quarta-feira, 7 de maio de 2014

A TOLICE DE OLHAR PARA TRÁS AO FUGIR DE SODOMA - SERMÃO 2


Lembrai-vos da mulher de Ló.” (Lucas 27:32)
A doutrina que retirei dessas palavras foi: “Não devemos olhar para trás ao fugir de Sodoma.” Tendo confirmado essa doutrina com diversos argumentos, viemos à sua aplicação como forma de alerta aos pecadores em seu estado natural, e em especial àqueles que estão sendo despertados e convencidos do miserável estado em que se encontram, e desejam escapar da ira vindoura. Como forma de reforçar este alerta, permitam-me implorar a todos que estão neste estado para que considerem as coisas diversas que passo a mencionar:
1. A destruição que os ameaça é infinitamente mais temível que a destruição da Sodoma real da qual Ló escapou. A destruição de Sodoma e Gomorra por uma tempestade de fogo e enxofre não foi senão uma sombra da destruição dos ímpios no inferno, e não representa senão uma sombra ou imagem da realidade, equivalente a uma pintura do fogo em relação ao fogo real. A miséria do inferno é apresentada por uma variedade de sombras e imagens na Escritura, como escuridão das trevas, um verme que nunca morre, uma fornalha ardente, um lago de fogo e enxofre, o tormento do vale dos filhos de Hinom, uma tempestade de fogo e enxofre. A razão de se usar tantas alegorias é porque nenhuma delas é suficiente. O que todas fazem é apenas representar a verdade de modo parcial e muito imperfeito, portanto, Deus faz uso de muitas delas.
Vocês têm, portanto, muito mais necessidade de escapar apressadamente - e de não olhar para o que está atrás - do que tinha Ló e sua esposa quando fugiam de Sodoma. Isto porque estão a todo dia e momento em perigo de uma terrível tempestade, mil vezes pior sobre suas cabeças, do que aquela que veio sobre Sodoma quando o Senhor fez chover sobre ela fogo e enxofre de sua parte dos céus. Portanto, será tolice muito maior se olharem para trás do que foi para a mulher de Ló.
2. A destruição que os ameaça é não apenas maior que a da Sodoma real, mas é maior que a destruição eterna que abateu os habitantes de Sodoma. Pois não importa o quanto se achem bons, pois continuaram sem arrependimento sob o glorioso evangelho, pecaram e provocaram a Deus muito mais, e têm sobre si maior culpa que os habitantes de Sodoma, mesmo que aos seus olhos, e talvez aos outros, pareçam criaturas bastante inofensivas. (Mt 10:15): “Em verdade vos digo que menos rigor haverá para Sodoma e Gomorra, no Dia do Juízo, do que para aquela cidade.
3. Enquanto estavam a olhar para trás, multidões foram repentinamente tragadas e abatidas pela tempestade de ira. A ira de Deus não se demorou enquanto eles demoravam; não esperou um momento sequer para que se virassem e fugissem, mas os abateu e acabaram-lhe as esperanças. Quando a mulher de Ló olhou para trás, foi imediatamente destruída. Deus já havia exercido paciência para com ela antes. Quando hesitou na retirada, os anjos a pressionaram e com seu esposo e filhas para que se apressassem. E não apenas isso, mas quando eles também se atrasaram, os anjos a agarraram, e a retiraram da cidade, sendo-lhe o Senhor misericordioso. Mas agora, quando, apesar dessa misericórdia, e dos avisos que lhe haviam sido dados, ela olhou pra trás, Deus não mais teve paciência, mas de imediato a executou.
Agora, Deus de modo semelhante lhes tem sido misericordioso. Vocês, no passado, hesitaram; foram avisados pelo anjo do perigo que corriam, e foram apertados para que se apressassem e fugissem. Ainda assim, adiaram a fuga. E agora, enfim, Deus, por assim dizer, se encarregou de vocês, pelas convicções de seu Espírito, para retirá-los de Sodoma. Portanto, lembrem-se da mulher de Ló. Se agora, depois de tudo, olharem para trás, depois de Deus lhes mostrar tanta misericórdia, terão razão para temer que Ele repentinamente os destruirá. Multidões, enquanto olhavam para trás, e adiavam por mais um tempo, nunca tiveram outra oportunidade; foram repentinamente destruídas, e sem possibilidade de remédio.
