram gastas com você dia após dia; você devora os frutos da terra e consome muito de sua gordura e doçura; e tudo sem nenhum propósito senão mantê-lo vivo para pecar contra Deus, e gastar tudo na impiedade. Toda a criação, por assim dizer, geme por sua causa; o sol nasce e se põe para lhe dar a luz, as nuvens derramam chuva sobre você, e a terra produz seus frutos e labores de ano a ano para supri-lo; e você, neste meio tempo, não responde ao fim daquele que criou todas as coisas. Como seria justo, então, se Deus o cortasse, e o levasse embora, e libertasse a terra deste peso, para que a criação não mais gema por sua causa, e lhe expulsasse como um ramo abominável! Lc 13:7: “Pelo que disse ao viticultor: Há três anos venho procurar fruto nesta figueira e não acho; podes cortá-la; para que está ela ainda ocupando inutilmente a terra?” Jo 15:2, 6: “Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda. Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam.”
4. Como seria justo se você morresse no maior horror e espanto!
Com quanta frequência você tem sido exortado a aproveitar seu tempo, construir um fundamento de paz e conforto para o seu leito de morte; e, ainda assim, recusou-se a ouvir! Você tem sido muitas e muitas vezes lembrado de que deve morrer, que é incerto quando, e que não sabe a hora, e foi-lhe dito quão vis e insignificantes todos os seus prazeres terrenos então parecerão, e como serão incapazes de lhe dar qualquer conforto no seu leito de morte.  Você tem sido alertado sempre sobre como é terrível estar em um leito de morte num estado sem Cristo, nada tendo para lhe confortar senão os prazeres mundanos. Você foi, com frequência, conscientizado do tormento e espanto que os pecadores, que aproveitaram mal seu precioso tempo, estão sujeitos quando arrastados pela morte. Foi-lhe dito como necessitaria infinitamente ter Deus como seu amigo, e ter o testemunho de uma boa consciência, e uma esperança bem fundamentada de bem-aventurança futura. E com que frequência foi exortado a ter o cuidado de prover contra este dia, e entesourar nos céus, para que possa ter algo em que depender quando partir deste mundo, algo para esperar quando todas as coisas aqui falharem! Mas lembre-se como esteve despreocupado, como foi lerdo e negligente de tempo em tempo, quando se assentou para ouvir estas coisas, e, ainda assim, obstinadamente recusou-se a se preparar para a morte, e não teve cuidado em assentar um bom fundamento contra este tempo. E você não apenas foi aconselhado, mas presenciou outros em seus leitos de morte, em temor e aflição, ou ouviu falar deles, e não tomou aviso; sim, alguns de vocês estiveram doentes, e ficaram temerosos de que estivessem nos seus dias finais, porém Deus foi misericordioso, e os restaurou, mas não ficaram alertas para se prepararem para a morte. Como seria justo então se você pudesse ser o objeto desse horror e espanto que ouviu, quando a sua hora chegar!
E não apenas isso, mas como você arduamente gastou seu tempo entesourando coisas para a tribulação e angústia naquele dia! Você não foi apenas negligente em assentar um fundamento para a paz e conforto então, mas gastou seu tempo contínua e incansavelmente assentando um fundamento para a aflição e o horror. Como alguns de vocês continuaram dia após dia, empilhando mais e mais culpa; mais e mais ferindo a própria consciência, aumentando ainda a porção de tolice e impiedade para que você mesmo venha a refletir sobre elas! Como seria justo, portanto, se essa tribulação e angústia viesse sobre você!
5. Como é justo que você deva sofrer a ira de Deus em outro mundo!
Porque voluntariamente provocou e atiçou essa ira. Se não está disposto a sofrer a ira de Deus, então por que O provocou à ira? Por que agiu como se pudesse arranjar uma maneira para que ele não se irasse contra você? Por que desobedeceu deliberadamente a Deus? Você sabe que a desobediência deliberada tende a provocar aquele que é desobedecido; assim acontece com um rei, chefe ou pai terreno. Se você tem um servo que é deliberadamente desobediente, isto provoca sua ira. E, novamente, se não suporta a ira de Deus, por que, com tanta frequência, O despreza? Se alguém despreza os homens, isto tende a provocá-los: quanto mais a Majestade Infinita dos céus pode ser provocado, quando é menosprezado! Você também roubou de Deus a sua propriedade, recusou-se a dar a Ele o que Lhe pertence. Os homens são provocados quando são privados do que lhes é devido e quando tratados injuriosamente; quanto mais Deus pode ser provocado quando você O rouba!
