quarta-feira, 7 de maio de 2014

A MUDANÇA E PERPEITUIDADE DO SABBATH - POR QUE O DIA FOI MUDADO

Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for.” (1 Coríntios 16: 1, 2)

A doutrina fundamentada nestas palavras é que: é a intenção e vontade de Deus que o primeiro dia da semana deva ser especialmente separado entre os cristãos para os exercícios e deveres religiosos.
Propus-me a discursar sobre esta doutrina usando duas proposições, e já havendo, na primeira, me esforçado por provar que um dia da semana deve, em todas as eras, ser devotado aos exercícios religiosos, prossigo agora para a proposição seguinte:
Proposição IIÉ a vontade de Deus que, na dispensação do evangelho, ou na igreja cristã, este dia seja o primeiro da semana.
A fim de confirmarmos isto, considere-se o seguinte:
1. As palavras do quarto mandamento não representam objeção contra este dia, ou qualquer outro, ser o Sabbath. Que este que, de acordo com o cálculo judaico, é o primeiro dia da semana, deva ser guardado como um Sabbath, não contradiz qualquer sentença ou palavra do quarto mandamento mais do que se o sétimo for tal dia. As palavras do quarto mandamento não determinam que dia da semana devemos guardar como um Sabbath; elas meramente determinam que devemos descansar e guardar como um Sabbath todo sétimo dia, ou um dia depois de cada seis. Diz: “Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra.” E, no sétimo, descansarás. Isto implica nada mais que, após seis dias de trabalho, devemos descansar e santificar o próximo dia depois do sexto. E esta é nossa obrigação perpétua. Mas as palavras, de forma alguma, determinam quando estes seis dias devem começar, e, dessa maneira, quando o descanso ou Sabbath deve cair. Não há instrução no quarto mandamento sobre como computar o tempo, ou seja, onde iniciá-lo e terminá-lo; supõe-se que isto seja determinado em outra parte.
Os judeus não sabiam, pelo quarto mandamento, onde começar esses seis dias, e em que dia particular descansar; isto foi determinado por outro preceito. O quarto mandamento, de fato, supõe um determinado dia particular, mas não aponta esse dia. Ele exige que descansemos e santifiquemos um dia sétimo, um a cada seis dias de labor, dia esse que Deus ou apontara ou haveria de apontar. Esse dia particular foi determinado para aquela nação em outro lugar, isto é, em Êxodo 16:23, 25, 26: “Respondeu-lhes ele: Isto é o que disse o SENHOR: Amanhã é repouso, o santo sábado do SENHOR; o que quiserdes cozer no forno, cozei-o, e o que quiserdes cozer em água, cozei-o em água; e tudo o que sobrar separai, guardando para a manhã seguinte. Então, disse Moisés: Comei-o hoje, porquanto o sábado é do SENHOR; hoje, não o achareis no campo. Seis dias o colhereis, mas o sétimo dia é o sábado; nele, não haverá.” Este é o primeiro lugar que temos menção feita ao sábado, desde o primeiro sábado em que Deus descansou.
Parece que os israelitas, no seu tempo de cativeiro no Egito, haviam perdido a verdadeira contagem dos dias da semana, contagem essa advinda do primeiro dia da criação. Eram escravos, em cruel servidão, e haviam em grande parte esquecido a verdadeira religião, pois nos é dito que serviam aos deuses do Egito. Não se deve pensar que os egípcios permitiriam que seus escravos descansassem do trabalho a cada sétimo dia. Ora, tendo permanecido por tanto tempo na servidão, eles provavelmente perderam o cálculo semanal; portanto, Deus, ao tirá-los do Egito e levá-los ao deserto, torna-lhes conhecido o sábado, na ocasião e na maneira registradas no texto já citado. Assim, lemos em Neemias que, quando Deus tirou os filhos de Israel do Egito, deu-lhes a conhecer seu santo sábado: “O teu santo sábado lhes fizeste conhecer.” Da mesma forma, lemos em Ezequiel 20:10, 12: “Tirei-os da terra do Egito e os levei para o deserto. Também lhes dei os meus sábados.
Mas, pelo quarto mandamento, jamais saberiam quando cairia esse dia específico. Na verdade, o quarto mandamento, como expresso aos judeus, referia-se, de fato, ao Sabbath judaico. Mas isso não prova que o dia foi determinado e apontado por ele. O preceito no quarto mandamento deve ser tomado, na sua generalidade, como um sétimo dia que Deus havia de apontar, ou já teria apontado. E, por que tal dia específico já havia sido apontado para a congregação de Israel, portanto, como foi falado a eles, referia-se de fato àquele dia em particular. Mas, isto não prova que as palavras não se refiram a outro sétimo dia, determinado agora na Igreja cristã. As palavras do quarto mandamento podem obrigar a Igreja, sob diferentes dispensações, a observar determinados dias sétimos diferentes, bem como o quinto mandamento pode obrigar diferentes pessoas a honrar diferentes pais e mães.
O Sabbath cristão, no sentido do quarto mandamento, é tanto o sétimo dia quanto o Sabbath judaico, pois é guardado após seis dias de trabalho como aquele; é o sétimo, contando do início do nosso primeiro dia de trabalho, bem como aquele era o sétimo desde o início da semana de trabalhos deles. Toda a diferença é que os sete dias, anteriormente, começavam no dia posterior ao descanso de Deus na criação, e agora começam um dia depois desse. Não importam os nomes pelos quais são chamados: se nossa nação houvesse, por exemplo, chamado o primeiro dia da semana de Wednesday (quarta-feira), seria irrelevante para esta argumentação.
Portanto, na instituição do sábado cristão, não há mudança no quarto mandamento; mas a mudança é em outra lei, que determinava o início e o fim dos dias de trabalho dos judeus. De modo que as palavras do quarto mandamento: “Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus”, não contradizem aquilo que chamamos de sábado cristão, pois elas ainda vigoram plenamente. Nem surge qualquer objeção justa das palavras seguintes: “porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou.” Estas palavras não se tornam insignificantes para os cristãos, pela instituição do Sabbath cristão: elas ainda permanecem em total vigor naquilo que especialmente se pretende por elas. Têm como propósito nos dar uma razão de por que não devemos trabalhar senão seis dias, e descansar no sétimo, pois este é o modelo dado por Deus. E, tomadas assim, permanecem com tanto vigor como sempre estiveram. Esta ainda é a razão pela qual, como já é o costume, não podemos trabalhar senão num turno de seis dias. Por que razão os cristãos descansam a cada sete, e não oito, nove, ou dez dias? É porque Deus trabalhou seis dias e descansou no sétimo.
É verdade, estas palavras de fato carregam algo mais em seu sentido, na maneira em que foram pronunciadas aos judeus e à Igreja antes da vinda de Cristo. Por elas, também se pretendia que o sétimo dia fosse guardado como uma celebração da obra da criação. Mas isto não representa objeção à suposição de que as palavras, no que se referem a nós, não carregam todos os sentidos que tinham em relação aos judeus. Pois também há outras palavras que foram escritas sobre as tábuas de pedra com os dez mandamentos, que são conhecidas e concorda-se que não tenham o mesmo sentido para nós daquele que tinham para os judeus. Um exemplo são as do prefácio aos dez mandamentos: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.” Estas palavras foram escritas nas tábuas de pedra com as demais, e são ditas a nós, da mesma forma que aos judeus: são faladas a todos a quem os mandamentos são direcionados, pois são um reforço a eles. Entretanto, não têm o sentido completo que tinham para os judeus. Pois nunca fomos tirados do Egito, da casa da servidão, a não ser num sentido místico. O mesmo pode ser dito daquelas palavras que estão inseridas nos próprios mandamentos, como em Deuteronômio 5:15: “porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito e que o SENHOR, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço estendido; pelo que o SENHOR, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado.” Portanto, todos os argumentos daqueles que são contra o Sabbath cristão, advindos do quarto mandamento, e que se apoiam inteiramente nele, reduzem-se a nada.
2. O fato de que a Igreja antiga foi ordenada a guardar um sétimo dia, em comemoração à obra da criação, é um argumento para a guarda de um Sabbath semanal em comemoração à obra da redenção, e não uma razão contrária a ela.
Lemos na Escritura a respeito de duas criações, a antiga e a nova: e estas palavras do quarto mandamento devem ser tomadas como de mesma força para aqueles que pertencem à nova criação, com respeito a essa nova criação, como ocorria com os que pertenciam à antiga, com respeito a ela. Lemos que “No princípio criou Deus os céus e a terra,” e a antiga igreja devia comemorar essa obra. Mas quando Deus cria um novo céu e uma nova terra, os que pertencem a esse novo céu e nova terra, por razões análogas, devem comemorar essa nova criação.
As Escrituras nos ensinam a encarar a antiga criação como se estivesse destruída e, por assim dizer, aniquilada pelo pecado; ou como se reduzida novamente ao caos, sem forma e vazia, como era no princípio. “São sábios para o mal e não sabem fazer o bem. Olhei para a terra, e ei-la sem forma e vazia; para os céus, e não tinham luz.” Ou seja, estavam reduzidos ao mesmo estado do princípio; a terra estava sem forma e vazia, e nela não havia luz, porém as trevas estavam sobre a face do abismo.
As Escrituras nos ensinam a chamar a restauração e redenção do evangelho de criação de um novo céu e nova terra: “Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas, jamais haverá memória delas.” E em Isaías 51:16: “Ponho as minhas palavras na tua boca e te protejo com a sombra da minha mão, para que eu estenda novos céus, funde nova terra e diga a Sião: Tu és o meu povo.” E no capítulo 66:22: “Porque, como os novos céus e a nova terra, que hei de fazer,” etc. Nestes lugares, somos informados não apenas de uma nova criação, ou de um novo céu e de uma nova terra, mas somos informados qual é o sentido disso, isto é, a renovação do evangelho, a transformação de Jerusalém em júbilo, e de seu povo em alegria; dizendo a Sião: “Tu és o meu povo.” O profeta, nestas passagens, profetiza a respeito da redenção do evangelho.
O estado do evangelho em toda parte é descrito como um estado renovado das coisas, onde as antigas passaram, e tudo se fez novo: é dito de nós que somos criados por Cristo Jesus para as boas obras; todas as coisas são restauradas e reconciliadas quer no céu, quer na terra, e Deus faz a luz brilhar nas trevas, como fez no princípio: e a dissolução da comunidade judaica sempre foi mencionada no Antigo Testamento como o fim do mundo. Mas nós, que pertencemos à igreja sob o evangelho, pertencemos à nova criação; portanto, parece haver, no mínimo, tanta razão para celebrar esta obra da criação, quanto havia, para os membros da velha igreja judaica, em celebrar a antiga.
3. Há outra coisa que confirma que o quarto mandamento ensina que Deus descansa tanto da nova quanto da antiga criação: as Escrituras expressamente falam de uma em paralelo com a outra, isto é, o descanso de Cristo da obra da redenção é expressamente referido como sendo paralelo ao descanso de Deus da obra da criação. Hb 4:10: “Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas.