4. Se vocês olharem para trás, e viverem muitos anos depois disso, há grande perigo de que jamais vão adiante. O único modo de buscar a salvação é esforçando-se por ela com toda a sua força, e ainda olhar e seguir em frente, sem jamais parar ou diminuir o passo. Quando a mulher de Ló parou em sua fuga e deteve-se a fim de olhar, o seu castigo foi que lá ficasse para sempre. Jamais foi a outro lugar, nem nunca saiu dali: mas lá permaneceu como uma estátua de sal, um duradouro pilar e monumento de ira, por sua tolice e impiedade.
Assim acontece com frequência aos hesitantes, embora continuem a viver por tempo considerável depois disso. Quando olham para trás, após terem sofrido tanto por sua salvação, perdem tudo e colocam-se em larga desvantagem, apagando o Espírito de Deus, e perdendo suas convicções, terrivelmente endurecem seus corações e entorpecem suas almas. Pavimentam o caminho para o desencorajamento, terrivelmente fortalecem e estabelecem o interesse do pecado em seus corações, dando a Satanás de muitas formas vantagens para arruiná-los, e provocam a Deus tantas vezes a ponto de Ele os entregar à dureza de coração.  Quando vêm a olhar para trás, suas almas já estão mortas e endurecidas como o corpo da mulher de Ló. E ainda que vivam por longo tempo, jamais avançam; isto lhes é pior do que se tivessem sido condenados imediatamente. Quando as pessoas em fuga de Sodoma olham para trás, sua ultima situação é muito pior que a primeira (Mt 12:43-45). E a experiência confirma que comumente ninguem é mais endurecido e difícil de ser conduzido ao arrependimento que os apóstatas.
5. Pode muito bem animar suas almas a fugir por suas vidas, e a não olhar para trás, quando considerarem quantos ultimamente têm fugido para as montanhas, enquanto vocês permanecem em Sodoma. A quantas multidões Deus deu a sabedoria para fugir para Cristo, a montanha da segurança! Eles fugiram para a pequena cidade de Zoar, que Deus poupará e nunca destruirá. Quantos de vocês viram pessoas de todos os tipos saindo de Sodoma até agora, crendo na palavra de Deus falada pelos anjos de que Ele certamente destruirá esse lugar! Estes estão em uma condição segura, fora do alcance da tempestade, em um lugar onde o fogo e o enxofre não lhes podem atingir.
Mas vocês permanecem nesta cidade maldita, em meio a esta sociedade amaldiçoada. Ainda estão em Sodoma, que Deus está prestes a destruir terrivelmente, onde a cada minuto estão em perigo de ter sobre suas cabeças armadilhas, fogo e enxofre. Embora muitos tenham obtido a libertação, este não é o caso de vocês. O bem veio, mas vocês não o viram. Outros estão felizes, mas ninguém sabe o que será de vocês. Não têm parte nem porção nessa gloriosa salvação das almas, que esteve nos últimos dias entre nós. Essa consideração bem poderia animar suas almas a efetivamente escaparem, e na sua pressa, esforçarem-se e resolverem esforçar-se para sempre, haja o que houver no caminho. A não dar ouvidos a tentação alguma, e nunca olhar para trás, ou de forma alguma afrouxar ou abater seus esforços enquanto viverem, mas, se possível, aumentá-los mais e mais.
6. Voltar atrás em tempos como estes[1] terá grande tendência de selar a condenação do homem que em outros tempos. Quanto mais meios têm os homens, quanto mais altos os chamados e maiores as vantagens em que se encontram, mais perigosa é a relutância, maior a tendência de aumentar-se a culpa, provocar a Deus e endurecer o coraçao.