E também desprezou a bondade de Deus para com você, e esta é a maior bondade e amor que se pode conceber. Você tem sido supremamente ingrato e tem abusado dessa bondade. Nada provoca mais os homens do que ter sua bondade menosprezada e abusada; quanto mais Deus pode ser provocado quando os homens retribuem Sua misericórdia infinita apenas com desobediência e ingratidão! Portanto, se continua a provocá-lo, e atiçar a Sua ira, como pode esperar outra coisa, senão sofrer essa mesma ira? Se, então, você de fato sofrer a ira de um Deus ofendido, lembre-se que é o que procurou para si mesmo, é um fogo que você mesmo acendeu.
Você não aceitou a libertação da ira de Deus, quando lhe foi ofertada. Quando Ele, em sua misericórdia, enviou Seu Filho unigênito ao mundo, você se recusou a admiti-lo. Amou demais seus pecados a ponto de abandoná-los para vir a Cristo, e por causa deles rejeitou as ofertas de um Salvador, de forma que escolheu a morte ao invés da vida. Após assegurar a ira para si mesmo, apegou-se a ela, e não a abandonou pela misericórdia. Pv 8:36: “Mas o que peca contra mim violenta a própria alma. Todos os que me aborrecem amam a morte.
6. Como seria justo se você fosse entregue nãos mãos do diabo e seus anjos, para ser atormentado para sempre, já que voluntariamente se entregou para servi-los aqui! Você os ouviu, ao invés de ouvir a Deus. Como seria justo, então, se Deus o entregasse a eles! Você seguiu a Satanás e aderiu aos seus interesses em oposição a Deus, e se sujeitou a sua vontade neste mundo, ao invés de se submeter à vontade de Deus; como seria justo então se Deus o entregasse para a vontade do diabo daqui para frente!
7. Como seria justo se o seu corpo fosse feito objeto do tormento do porvir, o mesmo corpo que você tornou instrumento do pecado neste mundo! Você entregou o seu corpo como um sacrifício para o pecado e Satanás: como seria justo então se Deus o entregasse como um sacrifício para a ira! Você empregou seu corpo como um servo para os seus desejos vis e odiosos. Como seria justo, portanto, se Deus, no porvir, ressuscitasse seu corpo para ser objeto e instrumento da miséria; e para enchê-lo tão plenamente do tormento como eles estiveram cheios do pecado!
8. Mas a maior objeção dos ímpios contra a justiça do futuro castigo que é ameaçado por Deus advém da grandeza desse castigo: que Deus deva infligir sobre os impenitentes tormentos tão extremos, tão incrivelmente terríveis, ter seus corpos lançados na fornalha de fogo de tão imenso calor e fúria, lá ficar sem se consumir, e ainda cheio de senso e sentimento, com chamas por dentro e por fora; e a alma cheia do ainda mais terrível horror e tormento; e assim permanecer sem remédio ou descanso para sempre, e sempre, e sempre. Portanto, mencionar-lhe-ei algumas coisas, para mostrar como você, com justiça, está exposto a punição tão terrível.