Ora, Cristo descansou de sua obra quando ressurgiu dos mortos, no primeiro dia da semana. Quando ressuscitou, terminou sua obra de redenção; sua humilhação então chegou ao fim; descansou, e foi alentado. Quando é dito: “portanto, resta um repouso para o povo de Deus.” A palavra original é sabbatismos, ou a guarda de um Sabbath: e a razão dada é a seguinte: “Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas.” São-nos, no mínimo, ensinadas três coisas nestas palavras:
a) a encarar o descanso de Cristo de sua obra da redenção como paralelo ao descanso de Deus da obra da criação; pois são expressamente comparados, como paralelos um ao outro;
b) são referidos como paralelos, particularmente em referência ao seguinte: à relação que ambos têm com a guarda de um Sabbath entre o povo de Deus, ou com respeito à influência que estes dois descansos têm, quanto ao sabbatismos na igreja de Deus, pois é expressamente a este respeito que são comparados. Aqui há uma referência evidente a Deus abençoar e santificar o seu dia de descanso na criação como um Sabbath e apontar um Sabbath de descanso em imitação a ele. Pois disto fala o apóstolo no v. 4: “Porque, em certo lugar, assim disse, no tocante ao sétimo dia: E descansou Deus, no sétimo dia, de todas as obras que fizera.” Assim, até aqui é evidente o que o apóstolo tem em vista por esta guarda de um Sabbath pelo povo de Deus, quer seja um descanso semanal na terra, ou um descanso no céu;
c) é evidente nestas palavras que a preferência é dada ao último, isto é, ao descanso de nosso Salvador de sua obra, com respeito à influência que deveria ter, ou relação que sustenta, ao descanso do povo de Deus agora, sob o evangelho, evidentemente implícito na expressão: “Portanto, resta um sabbatismos para o povo de Deus.” Pois, na palavra resta é intimado que o antigo sabbatismos, apontado em lembrança do descanso de Deus da obra da criação, não permanece, mas cessou; e que este novo descanso, em comemoração ao descanso de Cristo de suas obras, resta no lugar dele.
4. O Espírito Santo nos disse implicitamente que o Sabbath que foi instituído em comemoração à antiga criação, não deveria ser mantido nos tempos do evangelho (Is 65:17, 18). Nesta passagem, aprendemos que, quando Deus criasse novos céus e nova terra, a antiga não deveria ser lembrada, nem vir à mente. Se isso for verdade, não se pode pensar que devemos guardar uma sétima parte do tempo, com o fim de rememorar e trazer à mente a antiga criação.
Entendamos isto da forma que quisermos: não será consistente com a guarda de um dia em sete, na igreja evangélica, [se isto for feito] principalmente para a lembrança e rememoração da antiga criação. Se o sentido da passagem for apenas esse, que a velha criação não seja lembrada e rememorada em comparação com a nova e que a nova será muito mais notável e gloriosa, [então], isso muito mais intimamente nos dirá respeito, e muito mais deve ser observado e considerado digno de ser lembrado e comemorado, pois desse modo nos ensina o Espírito Santo que a Igreja cristã tem muito mais razão em comemorar a nova criação que a antiga; ao ponto que a antiga é digna de ser esquecida em comparação à nova.
E, assim como a antiga criação não devia ser lembrada, nem vir à mente; da mesma maneira, no versículo seguinte, a Igreja é orientada a comemorar para sempre a nova criação: “Mas vós folgareis e exultareis perpetuamente no que eu crio; porque eis que crio para Jerusalém alegria e para o seu povo, regozijo.i. e, embora esqueçais a antiga, contudo lembrai-vos para sempre, até o final dos tempos, da nova criação.
5. É um argumento contra a perpetuidade do Sabbath judaico o fato de que os judeus eram ordenados a guardá-lo como lembrança de sua libertação do Egito. Uma das razões de sua instituição foi que Deus os libertou, como é-nos expressamente dito: “porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito e que o SENHOR, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço estendido; pelo que o SENHOR, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado.” Ora, alguém pode imaginar que Deus iria ordenar a todas as nações sob o evangelho, até o fim do mundo, que guardassem um dia da semana que foi instituído como lembrança da libertação dos judeus do Egito?
6. O Espírito Santo nos disse implicitamente que memoriais instituídos da libertação dos judeus do Egito não deveriam ser mantidos nos tempos evangélicos (Jeremias 26:14, 15) O Espírito, falando dos tempos do evangelho, diz: “Portanto, eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que nunca mais se dirá: Tão certo como vive o SENHOR, que fez subir os filhos de Israel do Egito.” Não mais dirão: tão certo como vive o Senhor que fez subir, etc., isto é, pelo menos não manterão mais nenhum memorial público disso.
Se houver um Sabbath a ser mantido nos tempos do evangelho, como mostramos que há, é mais justo supor, a partir dessas palavras, que ele deve ser como um memorial daquilo que é referido no ultimo versículo, a subida de Israel da terra do norte, ou seja, a redenção de Cristo, e o fato de ele trazer os eleitos para casa, não apenas da Judeia, mas do norte, e de todos os cantos do mundo. Veja Isaías 43:16-20.
7. Não é senão justo supor que Deus pretendia nos intimar que o Sabbath devesse ser guardado pelos cristãos em comemoração à redenção de Cristo, ao dizer que foi ordenado como lembrança da libertação dos israelitas do Egito. Isso porque a libertação do Egito é um tipo evidente e conhecido da redenção. Ela foi ordenada por Deus, tendo como propósito representar esta redenção; tudo acerca dessa libertação era típico, e é muito aproveitada principalmente por isso, por ser tão notavelmente um tipo da redenção de Cristo. E não foi senão uma sombra, a obra em si não foi nada em comparação com a da redenção. O que é uma pequena libertação de uma nação da escravidão temporal comparada à salvação eterna de toda a igreja dos eleitos, em todas as eras e nações, da condenação eterna, e a sua introdução, não em uma Canaã temporal, mas nos céus, em glória e benção eterna? Esta sombra deveria ser comemorada de tal maneira que um dia semana foi reservado para isto; e não deveríamos nós muito mais comemorar essa grande e gloriosa obra da qual este [Sabbath] não era senão uma sombra?
Além disso, as palavras do quarto mandamento que falam da libertação do Egito não têm sentido para nós, a menos que sejam interpretadas à luz da redenção do evangelho. Porém, as palavras do decálogo são faladas a todas as nações e épocas. Portanto, as palavras como foram ditas aos judeus referiam-se a um tipo, ou sombra; como são faladas a nós, devem ser interpretadas como um antítipo e substância, pois o Egito do qual fomos redimidos sob o evangelho é o espiritual; a casa da servidão da qual somos libertos é um estado de escravidão espiritual. Portanto, as palavras, como faladas a nós, devem ser assim interpretadas: “Lembra-te que foste um servo do pecado e de Satanás, e o Senhor, teu Deus, te libertou desta escravidão, com mão poderosa e braço estendido; portanto o Senhor, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado”.
Como as palavras no prefácio aos dez mandamentos, sobre tirar os filhos de Israel para fora do Egito, são interpretadas em nosso catecismo, e enquanto têm relação conosco, devem ser interpretadas no sentido da nossa redenção espiritual, assim, por um motivo idêntico, estas palavras em Deuteronômio, anexadas ao quarto mandamento, devem ser interpretadas [como expressão] da mesma redenção do evangelho.
O Sabbath judaico era guardado no dia que os filhos de Israel saíram do mar Vermelho. Deuteronômio 5:15 diz que este santo repouso do Sabbath foi designado em comemoração à saída do Egito. Mas o dia em que atravessaram o mar Vermelho foi o mesmo de sua saída; pois, até então, ainda estavam na terra do Egito. O mar Vermelho era a fronteira da nação egípcia. A própria Escritura nos diz que o dia em que cantaram o cântico de Moisés foi o dia de sua saída do Egito: “e ali cantará, como nos dias da sua mocidade e como no dia em que subiu da terra do Egito. [ARC]” referindo-se claramente àquele triunfante cântico que Moisés e os filhos de Israel cantaram quando saíram do mar Vermelho.
As Escrituras nos dizem que Deus designou o Sabbath judaico em comemoração à libertação dos filhos de Israel de seus opressores, os egípcios, e de seu descanso da dura servidão e escravidão sob eles: “para que o teu servo e a tua serva descansem como tu; porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito e que o SENHOR, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço estendido; pelo que o SENHOR, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado.” Mas o dia em que ocorreu esta libertação dos filhos de Israel de seus opressores, foi o dia em que eles saíram do mar Vermelho. Até então, não tinham descansado. Pois, embora tenham saído em sua jornada para fora do Egito, foram perseguidos pelos egípcios, e ficaram muito perplexos e aflitos. Mas, na manhã em que saíram do mar Vermelho, obtiveram final e completa libertação; tiveram, então, pleno descanso de seus opressores. Então, Deus lhes disse o que está em Êxodo 14:13. Naquele momento desfrutaram um alegre dia de descanso, um dia de refrigério. E cantaram o cântico de Moisés, e aquele dia foi o seu Sabbath de descanso.
Porém, esta saída dos filhos de Israel do mar Vermelho era apenas um tipo da ressurreição de Cristo. Esse povo era o Seu corpo místico, e o próprio Moisés era um grande tipo de Cristo; e, além disso, naquele dia, Cristo foi diante dos filhos de Israel em uma coluna de nuvem e fogo, como seu Salvador e Redentor. Naquela manhã, Cristo, nesta coluna de nuvem e fogo, surgiu do mar Vermelho, como se de grandes águas; que era um tipo do surgimento de Cristo de um estado de morte, e daquela grande humilhação que sofreu na morte.
A ressurreição de Cristo dos mortos, nas Escrituras, é representada por ele saindo de muitas águas. Assim, é com respeito à ressurreição o que foi representado pela saída de Jonas do mar (Mt 12:40). Também é comparada à libertação de águas profundas (Sl 69:1-3, 14, 15). Estas coisas são faladas de Cristo, como é evidente pelas muitas passagens nos salmos que são, no Novo Testamento, aplicadas a Cristo. Portanto, como o Sabbath judaico foi apontado no dia em que a coluna de nuvem e fogo surgiu do mar Vermelho, que é um tipo da ressurreição de Cristo; é uma grande confirmação de que o Sabbath cristão deve ser guardado no dia da ressurreição do corpo real de Cristo do túmulo, que é o antítipo. Pois certamente as Escrituras nos ensinaram que o tipo deve dar lugar ao antítipo, e a sombra, à substância.
8. O mesmo eu argumento a partir de Salmo 118:22-24. Nessa passagem, aprendemos que o dia da ressurreição de Cristo deve ser celebrado com santa alegria pela Igreja. “A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular; isto procede do SENHOR e é maravilhoso aos nossos olhos. Este é o dia que o SENHOR fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nele.” A dita pedra é Cristo; ele foi rejeitado e recusado pelos construtores, especialmente quando foi condenado à morte. Esse [ato de] torná-lo a pedra angular, que procede do Senhor, e é tão maravilhoso aos nossos olhos, é a exaltação de Cristo, que começou com a sua ressurreição. Enquanto Ele jaz no tumulo, jaz como uma pedra rejeitada pelos construtores. Mas quando Deus o ressuscita dos mortos, então se torna a pedra angular. É evidente que essa é a interpretação do apóstolo [Pedro] em At 4:10, 11: “tomai conhecimento, vós todos e todo o povo de Israel, de que, em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, a quem vós crucificastes, e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos...Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular.” E o dia em que isto aconteceu, o salmo nos ensina, Deus tornou um dia de júbilo para a Igreja.