Nós, nesta terra de luz, há muito que desfrutamos de maiores vantagens que o resto do mundo. Mas as vantagens que as pessoas desfrutam agora para a sua salvação são talvez dez vezes maiores que aquelas que comumente tivemos. Portanto, hesitar será um pecado proporcionalmente maior e mais perigoso para a alma. Voces têm visto a glória de Deus e suas maravilhas entre nós, de forma muito impressioante. Se depois disso ainda olharem para trás, haverá grande perigo que Deus jure na sua ira que jamais entrarão no seu descanso, como fez para com aqueles que queriam retornar ao Egito, após terem visto as suas maravilhas realizadas em prol de Israel (Nm 14:22, 23): “nenhum dos homens que, tendo visto a minha glória e os prodígios que fiz no Egito e no deserto, todavia, me puseram à prova já dez vezes e não obedeceram à minha voz,  23 nenhum deles verá a terra que, com juramento, prometi a seus pais, sim, nenhum daqueles que me desprezaram a verá.” As maravilhas que vimos entre nós nestes dias têm sido de natureza bem mais gloriosa que aquelas vistas pelos filhos de Israel no Egito e no deserto.
7. Nada sabemos senão que a maior parte do mundo ímpio hoje se encontra nas mesmas circunstâncias que Sodoma, quando Ló fugia de lá. Eles têm uma destruição visível e temporal pairando sobre si. Parece que alguma coisa grande está vindo, o estado das coisas no mundo parece favorável a alguma grande revolução. O mundo se encontra em tal grau de impiedade que é provável que o seu clamor tenha chegado aos céus, e é bastante improvável que Deus permita que tais coisas continuem do jeito que estão por muito tempo. É provavel que Deus se apresse em aparecer em terrível majestade para vindicar a sua causa e, então, ninguém estará a salvo se estiver fora de Cristo. Agora, portanto, todos devem fugir por suas vidas, e escapar para as montanhas, para que não sejam consumidos. Não podemos dizer com certeza o que Deus há de fazer, mas isto podemos: que todos os que estão fora de Cristo estão em um estado bastante inseguro.
8. Para reforçar este aviso contra a hesitação, permitam-me suplicar-lhes a que considerem a excessiva prontidão que há no coração para isso. O coração humano é recalcitrante. Há nele um grande amor e forte desejo pela comodidade, prazeres e diversões de Sodoma, como havia na mulher de Ló. Esta é razao por que tantos estão inclinados à tentaçao de olhar para trás. O coração está tão inclinado para Sodoma que é difícil manter os olhos fora dela e os pés longe dos seus caminhos. Quando os homens sob convicção de pecado são postos em fuga, é à força, é porque Deus segura suas mãos, como fez com Ló e sua mulher, arrastando-os de lá. Mas a tendência do coraçao é voltar para Sodoma.
As pessoas estão prontas a retornar também devido ao desencorajamento. O coração é inconstante, logo fica cansado, e pronto a ouvir tentações desencorajadoras. Uma pequena dificuldade e atraso logo vence suas fracas resoluções. E o desencorajamento leva à recalcitrância: enfraquece as mãos, coloca um peso morto nos corações, e os faz suportá-los como um fardo; e se isso continua por muito tempo, logo leva à segurança carnal e à insensibilidade. As convicções com frequência se abalam assim: primeiro começam a entreter o desencorajamento. A recalcitrância é uma doença que é extremamente secreta em suas formas de operação. É um temperamento agradável e age como a tuberculose, em que as pessoas com frequência se gabam que não estão piores, e que melhoraram, e no caminho da recuperação, até que em poucos dias vêm a morrer. Portanto, a recalcitrância vem aos poucos, e torna os homens insensíveis a ponto de se gabarem que não estão apostatando. Eles reivindicam estar buscando ainda, e esperam não ter perdido suas convicções. E ao tempo em que descobrem a verdade e não mais podem fingir, comumente já estão tão longe que não mais se importam se perderam suas convicções. E quando chegam a esse ponto, comumente já é o fim de suas convicções. Assim, eles cegam a si mesmos, e mantêm-se insensíveis de suas próprias doenças e nao se angustiam por elas, nem acordam para usar os meios de aliviá-las, até que já não haja possibilidade de cura.