1. Esta punição, tão terrível quanto seja, não é maior do que o grandioso e glorioso Ser contra quem você pecou. É verdade que é uma punição terrível além de toda expressão e concepção, da mesma forma que a grandeza e glória de Deus estão muito acima de toda expressão e concepção; mas, ainda assim, você continua nos seus pecados contra Ele, sim, tem sido ousado e presunçoso nos seus pecados, e tem multiplicado as transgressões contra Ele infinitamente. A ira de Deus, que vocês ouviram, terrível como é, não é mais que essa Majestade que vocês desprezaram e pisaram. Essa punição é de fato suficiente para encher de horror alguém que meramente pense sobre ela; e assim, se você a concebesse corretamente, ficaria cheio de no mínimo igual horror em pensar em pecar tão grandemente contra Deus tão grandioso e glorioso. Jr 2. 12:13: “Espantai-vos disto, ó céus, e horrorizai-vos! Ficai estupefatos, diz o SENHOR. Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas.” Deus, sendo tão infinitamente grande e excelente, não o influenciou a pecar contra Ele, mas você o fez ousadamente, e fez pouco caso, milhares de vezes; e por que o fato dessa miséria ser tão infinitamente grande e terrível, impediria Deus de infligi-la sobre você? 1 Sm 2:25: “Pecando o homem contra o próximo, Deus lhe será o árbitro; pecando, porém, contra o SENHOR, quem intercederá por ele?
2. Sua natureza não abomina mais esta miséria que você ouviu, do que a natureza de Deus abomina o pecado de que você é culpado. A natureza do homem é muito avessa à dor e ao tormento, e é especialmente avessa a tal tormento terrível e eterno; mas, ainda assim, isso não impede que seja justo o que é infligido, pois os homens não odeiam a miséria mais do que Deus odeia o pecado. Deus é tão santo, e de natureza tão pura, que tem aversão infinita ao pecado; mas, ainda assim, você menospreza o pecado, e eles têm excessivamente se multiplicado e crescido. A consideração de que Deus o odeia não impediu você de cometê-lo; por que, portanto, a consideração de que você odeia a miséria deveria impedir Deus de trazê-la sobre você? Deus representa a sim mesmo na sua Palavra como cansado e aborrecido com os pecados dos ímpios: Is 1:14: “As vossas Festas da Lua Nova e as vossas solenidades, a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer.Ml 2:17: “Enfadais o SENHOR com vossas palavras; e ainda dizeis: Em que o enfadamos? Nisto, que pensais: Qualquer que faz o mal passa por bom aos olhos do SENHOR, e desses é que ele se agrada; ou: Onde está o Deus do juízo?
3. Você não se preocupou com o quanto a honra de Deus tem sofrido; e por que Deus deveria se preocupar que a sua miséria não fosse tão grande? Você foi alertado sobre como aquelas coisas que praticou traziam desonra a Deus; contudo, não se importou, mas continuou a multiplicar as transgressões. A consideração de que quanto mais você pecava, mais Deus era desonrado, nem ao menos o restringiu. Se não fosse pelo temor do desgosto de Deus, você não teria se importado que o desonrasse dez mil vezes como fez. Devido à falta de respeito a Deus, você não se importou com o que sucedeu de Sua honra, nem de sua felicidade, não, nem do Seu Ser. Por que então Deus é obrigado a ser cuidadoso com o quanto você sofre? Por que deveria se preocupar com o seu bem estar, ou usar qualquer precaução para que não venha a colocar sobre você mais do que possa suportar?
4. Tão grande quanto seja esta ira, não é maior do que o amor de Deus que você desprezou e rejeitou. Deus, em sua infinita misericórdia pelos pecadores perdidos, forneceu um modo para eles escaparem da miséria futura, e obterem vida eterna. Para esse fim deu o Seu Filho unigênito, uma pessoa infinitamente gloriosa e honrada, em si mesmo igual a Deus, e infinitamente próximo a Ele. Foi dez mil vezes mais do que se Deus houvesse dado todos os anjos nos céus, ou o mundo inteiro pelos pecadores. Ele o deu para se encarnar, sofrer a morte, ser feito maldição por nós, sofrer a terrível ira de Deus em nosso lugar, e assim adquirir-nos a glória eterna. Esta pessoa gloriosa foi ofertada a você inúmeras vezes, e ele esteve e bateu a sua porta, até que seus cabelos ficassem úmidos com o orvalho do noite; mas tudo o que fez não o ganhou; você não viu nele forma nem formosura, nem beleza alguma que o agradasse. Quando ele se lhe ofertou como o seu Salvador, você jamais o aceitou livremente e de coração. Este amor que você dessa maneira abusou é tão grande quanto essa ira que você corre perigo. Se você o houvesse aceitado, teria o gozo deste amor ao invés de suportar essa terrível ira: assim, a miséria que você ouviu não é maior que o amor que você desprezou, e a felicidade e glória que rejeitou. Como seria justo então em Deus executar essa ira sobre você, que não é maior do que o amor que você desprezou! Hb 2:3: “como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram.