9. A abolição do Sabbath judaico é sugerida pelo seguinte: que Cristo, o Senhor do sábado, permaneceu sepultado neste dia. Cristo, o autor do mundo, era o autor da obra da criação da qual o sábado judaico era memorial. Foi ele que trabalhou seis dias e descansou no sétimo de todas as suas obras, e foi revigorado. Contudo, neste dia, estava preso nas cadeias da morte. Deus, que criou o mundo, agora em sua segunda obra de criação, não seguiu seu próprio exemplo, se assim posso falar, pois permaneceu aprisionado no sepulcro nesse dia, e tomou outro para descansar.
O Sabbath era um dia de alegria; pois era guardado em comemoração às graciosas e gloriosas obras divinas da criação e redenção do Egito. Portanto, somos orientados a chamar o Sabbath de deleitoso. Mas, para a Igreja, a noiva de Cristo, não é apropriado regozijar-se quando o noivo permanece no túmulo, como Cristo diz em Mt 9:15: “Respondeu-lhes Jesus: Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar.” Enquanto Cristo estava preso pelas cadeias da morte, o noivo estava ausente da Igreja; era, portanto tempo apropriado para ela chorar e não se alegrar. Mas quando Cristo ressurge, então é dia de alegria, porque somos gerados de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos.
10. É evidente que Cristo, de propósito, honrou peculiarmente o primeiro dia da semana, o dia em que ressuscitou dos mortos, ao aparecer nele, de tempos em tempos, aos apóstolos. E escolheu este dia para derramar o Espírito Santo sobre eles, como lemos no segundo capítulo de Atos. Pois isto ocorreu no Pentecostes, que se dava no primeiro dia da semana, como vemos em Lv 23:15, 16. E honrou este dia ao derramar seu Espírito sobre o apóstolo João, ao lhe conceder visões. Ap 1:10: “Achei-me em espírito, no dia do Senhor”, etc. ora, sem dúvidas, com isso Cristo queria distintamente honrar este dia.
11. É evidente pelo Novo Testamento que este era, pela direção dos apóstolos, o dia especial do culto público da igreja primitiva. Lemos que este era o dia costumeiro em que se reuniam para partir o pão, e isto, é evidente, com a aprovação dos apóstolos, uma vez que pregavam neste dia. Portanto, sem dúvidas se reuniam por orientação apostólica. At 20:7: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite.” Da mesma maneira, o Espírito Santo foi cuidadoso para que as contribuições fossem feitas neste dia, em todas as igrejas, ao invés de em outro qualquer, como vimos no nosso texto.
12. Este primeiro dia da semana é chamado no Novo Testamento de dia do Senhor (Ap 1:10). Alguns dizem: “Como sabemos que este era o primeiro dia da semana? Todo dia é dia do Senhor.” Mas era o intento de João informar quando ele teve essas visões. E se, por dia do Senhor, pretende um dia qualquer, como nos informaria quando ocorreram os eventos?
Mas o que se quer dizer por esta expressão nós sabemos, da mesma forma que sabemos o sentido de qualquer outra palavra na [língua] original do Novo Testamento, ou de qualquer outra língua antiga, isto é, encontrando o significado universal da expressão nos tempos antigos. Esta expressão, o dia do Senhor, é encontrada no uso antigo de toda a Igreja cristã, aparecendo em todos os escritos nos tempos antigos, e mesmo nos dias apostólicos, referindo-se ao primeiro dia da semana.
E a expressão implica em si a santidade do dia. Pois, sem dúvidas, ele é chamado de dia do Senhor, assim como a santa ceia é chamada de ceia do Senhor, sendo assim chamada porque é ceia santa, a ser celebrada em memória de Cristo, o Senhor, e de sua redenção. Portanto este é um dia santo, a ser guardado em memória do Senhor Jesus, e de sua redenção.
O primeiro dia da semana, sendo nas Escrituras chamado de dia do Senhor, o torna suficientemente apto a ser o dia da semana a ser guardado santo para Deus; pois Ele agradou-se em chamá-lo por seu próprio nome. Quando algo é chamado pelo nome de Deus nas Escrituras, isto implica que Deus apropriou-se dele para si. Assim, Deus colocou seu nome sobre a antiga nação de Israel. Nm 6:27: “Assim, porão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei.” Eram chamados pelo nome de Deus, como é dito em 2 Cr 7:14: “se o meu povo, que se chama pelo meu nome...” etc., isto é, eram chamados de povo de Deus, ou povo do Senhor. Isto implicava que era um povo santo, peculiar acima de todos os outros. Dt. 7:6: “Porque tu és povo santo ao SENHOR, teu Deus; o SENHOR, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra.” E da mesma forma no v. 14 e em muitas outras passagens.
Assim também a cidade de Jerusalém era chamada pelo nome de Deus, Jr 25:29: “Pois eis que na cidade que se chama pelo meu nome...” Dn 9:18, 19: “e para a cidade que é chamada pelo teu nome...” etc. Isto implicava que era cidade sagrada, escolhida por Deus acima de todas as outras para santos propósitos, como é frequentemente chamada de cidade santa, como em Ne 11:1: “Para que habitasse na santa cidade de Jerusalém...” e em muitas outras passagens.
Da mesma maneira, é dito que templo seja uma casa chamada pelo nome de Deus, 1 Re 8:43: “e para saberem que esta casa, que eu edifiquei, é chamada pelo teu nome.” E, frequentemente, [ocorre o mesmo] em outras passagens. Ou seja, era chamado de casa de Deus, ou casa do Senhor. Isto implica que era um lugar santo, casa devotada a santos propósitos, acima de todas as outras.
Assim encontramos que o primeiro dia da semana é chamado pelo nome de Deus, sendo chamado na Escritura de dia de Deus, ou dia do Senhor, o que implica que seja um dia santo, apropriado para propósitos santos, acima de todos os outros da semana.
13. A tradição da Igreja em todas as épocas, embora não seja a regra, pode, contudo, servir de grande confirmação à verdade em casos semelhantes a este. Encontramos, em todos os relatos, que têm sido o costume universal da Igreja cristã, em todas as épocas, até mesmo na dos apóstolos, guardar o primeiro dia da semana. Lemos nos escritos que restam do primeiro, segundo e terceiro séculos, de cristãos que guardavam o dia do Senhor, e da mesma forma nas épocas subsequentes, e não há relato que os contradiga. Este dia tem sido guardado pelos cristãos, em todos os países do mundo, e por quase todos que se denominam cristãos, de todas as denominações, conquanto tenham opiniões conflitantes sobre outras matérias.
Ora, embora isto não seja suficiente em si sem um fundamento escriturístico, contudo, pode servir como confirmação, pois aqui se encontra matéria que nos convence de que somos razoáveis [em guardar este dia]. A razão pode confirmar grandemente verdades reveladas nas Escrituras. A universalidade do costume em todos os países cristãos, em todos os tempos, em todos os relatos que temos, é um bom argumento de que a Igreja o recebeu dos apóstolos; e é difícil conceber como todos viriam a concordar no estabelecimento de tal costume por todo mundo, nas diferentes seitas e opiniões, e nem temos nenhum relato [de que isto tenha acontecido].
14. De maneira alguma enfraquece este argumento o fato de que não há nada dito mais claramente sobre isto no Novo Testamento, até que João escrevesse o Apocalipse, pois há razão suficiente para que isto tenha ocorrido. Com toda probabilidade, [esta questão] foi intencionalmente evitada pelo Espírito Santo, nos primórdios do estabelecimento das igrejas cristãs no mundo, tanto entre os pagãos quanto entre os judeus, mas em especial por causa dos judeus, e por consideração aos que dentre eles eram cristãos. Pois é evidente que Cristo e os apóstolos lhes declararam gradualmente as coisas, na medida em que podiam suportá-las.
Os judeus respeitavam seu sábado acima de qualquer coisa na lei de Moisés; e havia aquilo que no Antigo Testamento os incitava a mantê-los na sua observância, mais fortemente que qualquer coisa que fosse judaica. Deus o havia enfatizado tanto, e tão solene, frequente e cuidadosamente o ordenado, e com frequência punido tão severamente os que o quebravam, que lhes era mais destacado reter este costume que outro qualquer.
Portanto, Deus lhes teve muita afeição neste ponto. Outras coisas desta natureza encontramos reveladas gradualmente. Cristo tinha muitas coisas para dizer, como somos informados, as quais, contudo, não disse, porque ainda não podiam suportá-las, dizendo-lhes que era como colocar vinho novo em odres velhos. Eram tão contrárias aos seus velhos costumes que Cristo foi gradual em revelar-lhes. Deu-lhes um pouco aqui e outro ali, na medida em que podiam suportar; e demorou muito antes que lhes dissesse claramente as principais doutrinas do reino dos céus. Ele usou das oportunidades mais favoráveis para lhes contar dos seus sofrimentos e morte, especialmente quando estavam cheios de admiração por algum sinal miraculoso, que confirmavam ser ele o Messias.
Falou-lhes muitas coisas mais claramente após sua ressurreição. Mas, até mesmo nesse momento, não lhes disse tudo, mas deixou mais para ser revelado pelo Santo Espírito no Pentecostes. Portanto, foram muito mais iluminados depois disto do que anteriormente. Contudo, ainda aí não revelou tudo. A abolição da lei cerimonial acerca de comida e bebida não foi plenamente conhecida senão em eventos posteriores.
Da mesma forma, os apóstolos foram cuidadosos e afetuosos para com aqueles a quem pregavam e escreviam. Foi aos poucos que se aventuraram em ensinar-lhes sobre a cessação das leis cerimoniais da circuncisão e da abstinência de carnes impuras. Como é terno o apóstolo Paulo com os escrupulosos, no capítulo catorze de Romanos! Ele orienta os que têm conhecimento a guardarem a si mesmos, por causa dos seus irmãos mais fracos (Rm 14:22). Mas nada mais é preciso dizer como prova disto.
Contudo, digo isto: é bem possível que, no primeiro momento, aos próprios apóstolos não tenha sido revelado plenamente acerca desta mudança do dia do Sabbath. O Espírito Santo, na sua descida, lhes revelou muita coisa, contudo, após isso, ainda eram ignorantes de muito da doutrina do evangelho. Sim, assim permaneceram por muito tempo depois que definiram a tarefa apostólica de batizar, pregar e governar a Igreja. Pedro ficou surpreso quando foi ordenado a comer carnes legalmente impuras; e da mesma forma os apóstolos em geral, quando Pedro foi ordenado a ir pregar aos gentios.
Assim, Cristo foi suave com a Igreja enquanto esta estava na infância. Não a alimentou com carne tenra, mas foi cuidadoso em trazê-la à observância do dia do Senhor paulatinamente, e, portanto, usou de todas as ocasiões para honrá-lo, aparecendo de tempos em tempos nesse dia; enviando seu Espírito naquele dia de forma notável, no Pentecostes; ordenando aos cristãos que se encontrassem a fim de partir o pão nesse dia, e que separassem suas contribuições e outros deveres do culto para esse dia. Assim introduziu a observância dele gradualmente. E, embora o Espírito Santo não tenha falado claramente acerca dele, contudo Deus teve especial atenção que fossem achadas evidências suficientes de sua vontade, pela Igreja cristã, quando estivesse mais estabelecida e alicerçada, e chegasse na idade e força da maturidade.
Assim, deixo para que cada um julgue se não há suficiente evidência de que seja o intento e vontade de Deus que o primeiro dia da semana seja guardado pela Igreja cristã como um Sabbath.