Assim é que a apostasia vem com frequência àqueles que por algum tempo estiveram sob consideráveis convicções, e depois as perderam. Que a consideração deste perigo os mova a terem maior cuidado e diligência para guardarem os corações, e vigiarem em constante oração contra a apostasia. E que isto os leve ao esforço para reforçar suas resoluções de se guardarem contra qualquer coisa que tenda ao contrário, para que possam perseverar até ao fim, para que “conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR.



[1] O tempo do reavivamento da religião em Northampton em 1735.

A TOLICE DE OLHAR PARA TRÁS AO FUGIR DE SODOMA - SERMÃO 1



“Lembrai-vos da mulher de Ló.” (Lucas 17:32)

Cristo aqui prediz sua vinda, no seu Reino, em resposta à pergunta dos fariseus: “Quando virá o reino de Deus?” E, quanto ao que diz a este respeito, evidentemente, tem em vista duas coisas: sua vinda na destruição de Jerusalém, e sua vinda no fim do mundo. Ele compara seu retorno, nestes tempos, a duas notáveis manifestações de Deus em juízo, no passado. Primeiramente, no dilúvio: “Assim como foi nos dias de Noé, será também nos dias do Filho do Homem.” A seguir, a compara à destruição de Sodoma e Gomorra: “O mesmo aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; assim será no dia em que o Filho do Homem se manifestar.”
Então, imediatamente, ele procede para orientar seu povo sobre como este deveria se portar às vistas dos sinais da aproximação daquele Dia, referindo-se, em especial, à destruição de Jerusalém. Lc 17. 31: “Naquele dia, quem estiver no eirado e tiver os seus bens em casa não desça para tirá-los; e de igual modo quem estiver no campo não volte para trás.” Com essas palavras, Cristo mostra que seus discípulos deviam ter a máxima urgência em fugir e escapar da cidade para as montanhas, como ordena em Mt 24. 15-18: “Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo (quem lê entenda), então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes; quem estiver sobre o eirado não desça a tirar de casa alguma coisa; e quem estiver no campo não volte atrás para buscar a sua capa.”
Jerusalém era como Sodoma, uma vez que estava destinada à destruição, pela ira divina especial; e, na verdade, à ira mais terrível do que a que atingiu Sodoma. Portanto, a mesma orientação é dada para dela fugir à máxima pressa, sem olhar para trás, como disse o anjo a Ló, quando lhe ordenou que fugisse de Sodoma. Gn 19.17: “Livra-te, salva a tua vida; não olhes para trás.” E, no texto, Cristo reforça seu conselho pelo exemplo da mulher de Ló. Ele ordena que os discípulos se lembrem dela, e a tomem como um aviso, por ter olhado para trás, enquanto fugia de Sodoma, tendo se tornado uma estátua de sal.
Se for investigado o porquê do conselho de Cristo ao seu povo, para que fuja de Jerusalém com tão urgente pressa, ao primeiro sinal de sua iminente destruição, respondo: parece que fugir de Jerusalém era um tipo da fuga do estado de pecado. Escapar desta cidade incrédula tipificava uma fuga do estado de incredulidade. Portanto, os discípulos foram orientados a fugir sem retornar para pegar quaisquer coisas de suas casas, querendo dizer com qual pressa e cuidado devemos fugir de nossa condição natural, que nenhum respeito a qualquer gozo mundano nos impeça, um momento sequer, que fujamos para Jesus Cristo, o refúgio das almas, nossa rocha forte, e o monte da nossa defesa, de modo que, ao fugir para ele, abandonamos e esquecemos, de coração, todas as coisas terrenas.
Esta também parece ser a principal razão pela qual Ló também foi orientado a fugir com tal pressa, e não olhar para trás; porque sua fuga de Sodoma foi decretada com o propósito de ser um tipo da nossa fuga daquele estado de pecado e miséria no qual nos encontramos por natureza.