5. Se você reclama desta punição como sendo muito grande, então por que ela não foi grande o suficiente para o impedir de pecar? Conquanto seja grande, você fez pouco caso dela. Quando Deus ameaçou infligi-la, você não se importou com as ameaças, mas foi ousado em desobedecê-lo, e fazer aquelas mesmas coisas pelas quais ele ameaçou esta punição. Grande como ela seja, não foi o suficiente para impedi-lo de viver deliberadamente uma vida ímpia, e continuar nos caminhos que sabia que eram maus. Quando soube que tais e tais coisas certamente o expunham a essa punição, você não se absteve por esses relatos, mas continuou dia a dia, ainda mais presunçoso, e Deus ameaçar tal punição não teve um efeito sobre você. Por que, portanto, reclama agora que essa punição seja grande demais, e dispute contra ela, dizendo que Deus não é razoável e é cruel em infligi-la? Ao dizer assim, se condena com sua própria boca, pois se é um castigo tão terrível, mais do que é justo, então porque não foi grande o suficiente para restringi-lo do pecado deliberado? Lc 19:21: “Pois tive medo de ti, que és homem rigoroso; tiras o que não puseste e ceifas o que não semeaste. Respondeu-lhe: Servo mau, por tua própria boca te condenarei.” Você reclama que a punição é grande demais, contudo, agiu como se não fosse grande o suficiente, e a desprezou. Se a punição for tão grande, por que você se esforçou para torna-la ainda maior? Pois continuou dia após dia entesourando ira para o dia da ira, acrescentado ao seu castigo, e o aumentando substancialmente; e ainda assim agora você reclama que seja grande demais, como se Deus não pudesse justamente infligir castigo tão grande. Como é absurda e contraditória a conduta de alguém que reclama de Deus por tornar o castigo grande demais, mas dia a dia grandemente ajunta e recolhe combustível, para tornar o fogo maior!
6. Você não tem motivo para reclamar da punição ser injusta; pois muitas e muitas vezes provocou a Deus com o seu pior. Se você devesse proibir um servo por fazer uma dada coisa, e o ameaçasse de que, se a fizesse, você infligiria sobre ele uma punição terrível, e ele, apesar disso tudo a fizesse, e você renovasse o mandamento, e o avisasse da maneira mais estrita possível a não fazê-lo, e lhe dissesse que certamente o puniria se persistisse, e declarasse que sua punição seria muito terrível, e ele completamente o desprezasse, e desobedecesse novamente, e você continuasse a repetir seus mandamentos e avisos, ainda falando do terror do castigo, e ele, ainda sem se preocupar, continuasse e continuasse a desobedecê-lo descaradamente e isso imediatamente após suas proibições e ameaças: você poderia agir de outra maneira senão fazendo o que fosse mais terrível? Mas assim você agiu com Deus; você teve seus mandamentos repetidos, e suas ameaças postas diante de si centenas de vezes, e foi muito solenemente advertido; contudo, apesar disso tudo, continuou nos caminhos que sabia serem pecaminosos, e fez as exatas coisas que foram proibidas, diretamente diante de Sua face. Jó 15:25, 26: “porque estendeu a mão contra Deus e desafiou o Todo-Poderoso; arremete contra ele obstinadamente, atrás da grossura dos seus escudos.” Você assim invocou o desafio ao Todo-Poderoso, mesmo quando viu a espada de sua ira vingadora desembainhada, pronta a cair sobre sua cabeça. Seria então, uma maravilha se ele o fizesse conhecer como é terrível essa ira, na sua completa destruição?