A MUDANÇA E PERPETUIDADE DO SABBATH - A PERPETUIDADE DO 4º MANDAMENTO

Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for.” (1 Coríntios 16:1, 2)

Encontra-se mencionada com frequência no Novo Testamento uma coleta, feita pelas igrejas gregas para os irmãos da Judeia, que estavam reduzidos a uma aguda necessidade devido a uma fome que então prevalecia, e que era ainda mais crítica para eles devido a suas circunstâncias, tendo sido, desde o início, oprimidos e perseguidos pelos judeus incrédulos. Esta coleta, ou contribuição, é mencionada duas vezes no livro de Atos (11:28-30 e 24:17). Também é notada em diversas epístolas, como em Rm 15:26 e em Gl 2:10. Mas é mais amplamente insistida nestas duas epístolas aos coríntios. Na primeira, no capítulo 16, e na segunda, capítulos 8 e 9. O apóstolo inicia suas instruções, que aqui ele entrega com relação a este assunto, com as palavras do nosso texto, no qual observamos:
1. Qual é o dever que o apóstolo os instrui a fazer: o exercício e a manifestação de caridade para com seus irmãos, repartindo com eles para o suprimento de suas necessidades. Isto foi com frequência insistido por Cristo e pelos apóstolos como um dever primordial da religião cristã, e é assim expressamente declarado o ser pelo apóstolo Tiago, no cap. 1:27: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações.
2. Observamos o tempo em que o apóstolo os orienta para que isto seja feito, isto é, “no primeiro dia da semana.” Pela inspiração do Espírito Santo, ele insiste nisso, que seja feito nesse dia específico da semana, como se nenhum outro fosse tão bom, ou tão apropriado e adequado para tal Obra. Assim, embora o apóstolo inspirado não devesse fazer aquela distinção de dias, nos tempos do evangelho, que os judeus faziam, como aparece em Gl 4:10: “Guardais dias, e meses, e tempos, e anos.” etc., contudo, aqui, dá preferência a um dia da semana antes de qualquer outro, para a realização de certo dever grandioso do cristianismo.
3. Pode ser observado que o apóstolo ordenou às outras igrejas que estavam concentradas no mesmo dever que o fizessem no primeiro dia da semana, 1 Co 16:1: “fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia.” Logo, podemos aprender que não havia nada peculiar às circunstâncias dos cristãos em Corinto, que fosse a razão pela qual o Espírito Santo insistiu que a coleta fosse realizada neste dia da semana. Paulo havia dado ordens semelhantes às igrejas da Galácia. Ora, a Galácia era muito distante de Corinto. O mar as separava, e havia muitos países entre elas. Portanto, não se pode pensar que o Espírito Santo os orientasse neste sentido por motivos seculares, observando circunstâncias particulares do povo dessa cidade, mas sim por motivos religiosos. Ao dar a preferência a este dia da semana para tal obra, antes de qualquer outro, Ele tem em vista algo que alcança a todos os cristãos, em todos os lugares.
E por outras passagens do Novo Testamento aprendemos que a situação era a mesma para outros exercícios da religião, e que o primeiro dia da semana tinha preferência a qualquer outro dia, nas igrejas imediatamente sob o cuidado dos apóstolos, para o atendimento dos exercícios da religião em geral. At 20:7: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite.” Por estas coisas, parecia acontecer com os cristãos primitivos, nos dias apostólicos, com relação ao primeiro dia da semana, o mesmo que com os judeus com respeito ao sétimo.
É-nos ensinado por Cristo que o dar esmolas e mostrar misericórdia são obras apropriadas para o Sabbath. Quando os fariseus culparam a Cristo por permitir que seus discípulos colhessem espigas e as comessem no Sabbath, Cristo os corrige com o ditado: “Misericórdia quero e não holocaustos,” e ensina que as obras de misericórdia são adequadas para o Sabbath (Lc 13:15, 16 e 14:5). Estas obras costumavam ser feitas nos festivais sagrados e nos dias de júbilo, no Antigo Testamento, como na época de Neemias e Ester (Ne 8:10 e Et 9:19, 22). Josefo e Filo, dois judeus muito distintos, escrevendo não muito tempo depois de Cristo, relatam que era o costume entre os judeus, no Sabbath, fazer coletas para usos sagrados e piedosos.