Doutrina

Não devemos olhar para trás ao fugir de Sodoma.
As seguintes razões podem ser suficientes para apoiar esta doutrina:
1. Sodoma é uma cidade cheia de imundície e abominações. Está repleta daquelas impurezas que devem ser objeto da maior execração e ódio de todos. Seus habitantes estão manchados, estão sob o poder e domínio de luxúrias detestáveis. Todas as suas faculdades e afeições estão contaminadas com as disposições vis que são indignas da natureza humana, que a degradam sobremaneira, que são grandemente odiosas a Deus e incendeiam a sua ira de maneira terrível. Todo tipo de abominação espiritual abunda nela. Não há nada detestável e abominável que lá não possa ser encontrado, e que lá não abunde.
Sodoma é uma cidade cheia de demônios e de espíritos imundos. Lá eles se encontram e têm seu domínio. Lá se divertem, e revolvem-se na imundície, como é dito da Babilônia mística, em Ap 18.2: “Babilônia se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável.” – Quem seria, pois, de tal sociedade? Quem não fugiria de tal cidade com a maior pressa, sem jamais olhar para trás, e sem ter a menor inclinação de retornar?
Alguns em Sodoma podem aparentar ter um rosto limpo, e exibem um exterior justo; mas, se pudéssemos contemplar seus corações, todos são completamente nojentos e abomináveis. Devemos fugir de tal cidade, com o máximo horror do lugar e da sociedade, sem ter expectativas de lá voltar a habitar, e sem nunca encontrar a menor inclinação para retornar. Devemos, porém, desejar chegar a maior distância possível dela, para que, de forma alguma, nos tornemos participantes em suas abominações.
2. Não devemos olhar para trás ao fugir de Sodoma, porque Sodoma é uma cidade destinada à destruição. O clamor da cidade subiu aos céus. A terra já não pode mais suportar o fardo dos seus habitantes. Ela, portanto, aliviar-se-á deles, e os cuspirá. Deus não mais permitirá que tal cidade permaneça; Ele a consumirá. Deus é santo, e Sua natureza é infinitamente oposta a toda impureza; portanto, será para ela fogo consumidor. A santidade de Deus não permitirá que permaneça, e a Sua majestade e justiça requerem que os habitantes dessa cidade, que assim O provocaram e ofenderam, sejam destruídos. E Deus certamente os destruirá pois este é Seu decreto imutável e irreversível. Ele o disse, e o fará. O decreto foi lançado, e tão certo quanto há um Deus, e é Todo-poderoso, e capaz de cumprir seus decretos e ameaças, assim, certamente, destruirá Sodoma. Gn 19. 12,13: “todos quantos tens na cidade, faze-os sair deste lugar; pois vamos destruir este lugar, porque o seu clamor se tem aumentado, chegando até à presença do SENHOR; e o SENHOR nos enviou a destruí-lo.” E, no ver. 14: “Levantai-vos, saí deste lugar, porque o SENHOR há de destruir a cidade.”
Esta cidade é maldita; está destinada à ruína. Portanto, assim como não seríamos participantes em sua maldição, e em sua destruição, devemos dela fugir, sem olhar para trás. Ap 18.4: “Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos.”
3. Não devemos olhar para trás ao fugir de Sodoma porque a destruição para a qual está destinada é sobremaneira terrível. Ela está destinada à completa destruição, a ser inteiramente e totalmente consumida. Está apontada para sofrer a ira do grande Deus, que será derramada do céu como uma terrível tempestade de fogo e enxofre. Esta cidade deve ficar cheia da ira de Deus. Todo o que nela permanece terá o fogo da ira de Deus descendo sobre sua cabeça e sobre sua alma: ficará cheio de fogo e da ira do Todo-poderoso. Será coberto com fogo por fora e cheio de fogo por dentro: sua cabeça, coração, entranhas, e todos os membros ficarão cheios de fogo, e nem uma gota de água o refrescará. Nem terá ele lugar para onde fugir em busca de alívio. Vá aonde for, haverá lá o fogo da ira de Deus; sua destruição e tormento serão inevitáveis. Será destruído sem misericórdia. Clamará em alta voz, mas ninguém o socorrerá, nem se preocupará com seus lamentos, ou lhe proverá alívio. O decreto foi lançado, e os dias vêm quando Sodoma queimará como um forno, e todos os seus habitantes serão como palha. Como foi na Sodoma histórica, quando toda a cidade estava repleta de fogo: não havia segurança nas casas, pois estavam em chamas; se fugiam para as ruas, também estavam em chamas. O fogo descia continuamente do céu, em todo lugar. Aqueles foram tempos sombrios. Que clamores houve naquela cidade, em todas as suas partes! Mas ninguém havia para ajudar; não tinham aonde ir, onde pudessem ocultar suas cabeças do fogo: ninguém para ser solidário ou para aliviá-los. Se fugiam para seus amigos, não podiam ajudá-los.
Agora, com que pressa devemos fugir de uma cidade destinada a tal destruição! E como devemos fugir sem olhar para trás! Como deve ser nosso desejo chegar à maior distância possível de uma cidade em tais circunstâncias! Como devemos estar mui longe de pensar em retornar para um lugar que experimenta tamanha ira sobre si!
4. A destruição para a qual Sodoma está destinada é uma destruição total. Ninguém que nela permanecer será poupado: ninguém terá a boa sorte de estar em uma esquina qualquer, onde o fogo não o alcance. Todos os tipos, velhos e novos, grandes e pequenos, devem ser destruídos. Não haverá exceção de idade, sexo, ou condição, mas todos perecerão juntamente. Gn 19. 24, 25: “Então, fez o SENHOR chover enxofre e fogo, da parte do SENHOR, sobre Sodoma e Gomorra. E subverteu aquelas cidades, e toda a campina, e todos os moradores das cidades, e o que nascia na terra.” Nós, portanto, não devemos nos atrasar ou olhar para trás, pois não há lugar seguro em Sodoma, nem em toda a campina na qual ela está construída. A montanha da segurança está adiante, nas às nossas costas.
5. A destruição a qual Sodoma está destina é uma destruição eterna. Isto foi dito acerca da Sodoma histórica, que sofreu a vingança de fogo eterno, em Jd 7: “como Sodoma, e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregado à prostituição como aqueles, seguindo após outra carne, são postas para exemplo do fogo eterno, sofrendo punição.” A destruição, que Sodoma e Gomorra sofreram, foi eterna: essas cidades foram destruídas, e jamais foram reconstruídas desde então, e nem o podem ser, pois a terra na qual se localizavam afundou, e foi coberta com o lago de Sodoma, o Mar Morto, ou, como é chamado nas Escrituras: o mar Salgado. Isso parece assim ter sido ordenado com o objetivo de ser um tipo da destruição eterna dos ímpios. Por isso, o fogo com que foram destruídas é chamado de fogo eterno, porque era típico, era um tipo da destruição eterna dos ímpios. Isto é o que pode ser entendido, em parte, quando, no texto de Judas, se diz que foram postas para exemplo, ou para um tipo ou representação do fogo eterno no qual todos os ímpios serão consumidos.
Sodoma foi coberta, em todas as eras posteriores, com um lago procedente do fogo e enxofre que a consumiu. Este lago é um tipo do lago de fogo e enxofre no qual os ímpios terão sua porção por toda eternidade, como lemos em Ap 20. 15, e em outros lugares. Não devemos, portanto, olhar para trás ao fugir de Sodoma, tendo em vista que a destruição a que ela está destinada é eterna; isto, pois, a torna infinitamente terrível.