Doutrina


É a intenção e vontade de Deus que o primeiro dia da semana deva ser especialmente separado entre os cristãos para os exercícios e deveres religiosos.
Que esta seja a doutrina que o Espírito Santo queria nos ensinar, por esta e algumas outras passagens do Novo Testamento, espero que pareça claro pela sequência. Esta é a doutrina em que fomos geralmente educados pelas instruções e exemplos de nossos pais; e esta tem sido a profissão geral do mundo cristão: que este dia deva ser religiosamente observado e distinguido dos demais dias da semana.
Contudo, alguns o negam. Alguns se recusam a observar o dia, como [se fosse] diferente dos demais. Outros concordam que seja um costume louvável da igreja cristã, ao qual ela se apegou por consenso, e pelo apontamento de seus líderes comuns, para que este dia fosse separado para o culto público. Mas negam que haja qualquer outra origem para o dia, senão o prudente apontamento humano. Outros observam religiosamente o Sabbath judaico, como de perpétua obrigação, e exigem um fundamento para determinar que este tenha sido ab-rogado, e outro dia da semana indicado no lugar do sétimo.
Todas estas classes de homens dizem que não há clara revelação de que seja a intenção e vontade de Deus que o primeiro dia da semana deva ser observado como um dia a ser separado para exercícios religiosos no lugar do sétimo. Isso deveria acontecer [segundo eles], para que a igreja cristã o observasse como uma instituição divina. Dizem que não podemos nos ater às tradições dos tempos antigos, ou às incertezas e inferências especulativas de algumas passagens históricas do Novo Testamento, ou a algumas dicas obscuras e incertas nos escritos apostólicos. Mas, deveríamos esperar alguma instituição clara, a qual, dizem, podemos concluir que Deus nos daria, se fosse seu desígnio que toda a Igreja cristã, em todas as eras, devesse observar outro dia da semana como um santo Sabbath, em lugar do antigo, que foi apontado por clara e positiva instituição.
Assim, pois, é indubitavelmente verdadeiro que se esta for a intenção e vontade de Deus, Ele não deixou a matéria para a tradição humana, mas revelou sua intenção sobre ela na Sua palavra, de forma a poder ser encontrada boa e substancial evidência que esta seja Sua intenção. E, sem dúvidas, a revelação é clara o suficiente para quem tem ouvidos para ouvir, isto é, para os que com justiça exercitarem seus entendimentos acerca do que Deus lhes fala. Nenhum cristão, portanto, deveria descansar enquanto não houver satisfatoriamente descoberto a vontade de Deus nesta matéria. Se o Sabbath cristão for uma instituição divina, é, sem dúvidas, de grande importância para a religião que ele seja guardado. Portanto, que cada cristão esteja bem familiarizado com a instituição.
Se os homens apenas têm confiança e guardam o primeiro dia da semana porque seus pais os ensinaram, ou porque veem os outros fazendo, jamais serão propensos a guardá-lo tão consciente ou estritamente como o fariam, se fossem convencidos, ao verem por si mesmos, que há boa base na palavra de Deus para a sua prática. A menos que de fato vejam por si, quando forem negligentes em santificar o Sabbath, ou culpados de profaná-lo, suas consciências não terão a vantagem de afetá-los por isso, como fariam se fosse o contrário. E os que têm um desejo sincero de obedecer a Deus em todas as coisas guardarão o Sabbath mais cuidadosa e alegremente, se houverem visto e sido convencidos que nisso agem de acordo com a vontade e ordenança de Deus, e com o que é aceitável a Ele. E terão também muito mais conforto ao refletir sobre haverem cuidadosa e dolorosamente guardado o Sabbath.
Portanto, é meu desígnio, com o auxílio de Deus, mostrar que está suficientemente revelado nas Escrituras ser a intenção e vontade de Deus que o primeiro dia da semana deva ser separado na Igreja cristã dos outros dias, como um Sabbath, para ser devotado a exercícios religiosos.
A fim de fazer isto, parto da premissa de que a intenção e vontade de Deus, com relação a qualquer dever a ser realizado por nós, podem ser suficientemente reveladas na sua palavra sem um preceito específico, com muitos termos expressos, ordenando-as. O entendimento humano é o ouvido ao qual a Palavra de Deus é falada; e, se ela for falada de tal maneira que esse ouvido possa claramente escutá-la, é o suficiente. Deus é soberano na maneira em que declara a Sua vontade, quer a fale em termos expressos, quer a fale ao dizer diversas outras coisas que a impliquem, e pelas quais, quando comparamos [essas coisas], claramente percebamos [sua vontade]. Se a vontade de Deus não é senão a revelada, e se não for meramente o meio suficiente para a comunicação de sua vontade a nós, isto é o suficiente, quer ouçamos diversas palavras expressas com nossos ouvidos, ou as vejamos com nossos olhos, quer vejamos a coisa que Ele quer nos dizer pelo olho da razão e do entendimento.
Quem pode positivamente dizer que, se houvesse sido a vontade de Deus que guardássemos o primeiro dia da semana, Ele o teria ordenado em termos expressos, como o fez com a observância do antigo sétimo dia?  Na verdade, se Deus assim houvesse criado nossas faculdades, que não fôssemos capazes de receber uma revelação de Sua vontade de outra maneira, então haveria alguma razão em afirmar isso. Mas Deus nos deu tal entendimento, que somos capazes de receber uma revelação quando é feita de maneira diversa. E, se Deus lida conosco de acordo com nossas naturezas, e de maneira adequada a nossas capacidades, é o suficiente. Se Deus desvenda sua vontade de outra maneira qualquer, desde que seja de acordo com nossas faculdades, somos obrigados a obedecê-la; e Ele deve esperar nosso reconhecimento e observância de Sua revelação, da mesma maneira como se a houvesse revelado em termos expressos.
Falarei sobre este assunto usando as seguintes proposições gerais:
1. É suficientemente claro que é a vontade Deus que um dia da semana deva ser devotado ao descanso, e aos exercícios religiosos, por todas as eras e nações.
2. É suficientemente claro que, sob a dispensação do evangelho, este dia é o primeiro dia da semana.
1ª Proposição: é suficientemente claro que é a vontade Deus que um dia da semana deva ser devotado ao descanso e aos exercícios religiosos, por todas as eras e nações, e não apenas entre os antigos israelitas, até que Cristo viesse, mas até mesmo nos tempos evangélicos, e entre todas as nações que professam o cristianismo.
1. A partir da consideração da natureza e estado da humanidade neste mundo, é muito harmonioso à razão humana que certas partes fixas do tempo sejam separadas para serem gastas integralmente pela igreja em exercícios religiosos, e nos deveres do culto divino. É um dever imprescindível de toda humanidade, em todas as épocas, sem exceção, adorar e servir a Deus. Seu serviço deve ser nossa maior ocupação. Devemos adorá-lo com a maior devoção e envolvimento de mente; e, portanto, devemos nos colocar, em tempos apropriados, nas circunstâncias que mais contribuem para tornar nossas mentes inteiramente devotadas a este serviço, sem que sejam desviadas ou interrompidas por outras coisas.
O estado da humanidade neste mundo é tal que somos chamados a nos ocupar em negócios e assuntos seculares que, necessariamente, e em um grau considerável, tomarão nossos pensamentos e exigirão a atenção da mente. Contudo, algumas pessoas em particular, podem estar em circunstâncias mais livres e desobrigadas. Porém, o estado da humanidade é tal que a vasta maioria dela, em todas as eras e nações, é chamada ordinariamente a exercitar seus pensamentos acerca de assuntos seculares, e seguir os negócios mundanos que, por sua própria natureza, são remotos dos deveres solenes da religião.
É, portanto, muito conveniente e adequado que certas partes do tempo sejam separadas, nas quais seja exigido que os homens deixem de lado todas as preocupações, para que suas mentes possam estar mais livres e inteiramente engajadas nos exercícios espirituais, nos deveres da religião e no culto imediato a Deus. E suas mentes, estando desobrigadas das preocupações comuns, não misturem estas com sua religião.
Também é conveniente que estes tempos sejam fixos e estabelecidos, para que a Igreja concorde neles, e que sejam os mesmos para todos, para que não venham interromper uns aos outros, mas possam mutuamente assistir-se por exemplo comum. Pois o exemplo tem grande influência em tais casos. Se houver tempo separado para o júbilo público, e houver uma manifestação geral de alegria, o exemplo geral parece inspirar os homens com um espírito de alegria – um incendeia o outro. Da mesma forma, se é tempo de lamentação, e houver mostras e manifestações gerais de luto, isto naturalmente afeta a mente e a dispõe à depressão, lança um abismo sobre ela e a torna, por assim dizer, apática, mortificando os espíritos. Portanto, se certo tempo for separado como santo, para a devoção geral, e para os solenes exercícios religiosos, um exemplo geral tende a tornar o espírito sério e solene.
2. Sem dúvidas, uma proporção de tempo é melhor e mais apta que outra para este propósito. Uma proporção é mais adequada para o estado da humanidade, e terá maior tendência a responder ao propósito de tais tempos, que outra. Os tempos podem ser muito separados entre si. Acho que a razão humana é suficiente para determinar que seria muito escasso para os propósitos de tempos tão solenes que fossem apenas uma vez no ano. Da mesma forma, concluo, ninguém negará que estes tempos não podem ser muito próximos entre si, para não serem inconvenientes com o estado e assuntos necessários da humanidade.
 Portanto, não pode haver dificuldade em concordar que uma determinada proporção de tempo, quer a possamos determinar ou não, seja realmente mais adequada e melhor (considerando o fim para o qual se mantém tais tempos, a condição, circunstâncias e assuntos necessários dos homens, e considerando qual é o estado da humanidade, ao comparar uma era e nação com a outra) e mais conveniente que outra qualquer. Isto Deus pode saber e determinar com exatidão, embora nós, devido à escassez de entendimento, não possamos.
Assim como uma certa frequência de retorno destes tempos possa ser mais adequada que outra, da mesma maneira a extensão ou continuidade deles pode ser mais conveniente que outra, a fim de responder ao propósito de tais tempos. Se eles, quando viessem, não durassem senão uma hora, não responderiam bem ao seu fim; pois, assim, as coisas mundanas se empilhariam muito próximas aos exercícios sagrados, e não haveria oportunidade de manter a mente tão completamente livre e desobrigada de outras coisas, como seria o caso se o tempo fosse mais longo. Estando tão próximas, as coisas sagradas e profanas seriam, por assim dizer, misturadas. Portanto, uma certa distância entre estes tempos, e uma certa continuidade deles quando vierem, são mais apropriadas que outras. Isto Deus sabe e é capaz de determinar, embora nós, talvez, não possamos.
3. Não é razoável supor nada mais, a não ser que os dias em que Deus trabalhou, descansando no sétimo e o consagrando e santificando, deviam servir de modelo para determinar esta matéria, e que foi escrito para que a prática da humanidade em geral pudesse ser, de uma maneira ou outra, regulada por ele. Qual poderia ser o sentido de Deus descansar ao sétimo dia, e consagrá-lo e santificá-lo, fazendo-o antes da entrega do quarto mandamento, senão que o abençoava e santificava com respeito à humanidade?  Pois não o abençoou e santificou com respeito a Si mesmo, como se Ele mesmo devesse observá-lo: isso seria completo absurdo. E não é razoável supor que o santificou apenas com respeito aos judeus, uma nação específica que surgiu mais de dois milênios depois.
Portanto, deve ser entendido por isso, que era Sua vontade que a humanidade devesse, seguindo Seu exemplo, trabalhar seis dias, e, então, descansar, e consagrar ou santificar o dia seguinte. E que devia santificar todo dia sétimo, ou que o espaço entre descanso e descanso, um tempo consagrado e outro, entre suas criaturas sobre a terra, devia ser de seis dias. Portanto, conclui-se daí, ser a vontade e propósito de Deus que, não apenas os judeus, mas os homens em todas as eras e nações, santificassem um dia em sete: que é o que estamos nos esforçando por provar.
4. O desígnio de Deus nessa matéria está claramente revelado no quarto mandamento. A vontade de Deus está lá revelada, não apenas para a nação israelita, mas para que todas as nações devessem guardar todo sétimo dia como santo; ou, o que é a mesma coisa, um dia depois de cada seis. Este mandamento, bem como todos os demais, é, sem dúvidas, eterno e de perpétua obrigação, ao menos em sua substância, como está implícito por ter sido gravado nas tábuas de pedra. Nem se deve pensar que Cristo aboliu quaisquer dos dez mandamentos; mas ainda há este número completo, até ao fim do mundo.
 Alguns dizem que o quarto mandamento é perpétuo, mas não no seu sentido literal; não como se designasse certa proporção particular de tempo para ser separada e devotada ao descanso literal e a exercícios religiosos. Dizem que ele prevalece apenas em seu sentido místico, isto é, que este descanso semanal dos judeus tipificava o descanso espiritual da igreja cristã; e que os que estão debaixo do evangelho não devem fazer distinção entre dias e dias, mas manter todos os dias santos, fazendo tudo de uma maneira espiritual.
Mas esta é uma maneira absurda de interpretar o mandamento, no que se refere aos cristãos. Pois se foi abolido a esse ponto, está inteiramente abolido, uma vez que é seu exato propósito fixar o tempo da adoração. O primeiro mandamento fixa o objeto, o segundo os meios, o terceiro a forma, o quarto o tempo. E, se prevalece agora apenas como se indicasse o descanso espiritual do cristão, e o santo proceder em todos os tempos, não mais permaneceria como um dos dez mandamentos, mas como um resumo deles.
A principal objeção contra a perpetuidade deste mandamento é que o dever requerido não é moral. Aquelas leis cujas obrigatoriedades surgem da natureza das coisas, e do estado e natureza gerais da humanidade, bem como da vontade revelada positiva de Deus, são chamadas de leis morais. Outras, cujas obrigações dependem meramente de instituição positiva e arbitrária de Deus, tais como as leis cerimoniais, e os preceitos do evangelho sobre os dois sacramentos, não são morais. Ora, os objetores dizem que aquiescerão a tudo que seja moral no decálogo como de obrigação perpétua; mas este mandamento, dizem, não é moral.
Mas esta objeção é fraca e insuficiente para o propósito a que pretende, isto é, provar que o quarto mandamento, na sua substância, não é de obrigação perpétua. Pois:
a) Se se deve conceder que não há moralidade anexada ao mandamento, e que o dever requerido é encontrado meramente em instituição arbitrária, não se pode, portanto, certamente concluir-se que o mandamento não é perpétuo. Sabemos que pode haver ordenanças em vigor sob o evangelho, e até o fim do mundo, que não são morais: tais como as instituições dos dois sacramentos. E por que não pode haver mandamentos positivos em vigor em todas as eras da igreja? Se instituições positivas e arbitrárias estão em vigor nos tempos evangélicos, por que se conclui que não pode haver preceito positivo dado antes dos tempos do evangelho ainda em vigor? Mas,
b) Como já observamos, a questão em geral de que deve haver certas porções fixas de tempo separadas para serem devotadas aos exercícios religiosos, é encontrada na conveniência, surgindo da natureza das coisas, e da natureza e estado universais da humanidade. Portanto, há tanta razão para que possa haver um mandamento de obrigação perpétua e universal sobre isso, como sobre quase todos os outros deveres. Pois se a questão em geral, que deve haver um tempo fixo, for fundamentada na natureza das coisas, há, consequentemente, uma necessidade dela, que o tempo seja limitado por mandamento, pois deve haver uma proporção de tempo fixada, porque, se não, o dever moral geral não poderá ser observado.
A determinação da proporção do tempo no quarto mandamento, também é fundamentada na natureza das coisas, apenas nosso entendimento não é suficiente para determiná-la em absoluto por si mesma. Já observamos que, sem dúvidas, uma proporção de tempo é, em si mesma, mais adequada que outra, e uma certa continuidade de tempo, é mais conveniente que outra, considerando o estado universal e a natureza da humanidade, que Deus sabe, embora nosso entendimento não seja perfeito o suficiente para determinar. Portanto, a diferença entre este e os outros mandamentos, não reside no fato de que os outros são achados na própria conveniência das coisas, surgindo do estado universal e da natureza da humanidade, e este não. Mas, apenas, que a conveniência dos outros mandamentos é mais óbvia ao entendimento dos homens, e eles podem vê-la por si mesmos; mas este não pode ser precisamente descoberto e positivamente determinado sem a assistência da revelação.
Portanto, o mandamento de Deus, de que o sétimo dia deva ser devotado aos exercícios religiosos, é encontrado no estado e natureza universais da humanidade, semelhantemente aos outros mandamentos; apenas a razão humana não é suficiente para determiná-lo com exatidão, sem a direção divina, embora talvez seja suficiente para determinar que não deva ser numa frequência muito maior ou menor que um dia em sete.
5. Deus aparece na sua palavra enfatizando mais abundantemente este preceito com relação ao Sabbath, que qualquer outro da lei cerimonial. Está no decálogo, um dos dez mandamentos, que foram entregues por Deus em voz audível. Foi escrito com Seu próprio dedo nas tábuas de pedra na montanha, e foi, posteriormente, ordenado a Moisés que fosse escrito nas tábuas. A guarda do Sabbath semanal é dita pelos profetas como aquilo em que consiste grande parte da santidade da vida, e está inserida entre os deveres morais, em Isaías 58:13-14: “Se desviares o pé de profanar o sábado e de cuidar dos teus próprios interesses no meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então, te deleitarás no SENHOR. Eu te farei cavalgar sobre os altos da terra e te sustentarei com a herança de Jacó, teu pai, porque a boca do SENHOR o disse.
6. Está predito que este mandamento devia ser guardado nos tempos do evangelho; assim como no princípio, quando a observância devida do Sabbath é encarada como grande parte da santidade da vida, e colocada entre os deveres morais. Também é mencionado como um dever que seria muito aceitável diante de Deus por parte do Seu povo, mesmo quando o profeta está falando dos tempos do evangelho, como na passagem anterior de Isaías, no seu primeiro versículo. E, no terceiro e quarto versos, o profeta está falando da abolição da lei cerimonial nos tempos do evangelho, e particularmente daquela lei que proibia os eunucos de virem à congregação do Senhor. Contudo, aqui, o homem que se guarda de profanar o sábado é declarado bendito, v. 2. E mesmo na própria sentença onde os eunucos são referidos como estando livres da lei cerimonial, são referidos como ainda estando debaixo da obrigação de guardar o Sabbath, e, de fato, o guardá-lo é algo em que Deus impõe grande ênfase: “Porque assim diz o SENHOR: Aos eunucos que guardam os meus sábados, escolhem aquilo que me agrada e abraçam a minha aliança,  5 darei na minha casa e dentro dos meus muros, um memorial e um nome melhor do que filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará.
Além disso, os estrangeiros, referidos nos vv. 6 e 7, são os gentios que deveriam ser chamados nos tempos do evangelho, como é evidente pela última cláusula no v. 7, e no 8 de Isaías 56: “porque a minha casa será chamada Casa de Oração para todos os povos. Assim diz o SENHOR Deus, que congrega os dispersos de Israel: Ainda congregarei outros aos que já se acham reunidos.” Contudo, é aqui representado como dever deles guardar o Sabbath: “Aos estrangeiros que se chegam ao SENHOR, para o servirem e para amarem o nome do SENHOR, sendo deste modo servos seus, sim, todos os que guardam o sábado, não o profanando, e abraçam a minha aliança.
7. Temos em Mt 24:20 um argumento adicional para a perpetuidade do Sabbath: “Orai para que a vossa fuga não se dê no inverno, nem no sábado;” Cristo está, aqui, falando do fuga dos apóstolos e dos outros cristãos de Jerusalém e da Judeia, na iminência de sua destruição final, como é manifesto pelo contexto, especialmente pelos verso 16: “então, os que estiverem na Judéia fujam para os montes;” Mas esta destruição final de Jerusalém foi posterior à dissolução da lei judaica, e após o estabelecimento da dispensação cristã. Porém, está claramente implícito nestas palavras de nosso Senhor que, mesmo então, os cristãos estavam obrigados a uma estrita observância do Sabbath.
Assim, mostrei que é a vontade de Deus, que todo sétimo dia seja devotado ao descanso e aos exercícios religiosos.