6. Sodoma é cidade destinada à destruição rápida e repentina. A destruição é não apenas certa e inevitável, e infinitamente terrível, mas virá rapidamente. “Para eles o juízo lavrado há longo tempo não tarda, e a sua destruição não dorme.” (2 Pe 2.3). E também Dt 32. 35: “Porque o dia da sua calamidade está próximo, e o seu destino se apressa em chegar.” A tempestade de ira e as negras nuvens da ira divina, agora mesmo repousam sobre eles, prontas a rebentar e cair, de forma terrível. “Deus já afiou sua espada e armou seu arco, tem-no pronto, preparou suas setas.” Portanto, devemos nos apressar, e não olhar para trás. Pois se hesitarmos e pararmos para olhar, e não fugirmos pelas nossas vidas, há grande perigo que sejamos envolvidos pela desgraça comum.
A destruição de Sodoma é não apenas rápida, mas virá repentina e inesperadamente. Parece ter sido uma bela manhã em Sodoma no dia em que destruída (Gn 19. 23). Parece não ter havido nuvens, nem aparência de qualquer tempestade, muito menos de uma tempestade de foge e enxofre. Os habitantes de Sodoma não esperavam tal coisa; mesmo quando Ló disse aos seus genros sobre a destruição, não acreditaram nele (Gn 19.14). Eles estavam animados, seus corações estavam descansados, achando que não havia calamidade à vista. Mas ela veio de uma vez, como as dores vêm à parturiente, e não houve escape, como diz o vv. 28, 29: “O mesmo aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas, no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre e destruiu a todos.”
Assim acontece com os ímpios; Sl 73. 19: “Como ficam de súbito assolados, totalmente aniquilados de terror!” – Portanto, se hesitarmos e olharmos para trás, podemos ser repentinamente assolados e assaltados pela destruição.
7. Não há nada em Sodoma que seja digno de lembrança. Todos os seus gozos cedo perecerão na destruição comum; tudo será consumido. E, certamente, não vale a pena olhar para trás em busca de coisas que estão perecendo e sendo consumidas pelas chamas, como acontece com todos os prazeres do pecado – estão todos destinados ao fogo. Portanto, é tolice para alguém que foge de Sodoma desejar mais deles, pois quando estão consumidos, para que servem? E vale a pena que retornemos por causa de um momento de prazer, antes que se consumam, e nos expormos a ser consumidos com eles?
A mulher de Ló olhou para trás porque se lembrou das coisas agradáveis que havia deixado em Sodoma. Ela as desejou avidamente; não podia fazer outra coisa senão olhar com olhos desejosos para a cidade, onde vivera com tanta fartura e alegria. Sodoma era um lugar de grande abundância exterior, o povo comia e bebia com fartura. O solo da região era muito fértil, sendo mesmo chamada de o jardim de Deus, em Gn 12. 10. E a abundância de pão era um dos pecados do lugar, como diz Ez 16. 49.
Aqui, Ló e sua esposa viveram na abundância. Este era um lugar em que os moradores chafurdavam nos prazeres e delícias da carne. Mas, conquanto abundassem estas coisas, de que valiam agora que estavam em chamas? A mulher de Ló foi muito tola ao titubear na sua fuga, por causa de coisas que estavam em chamas. Da mesma maneira, os prazeres, ganhos e alegrias do pecado têm sobre si a ira e a maldição de Deus: o enxofre está espalhado sobre eles; o fogo do inferno está pronto para incendiá-los. Portanto, não vale a pena para ninguém ter saudade de tais coisas.
8. Somos alertados pelos mensageiros enviados por Deus para que nos apressemos em nossa fuga de Sodoma, e não olhemos para trás. Deus nos envia seus ministros, os anjos das igrejas, nesta grandiosa missão, como enviou os anjos até Ló e sua esposa, para alertá-los que fugissem por suas vidas (Gn 19. 15,16). Se nos atrasarmos ou olharmos para trás, agora que fomos tão bondosamente alertados, seremos sobremaneira inescusáveis e monstruosamente tolos.

Aplicação

O uso que farei desta doutrina é o de alertar aqueles que se encontram em seu estado natural a que fujam dele e de maneira alguma olhem para trás. Enquanto estiver fora de Cristo, você está em Sodoma. Toda a história da cidade, com todas as suas circunstâncias, parece estar inserida nas Escrituras para o nosso aviso, e posta como um exemplo, como diz o apóstolo Judas. Ela tipifica de forma vívida a situação do homem não convertido, a destruição dos que continuam no seu estado natural, e a maneira de escapar, fugindo para Cristo. O salmista, quando fala sobre a destruição destinada aos ímpios, parece evidentemente referir-se à destruição de Sodoma, Sl 11. 6: “Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e vento abrasador será a parte do seu cálice.”