A TOLICE DE OLHAR PARA TRÁS AO FUGIR DE SODOMA - SERMÃO 2


Lembrai-vos da mulher de Ló.” (Lucas 27:32)
A doutrina que retirei dessas palavras foi: “Não devemos olhar para trás ao fugir de Sodoma.” Tendo confirmado essa doutrina com diversos argumentos, viemos à sua aplicação como forma de alerta aos pecadores em seu estado natural, e em especial àqueles que estão sendo despertados e convencidos do miserável estado em que se encontram, e desejam escapar da ira vindoura. Como forma de reforçar este alerta, permitam-me implorar a todos que estão neste estado para que considerem as coisas diversas que passo a mencionar:
1. A destruição que os ameaça é infinitamente mais temível que a destruição da Sodoma real da qual Ló escapou. A destruição de Sodoma e Gomorra por uma tempestade de fogo e enxofre não foi senão uma sombra da destruição dos ímpios no inferno, e não representa senão uma sombra ou imagem da realidade, equivalente a uma pintura do fogo em relação ao fogo real. A miséria do inferno é apresentada por uma variedade de sombras e imagens na Escritura, como escuridão das trevas, um verme que nunca morre, uma fornalha ardente, um lago de fogo e enxofre, o tormento do vale dos filhos de Hinom, uma tempestade de fogo e enxofre. A razão de se usar tantas alegorias é porque nenhuma delas é suficiente. O que todas fazem é apenas representar a verdade de modo parcial e muito imperfeito, portanto, Deus faz uso de muitas delas.
Vocês têm, portanto, muito mais necessidade de escapar apressadamente - e de não olhar para o que está atrás - do que tinha Ló e sua esposa quando fugiam de Sodoma. Isto porque estão a todo dia e momento em perigo de uma terrível tempestade, mil vezes pior sobre suas cabeças, do que aquela que veio sobre Sodoma quando o Senhor fez chover sobre ela fogo e enxofre de sua parte dos céus. Portanto, será tolice muito maior se olharem para trás do que foi para a mulher de Ló.
2. A destruição que os ameaça é não apenas maior que a da Sodoma real, mas é maior que a destruição eterna que abateu os habitantes de Sodoma. Pois não importa o quanto se achem bons, pois continuaram sem arrependimento sob o glorioso evangelho, pecaram e provocaram a Deus muito mais, e têm sobre si maior culpa que os habitantes de Sodoma, mesmo que aos seus olhos, e talvez aos outros, pareçam criaturas bastante inofensivas. (Mt 10:15): “Em verdade vos digo que menos rigor haverá para Sodoma e Gomorra, no Dia do Juízo, do que para aquela cidade.
3. Enquanto estavam a olhar para trás, multidões foram repentinamente tragadas e abatidas pela tempestade de ira. A ira de Deus não se demorou enquanto eles demoravam; não esperou um momento sequer para que se virassem e fugissem, mas os abateu e acabaram-lhe as esperanças. Quando a mulher de Ló olhou para trás, foi imediatamente destruída. Deus já havia exercido paciência para com ela antes. Quando hesitou na retirada, os anjos a pressionaram e com seu esposo e filhas para que se apressassem. E não apenas isso, mas quando eles também se atrasaram, os anjos a agarraram, e a retiraram da cidade, sendo-lhe o Senhor misericordioso. Mas agora, quando, apesar dessa misericórdia, e dos avisos que lhe haviam sido dados, ela olhou pra trás, Deus não mais teve paciência, mas de imediato a executou.
Agora, Deus de modo semelhante lhes tem sido misericordioso. Vocês, no passado, hesitaram; foram avisados pelo anjo do perigo que corriam, e foram apertados para que se apressassem e fugissem. Ainda assim, adiaram a fuga. E agora, enfim, Deus, por assim dizer, se encarregou de vocês, pelas convicções de seu Espírito, para retirá-los de Sodoma. Portanto, lembrem-se da mulher de Ló. Se agora, depois de tudo, olharem para trás, depois de Deus lhes mostrar tanta misericórdia, terão razão para temer que Ele repentinamente os destruirá. Multidões, enquanto olhavam para trás, e adiavam por mais um tempo, nunca tiveram outra oportunidade; foram repentinamente destruídas, e sem possibilidade de remédio.
4. Se vocês olharem para trás, e viverem muitos anos depois disso, há grande perigo de que jamais vão adiante. O único modo de buscar a salvação é esforçando-se por ela com toda a sua força, e ainda olhar e seguir em frente, sem jamais parar ou diminuir o passo. Quando a mulher de Ló parou em sua fuga e deteve-se a fim de olhar, o seu castigo foi que lá ficasse para sempre. Jamais foi a outro lugar, nem nunca saiu dali: mas lá permaneceu como uma estátua de sal, um duradouro pilar e monumento de ira, por sua tolice e impiedade.
Assim acontece com frequência aos hesitantes, embora continuem a viver por tempo considerável depois disso. Quando olham para trás, após terem sofrido tanto por sua salvação, perdem tudo e colocam-se em larga desvantagem, apagando o Espírito de Deus, e perdendo suas convicções, terrivelmente endurecem seus corações e entorpecem suas almas. Pavimentam o caminho para o desencorajamento, terrivelmente fortalecem e estabelecem o interesse do pecado em seus corações, dando a Satanás de muitas formas vantagens para arruiná-los, e provocam a Deus tantas vezes a ponto de Ele os entregar à dureza de coração.  Quando vêm a olhar para trás, suas almas já estão mortas e endurecidas como o corpo da mulher de Ló. E ainda que vivam por longo tempo, jamais avançam; isto lhes é pior do que se tivessem sido condenados imediatamente. Quando as pessoas em fuga de Sodoma olham para trás, sua ultima situação é muito pior que a primeira (Mt 12:43-45). E a experiência confirma que comumente ninguem é mais endurecido e difícil de ser conduzido ao arrependimento que os apóstatas.
5. Pode muito bem animar suas almas a fugir por suas vidas, e a não olhar para trás, quando considerarem quantos ultimamente têm fugido para as montanhas, enquanto vocês permanecem em Sodoma. A quantas multidões Deus deu a sabedoria para fugir para Cristo, a montanha da segurança! Eles fugiram para a pequena cidade de Zoar, que Deus poupará e nunca destruirá. Quantos de vocês viram pessoas de todos os tipos saindo de Sodoma até agora, crendo na palavra de Deus falada pelos anjos de que Ele certamente destruirá esse lugar! Estes estão em uma condição segura, fora do alcance da tempestade, em um lugar onde o fogo e o enxofre não lhes podem atingir.
Mas vocês permanecem nesta cidade maldita, em meio a esta sociedade amaldiçoada. Ainda estão em Sodoma, que Deus está prestes a destruir terrivelmente, onde a cada minuto estão em perigo de ter sobre suas cabeças armadilhas, fogo e enxofre. Embora muitos tenham obtido a libertação, este não é o caso de vocês. O bem veio, mas vocês não o viram. Outros estão felizes, mas ninguém sabe o que será de vocês. Não têm parte nem porção nessa gloriosa salvação das almas, que esteve nos últimos dias entre nós. Essa consideração bem poderia animar suas almas a efetivamente escaparem, e na sua pressa, esforçarem-se e resolverem esforçar-se para sempre, haja o que houver no caminho. A não dar ouvidos a tentação alguma, e nunca olhar para trás, ou de forma alguma afrouxar ou abater seus esforços enquanto viverem, mas, se possível, aumentá-los mais e mais.
6. Voltar atrás em tempos como estes[1] terá grande tendência de selar a condenação do homem que em outros tempos. Quanto mais meios têm os homens, quanto mais altos os chamados e maiores as vantagens em que se encontram, mais perigosa é a relutância, maior a tendência de aumentar-se a culpa, provocar a Deus e endurecer o coraçao.
Nós, nesta terra de luz, há muito que desfrutamos de maiores vantagens que o resto do mundo. Mas as vantagens que as pessoas desfrutam agora para a sua salvação são talvez dez vezes maiores que aquelas que comumente tivemos. Portanto, hesitar será um pecado proporcionalmente maior e mais perigoso para a alma. Voces têm visto a glória de Deus e suas maravilhas entre nós, de forma muito impressioante. Se depois disso ainda olharem para trás, haverá grande perigo que Deus jure na sua ira que jamais entrarão no seu descanso, como fez para com aqueles que queriam retornar ao Egito, após terem visto as suas maravilhas realizadas em prol de Israel (Nm 14:22, 23): “nenhum dos homens que, tendo visto a minha glória e os prodígios que fiz no Egito e no deserto, todavia, me puseram à prova já dez vezes e não obedeceram à minha voz,  23 nenhum deles verá a terra que, com juramento, prometi a seus pais, sim, nenhum daqueles que me desprezaram a verá.” As maravilhas que vimos entre nós nestes dias têm sido de natureza bem mais gloriosa que aquelas vistas pelos filhos de Israel no Egito e no deserto.
7. Nada sabemos senão que a maior parte do mundo ímpio hoje se encontra nas mesmas circunstâncias que Sodoma, quando Ló fugia de lá. Eles têm uma destruição visível e temporal pairando sobre si. Parece que alguma coisa grande está vindo, o estado das coisas no mundo parece favorável a alguma grande revolução. O mundo se encontra em tal grau de impiedade que é provável que o seu clamor tenha chegado aos céus, e é bastante improvável que Deus permita que tais coisas continuem do jeito que estão por muito tempo. É provavel que Deus se apresse em aparecer em terrível majestade para vindicar a sua causa e, então, ninguém estará a salvo se estiver fora de Cristo. Agora, portanto, todos devem fugir por suas vidas, e escapar para as montanhas, para que não sejam consumidos. Não podemos dizer com certeza o que Deus há de fazer, mas isto podemos: que todos os que estão fora de Cristo estão em um estado bastante inseguro.
8. Para reforçar este aviso contra a hesitação, permitam-me suplicar-lhes a que considerem a excessiva prontidão que há no coração para isso. O coração humano é recalcitrante. Há nele um grande amor e forte desejo pela comodidade, prazeres e diversões de Sodoma, como havia na mulher de Ló. Esta é razao por que tantos estão inclinados à tentaçao de olhar para trás. O coração está tão inclinado para Sodoma que é difícil manter os olhos fora dela e os pés longe dos seus caminhos. Quando os homens sob convicção de pecado são postos em fuga, é à força, é porque Deus segura suas mãos, como fez com Ló e sua mulher, arrastando-os de lá. Mas a tendência do coraçao é voltar para Sodoma.
As pessoas estão prontas a retornar também devido ao desencorajamento. O coração é inconstante, logo fica cansado, e pronto a ouvir tentações desencorajadoras. Uma pequena dificuldade e atraso logo vence suas fracas resoluções. E o desencorajamento leva à recalcitrância: enfraquece as mãos, coloca um peso morto nos corações, e os faz suportá-los como um fardo; e se isso continua por muito tempo, logo leva à segurança carnal e à insensibilidade. As convicções com frequência se abalam assim: primeiro começam a entreter o desencorajamento. A recalcitrância é uma doença que é extremamente secreta em suas formas de operação. É um temperamento agradável e age como a tuberculose, em que as pessoas com frequência se gabam que não estão piores, e que melhoraram, e no caminho da recuperação, até que em poucos dias vêm a morrer. Portanto, a recalcitrância vem aos poucos, e torna os homens insensíveis a ponto de se gabarem que não estão apostatando. Eles reivindicam estar buscando ainda, e esperam não ter perdido suas convicções. E ao tempo em que descobrem a verdade e não mais podem fingir, comumente já estão tão longe que não mais se importam se perderam suas convicções. E quando chegam a esse ponto, comumente já é o fim de suas convicções. Assim, eles cegam a si mesmos, e mantêm-se insensíveis de suas próprias doenças e nao se angustiam por elas, nem acordam para usar os meios de aliviá-las, até que já não haja possibilidade de cura.
Assim é que a apostasia vem com frequência àqueles que por algum tempo estiveram sob consideráveis convicções, e depois as perderam. Que a consideração deste perigo os mova a terem maior cuidado e diligência para guardarem os corações, e vigiarem em constante oração contra a apostasia. E que isto os leve ao esforço para reforçar suas resoluções de se guardarem contra qualquer coisa que tenda ao contrário, para que possam perseverar até ao fim, para que “conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR.



[1] O tempo do reavivamento da religião em Northampton em 1735.

A TOLICE DE OLHAR PARA TRÁS AO FUGIR DE SODOMA - SERMÃO 1



“Lembrai-vos da mulher de Ló.” (Lucas 17:32)

Cristo aqui prediz sua vinda, no seu Reino, em resposta à pergunta dos fariseus: “Quando virá o reino de Deus?” E, quanto ao que diz a este respeito, evidentemente, tem em vista duas coisas: sua vinda na destruição de Jerusalém, e sua vinda no fim do mundo. Ele compara seu retorno, nestes tempos, a duas notáveis manifestações de Deus em juízo, no passado. Primeiramente, no dilúvio: “Assim como foi nos dias de Noé, será também nos dias do Filho do Homem.” A seguir, a compara à destruição de Sodoma e Gomorra: “O mesmo aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; assim será no dia em que o Filho do Homem se manifestar.”
Então, imediatamente, ele procede para orientar seu povo sobre como este deveria se portar às vistas dos sinais da aproximação daquele Dia, referindo-se, em especial, à destruição de Jerusalém. Lc 17. 31: “Naquele dia, quem estiver no eirado e tiver os seus bens em casa não desça para tirá-los; e de igual modo quem estiver no campo não volte para trás.” Com essas palavras, Cristo mostra que seus discípulos deviam ter a máxima urgência em fugir e escapar da cidade para as montanhas, como ordena em Mt 24. 15-18: “Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo (quem lê entenda), então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes; quem estiver sobre o eirado não desça a tirar de casa alguma coisa; e quem estiver no campo não volte atrás para buscar a sua capa.”
Jerusalém era como Sodoma, uma vez que estava destinada à destruição, pela ira divina especial; e, na verdade, à ira mais terrível do que a que atingiu Sodoma. Portanto, a mesma orientação é dada para dela fugir à máxima pressa, sem olhar para trás, como disse o anjo a Ló, quando lhe ordenou que fugisse de Sodoma. Gn 19.17: “Livra-te, salva a tua vida; não olhes para trás.” E, no texto, Cristo reforça seu conselho pelo exemplo da mulher de Ló. Ele ordena que os discípulos se lembrem dela, e a tomem como um aviso, por ter olhado para trás, enquanto fugia de Sodoma, tendo se tornado uma estátua de sal.
Se for investigado o porquê do conselho de Cristo ao seu povo, para que fuja de Jerusalém com tão urgente pressa, ao primeiro sinal de sua iminente destruição, respondo: parece que fugir de Jerusalém era um tipo da fuga do estado de pecado. Escapar desta cidade incrédula tipificava uma fuga do estado de incredulidade. Portanto, os discípulos foram orientados a fugir sem retornar para pegar quaisquer coisas de suas casas, querendo dizer com qual pressa e cuidado devemos fugir de nossa condição natural, que nenhum respeito a qualquer gozo mundano nos impeça, um momento sequer, que fujamos para Jesus Cristo, o refúgio das almas, nossa rocha forte, e o monte da nossa defesa, de modo que, ao fugir para ele, abandonamos e esquecemos, de coração, todas as coisas terrenas.
Esta também parece ser a principal razão pela qual Ló também foi orientado a fugir com tal pressa, e não olhar para trás; porque sua fuga de Sodoma foi decretada com o propósito de ser um tipo da nossa fuga daquele estado de pecado e miséria no qual nos encontramos por natureza.
Doutrina

Não devemos olhar para trás ao fugir de Sodoma.
As seguintes razões podem ser suficientes para apoiar esta doutrina:
1. Sodoma é uma cidade cheia de imundície e abominações. Está repleta daquelas impurezas que devem ser objeto da maior execração e ódio de todos. Seus habitantes estão manchados, estão sob o poder e domínio de luxúrias detestáveis. Todas as suas faculdades e afeições estão contaminadas com as disposições vis que são indignas da natureza humana, que a degradam sobremaneira, que são grandemente odiosas a Deus e incendeiam a sua ira de maneira terrível. Todo tipo de abominação espiritual abunda nela. Não há nada detestável e abominável que lá não possa ser encontrado, e que lá não abunde.
Sodoma é uma cidade cheia de demônios e de espíritos imundos. Lá eles se encontram e têm seu domínio. Lá se divertem, e revolvem-se na imundície, como é dito da Babilônia mística, em Ap 18.2: “Babilônia se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável.” – Quem seria, pois, de tal sociedade? Quem não fugiria de tal cidade com a maior pressa, sem jamais olhar para trás, e sem ter a menor inclinação de retornar?
Alguns em Sodoma podem aparentar ter um rosto limpo, e exibem um exterior justo; mas, se pudéssemos contemplar seus corações, todos são completamente nojentos e abomináveis. Devemos fugir de tal cidade, com o máximo horror do lugar e da sociedade, sem ter expectativas de lá voltar a habitar, e sem nunca encontrar a menor inclinação para retornar. Devemos, porém, desejar chegar a maior distância possível dela, para que, de forma alguma, nos tornemos participantes em suas abominações.
2. Não devemos olhar para trás ao fugir de Sodoma, porque Sodoma é uma cidade destinada à destruição. O clamor da cidade subiu aos céus. A terra já não pode mais suportar o fardo dos seus habitantes. Ela, portanto, aliviar-se-á deles, e os cuspirá. Deus não mais permitirá que tal cidade permaneça; Ele a consumirá. Deus é santo, e Sua natureza é infinitamente oposta a toda impureza; portanto, será para ela fogo consumidor. A santidade de Deus não permitirá que permaneça, e a Sua majestade e justiça requerem que os habitantes dessa cidade, que assim O provocaram e ofenderam, sejam destruídos. E Deus certamente os destruirá pois este é Seu decreto imutável e irreversível. Ele o disse, e o fará. O decreto foi lançado, e tão certo quanto há um Deus, e é Todo-poderoso, e capaz de cumprir seus decretos e ameaças, assim, certamente, destruirá Sodoma. Gn 19. 12,13: “todos quantos tens na cidade, faze-os sair deste lugar; pois vamos destruir este lugar, porque o seu clamor se tem aumentado, chegando até à presença do SENHOR; e o SENHOR nos enviou a destruí-lo.” E, no ver. 14: “Levantai-vos, saí deste lugar, porque o SENHOR há de destruir a cidade.”
Esta cidade é maldita; está destinada à ruína. Portanto, assim como não seríamos participantes em sua maldição, e em sua destruição, devemos dela fugir, sem olhar para trás. Ap 18.4: “Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos.”
3. Não devemos olhar para trás ao fugir de Sodoma porque a destruição para a qual está destinada é sobremaneira terrível. Ela está destinada à completa destruição, a ser inteiramente e totalmente consumida. Está apontada para sofrer a ira do grande Deus, que será derramada do céu como uma terrível tempestade de fogo e enxofre. Esta cidade deve ficar cheia da ira de Deus. Todo o que nela permanece terá o fogo da ira de Deus descendo sobre sua cabeça e sobre sua alma: ficará cheio de fogo e da ira do Todo-poderoso. Será coberto com fogo por fora e cheio de fogo por dentro: sua cabeça, coração, entranhas, e todos os membros ficarão cheios de fogo, e nem uma gota de água o refrescará. Nem terá ele lugar para onde fugir em busca de alívio. Vá aonde for, haverá lá o fogo da ira de Deus; sua destruição e tormento serão inevitáveis. Será destruído sem misericórdia. Clamará em alta voz, mas ninguém o socorrerá, nem se preocupará com seus lamentos, ou lhe proverá alívio. O decreto foi lançado, e os dias vêm quando Sodoma queimará como um forno, e todos os seus habitantes serão como palha. Como foi na Sodoma histórica, quando toda a cidade estava repleta de fogo: não havia segurança nas casas, pois estavam em chamas; se fugiam para as ruas, também estavam em chamas. O fogo descia continuamente do céu, em todo lugar. Aqueles foram tempos sombrios. Que clamores houve naquela cidade, em todas as suas partes! Mas ninguém havia para ajudar; não tinham aonde ir, onde pudessem ocultar suas cabeças do fogo: ninguém para ser solidário ou para aliviá-los. Se fugiam para seus amigos, não podiam ajudá-los.
Agora, com que pressa devemos fugir de uma cidade destinada a tal destruição! E como devemos fugir sem olhar para trás! Como deve ser nosso desejo chegar à maior distância possível de uma cidade em tais circunstâncias! Como devemos estar mui longe de pensar em retornar para um lugar que experimenta tamanha ira sobre si!
4. A destruição para a qual Sodoma está destinada é uma destruição total. Ninguém que nela permanecer será poupado: ninguém terá a boa sorte de estar em uma esquina qualquer, onde o fogo não o alcance. Todos os tipos, velhos e novos, grandes e pequenos, devem ser destruídos. Não haverá exceção de idade, sexo, ou condição, mas todos perecerão juntamente. Gn 19. 24, 25: “Então, fez o SENHOR chover enxofre e fogo, da parte do SENHOR, sobre Sodoma e Gomorra. E subverteu aquelas cidades, e toda a campina, e todos os moradores das cidades, e o que nascia na terra.” Nós, portanto, não devemos nos atrasar ou olhar para trás, pois não há lugar seguro em Sodoma, nem em toda a campina na qual ela está construída. A montanha da segurança está adiante, nas às nossas costas.
5. A destruição a qual Sodoma está destina é uma destruição eterna. Isto foi dito acerca da Sodoma histórica, que sofreu a vingança de fogo eterno, em Jd 7: “como Sodoma, e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregado à prostituição como aqueles, seguindo após outra carne, são postas para exemplo do fogo eterno, sofrendo punição.” A destruição, que Sodoma e Gomorra sofreram, foi eterna: essas cidades foram destruídas, e jamais foram reconstruídas desde então, e nem o podem ser, pois a terra na qual se localizavam afundou, e foi coberta com o lago de Sodoma, o Mar Morto, ou, como é chamado nas Escrituras: o mar Salgado. Isso parece assim ter sido ordenado com o objetivo de ser um tipo da destruição eterna dos ímpios. Por isso, o fogo com que foram destruídas é chamado de fogo eterno, porque era típico, era um tipo da destruição eterna dos ímpios. Isto é o que pode ser entendido, em parte, quando, no texto de Judas, se diz que foram postas para exemplo, ou para um tipo ou representação do fogo eterno no qual todos os ímpios serão consumidos.
Sodoma foi coberta, em todas as eras posteriores, com um lago procedente do fogo e enxofre que a consumiu. Este lago é um tipo do lago de fogo e enxofre no qual os ímpios terão sua porção por toda eternidade, como lemos em Ap 20. 15, e em outros lugares. Não devemos, portanto, olhar para trás ao fugir de Sodoma, tendo em vista que a destruição a que ela está destinada é eterna; isto, pois, a torna infinitamente terrível.
6. Sodoma é cidade destinada à destruição rápida e repentina. A destruição é não apenas certa e inevitável, e infinitamente terrível, mas virá rapidamente. “Para eles o juízo lavrado há longo tempo não tarda, e a sua destruição não dorme.” (2 Pe 2.3). E também Dt 32. 35: “Porque o dia da sua calamidade está próximo, e o seu destino se apressa em chegar.” A tempestade de ira e as negras nuvens da ira divina, agora mesmo repousam sobre eles, prontas a rebentar e cair, de forma terrível. “Deus já afiou sua espada e armou seu arco, tem-no pronto, preparou suas setas.” Portanto, devemos nos apressar, e não olhar para trás. Pois se hesitarmos e pararmos para olhar, e não fugirmos pelas nossas vidas, há grande perigo que sejamos envolvidos pela desgraça comum.
A destruição de Sodoma é não apenas rápida, mas virá repentina e inesperadamente. Parece ter sido uma bela manhã em Sodoma no dia em que destruída (Gn 19. 23). Parece não ter havido nuvens, nem aparência de qualquer tempestade, muito menos de uma tempestade de foge e enxofre. Os habitantes de Sodoma não esperavam tal coisa; mesmo quando Ló disse aos seus genros sobre a destruição, não acreditaram nele (Gn 19.14). Eles estavam animados, seus corações estavam descansados, achando que não havia calamidade à vista. Mas ela veio de uma vez, como as dores vêm à parturiente, e não houve escape, como diz o vv. 28, 29: “O mesmo aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas, no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre e destruiu a todos.”
Assim acontece com os ímpios; Sl 73. 19: “Como ficam de súbito assolados, totalmente aniquilados de terror!” – Portanto, se hesitarmos e olharmos para trás, podemos ser repentinamente assolados e assaltados pela destruição.
7. Não há nada em Sodoma que seja digno de lembrança. Todos os seus gozos cedo perecerão na destruição comum; tudo será consumido. E, certamente, não vale a pena olhar para trás em busca de coisas que estão perecendo e sendo consumidas pelas chamas, como acontece com todos os prazeres do pecado – estão todos destinados ao fogo. Portanto, é tolice para alguém que foge de Sodoma desejar mais deles, pois quando estão consumidos, para que servem? E vale a pena que retornemos por causa de um momento de prazer, antes que se consumam, e nos expormos a ser consumidos com eles?
A mulher de Ló olhou para trás porque se lembrou das coisas agradáveis que havia deixado em Sodoma. Ela as desejou avidamente; não podia fazer outra coisa senão olhar com olhos desejosos para a cidade, onde vivera com tanta fartura e alegria. Sodoma era um lugar de grande abundância exterior, o povo comia e bebia com fartura. O solo da região era muito fértil, sendo mesmo chamada de o jardim de Deus, em Gn 12. 10. E a abundância de pão era um dos pecados do lugar, como diz Ez 16. 49.
Aqui, Ló e sua esposa viveram na abundância. Este era um lugar em que os moradores chafurdavam nos prazeres e delícias da carne. Mas, conquanto abundassem estas coisas, de que valiam agora que estavam em chamas? A mulher de Ló foi muito tola ao titubear na sua fuga, por causa de coisas que estavam em chamas. Da mesma maneira, os prazeres, ganhos e alegrias do pecado têm sobre si a ira e a maldição de Deus: o enxofre está espalhado sobre eles; o fogo do inferno está pronto para incendiá-los. Portanto, não vale a pena para ninguém ter saudade de tais coisas.
8. Somos alertados pelos mensageiros enviados por Deus para que nos apressemos em nossa fuga de Sodoma, e não olhemos para trás. Deus nos envia seus ministros, os anjos das igrejas, nesta grandiosa missão, como enviou os anjos até Ló e sua esposa, para alertá-los que fugissem por suas vidas (Gn 19. 15,16). Se nos atrasarmos ou olharmos para trás, agora que fomos tão bondosamente alertados, seremos sobremaneira inescusáveis e monstruosamente tolos.

Aplicação

O uso que farei desta doutrina é o de alertar aqueles que se encontram em seu estado natural a que fujam dele e de maneira alguma olhem para trás. Enquanto estiver fora de Cristo, você está em Sodoma. Toda a história da cidade, com todas as suas circunstâncias, parece estar inserida nas Escrituras para o nosso aviso, e posta como um exemplo, como diz o apóstolo Judas. Ela tipifica de forma vívida a situação do homem não convertido, a destruição dos que continuam no seu estado natural, e a maneira de escapar, fugindo para Cristo. O salmista, quando fala sobre a destruição destinada aos ímpios, parece evidentemente referir-se à destruição de Sodoma, Sl 11. 6: “Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e vento abrasador será a parte do seu cálice.”
Considerem, portanto, aqueles que buscam um interesse por Cristo: vocês devem fugir de Sodoma. Sodoma é o lugar onde vocês nasceram, e onde passaram as suas vidas. Vocês são cidadãos dessa cidade que está cheia de imundície e abominação diante de Deus, essa cidade poluída e maldita. Vocês pertencem a essa sociedade impura. Não apenas vivem entre eles, mas são contados com eles, cometeram essas abominações, e, assim, provocaram a Deus, conforme ouviram. É sobre vocês que estive até aqui falando, neste sermão. Vocês são os habitantes de Sodoma. Talvez olhem para as suas circunstâncias como não tão terríveis; mas habitam em Sodoma. Embora possam ser mudados, e aparentem um exterior limpo, e um rosto educado para o mundo, contudo, enquanto permanecerem em uma condição natural, são habitantes impuros de Sodoma.
A humanidade se divide em duas sociedades, ou, por assim dizer, em duas cidades: há Sião, a igreja de Deus, a cidade santa e amada; e há Sodoma, esta cidade poluída e amaldiçoada, que está destinada à destruição. Vocês pertencem a esta última. Conquanto encarem a si mesmos como melhores que os outros, pertencem à mesma cidade, à mesma companhia de fornicadores, bêbados, adúlteros, perjuros, ladrões, piratas e sodomitas. Conquanto encarem-se como distintos, enquanto estiverem fora de Cristo, pertencem a esta mesma sociedade; são da mesma companhia, ajuntam-se com eles, e não são melhores, ainda que tenham maiores restrições. Vocês, às vistas de Deus, são dignos de serem contados com eles e são, por completo, objetos de repugnância e execração, e a ira de Deus permanece sobre vocês, e viverão com ela, e com ela serão destruídos, se não escaparem do seu estado presente. Sim, vocês são da mesma companhia dos demônios, pois Sodoma é não apenas a cidade dos ímpios, mas é a casa de todo espírito imundo.
Vocês pertencem a esta cidade que está destinada à destruição horrível, inevitável, rápida e repentina; cidade que tem uma tempestade de fogo e ira pairando sobre si. Muitos de vocês estão convencidos do triste estado em que se encontram enquanto estiverem em Sodoma, e estão fazendo algumas tentativas de escapar da ira que paira sobre ela. Que os tais sejam advertidos, pelo que foi dito, a escapar por suas vidas, e não olhar para trás. Não olhem para trás, a menos que escolham ter uma porção na tempestade de fogo que está descendo sobre a cidade. Não tenham saudades dos prazeres que tiveram quando viveram em Sodoma, desejando as coisas agradáveis que possuíam lá, a tranquilidade, a segurança, e os gozos que lá desfrutaram.
Lembrem-se da mulher de Ló, pois olhou para trás, indisposta a abrir mão completamente, e para sempre, da tranquilidade, prazer e abundância que desfrutava em Sodoma, e tendo intenção de para lá retornar. Lembrem-se do que lhe sucedeu. Lembrem-se dos filhos de Israel, no deserto, que desejaram retornar ao Egito. Nm 11. 5: “Lembramo-nos dos peixes que, no Egito, comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos.” Lembrem-se quais foram as consequências. Vocês devem estar dispostos a abandonar para sempre toda a facilidade, e prazeres, e ganhos do pecado, e esquecer tudo pela salvação, como fez Ló, deixando tudo para escapar de Sodoma.