Considerem, portanto, aqueles que buscam um interesse por Cristo: vocês devem fugir de Sodoma. Sodoma é o lugar onde vocês nasceram, e onde passaram as suas vidas. Vocês são cidadãos dessa cidade que está cheia de imundície e abominação diante de Deus, essa cidade poluída e maldita. Vocês pertencem a essa sociedade impura. Não apenas vivem entre eles, mas são contados com eles, cometeram essas abominações, e, assim, provocaram a Deus, conforme ouviram. É sobre vocês que estive até aqui falando, neste sermão. Vocês são os habitantes de Sodoma. Talvez olhem para as suas circunstâncias como não tão terríveis; mas habitam em Sodoma. Embora possam ser mudados, e aparentem um exterior limpo, e um rosto educado para o mundo, contudo, enquanto permanecerem em uma condição natural, são habitantes impuros de Sodoma.
A humanidade se divide em duas sociedades, ou, por assim dizer, em duas cidades: há Sião, a igreja de Deus, a cidade santa e amada; e há Sodoma, esta cidade poluída e amaldiçoada, que está destinada à destruição. Vocês pertencem a esta última. Conquanto encarem a si mesmos como melhores que os outros, pertencem à mesma cidade, à mesma companhia de fornicadores, bêbados, adúlteros, perjuros, ladrões, piratas e sodomitas. Conquanto encarem-se como distintos, enquanto estiverem fora de Cristo, pertencem a esta mesma sociedade; são da mesma companhia, ajuntam-se com eles, e não são melhores, ainda que tenham maiores restrições. Vocês, às vistas de Deus, são dignos de serem contados com eles e são, por completo, objetos de repugnância e execração, e a ira de Deus permanece sobre vocês, e viverão com ela, e com ela serão destruídos, se não escaparem do seu estado presente. Sim, vocês são da mesma companhia dos demônios, pois Sodoma é não apenas a cidade dos ímpios, mas é a casa de todo espírito imundo.
Vocês pertencem a esta cidade que está destinada à destruição horrível, inevitável, rápida e repentina; cidade que tem uma tempestade de fogo e ira pairando sobre si. Muitos de vocês estão convencidos do triste estado em que se encontram enquanto estiverem em Sodoma, e estão fazendo algumas tentativas de escapar da ira que paira sobre ela. Que os tais sejam advertidos, pelo que foi dito, a escapar por suas vidas, e não olhar para trás. Não olhem para trás, a menos que escolham ter uma porção na tempestade de fogo que está descendo sobre a cidade. Não tenham saudades dos prazeres que tiveram quando viveram em Sodoma, desejando as coisas agradáveis que possuíam lá, a tranquilidade, a segurança, e os gozos que lá desfrutaram.
Lembrem-se da mulher de Ló, pois olhou para trás, indisposta a abrir mão completamente, e para sempre, da tranquilidade, prazer e abundância que desfrutava em Sodoma, e tendo intenção de para lá retornar. Lembrem-se do que lhe sucedeu. Lembrem-se dos filhos de Israel, no deserto, que desejaram retornar ao Egito. Nm 11. 5: “Lembramo-nos dos peixes que, no Egito, comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos.” Lembrem-se quais foram as consequências. Vocês devem estar dispostos a abandonar para sempre toda a facilidade, e prazeres, e ganhos do pecado, e esquecer tudo pela salvação, como fez Ló, deixando tudo para escapar de Sodoma.

segunda-feira, 10 de março de 2014

PECADORES NAS MÃOS DE UM DEUS IRADO


PECADORES NAS MÃOS DE UM DEUS IRADO

A seu tempo, quando resvalar o seu pé.” (Deuteronômio 32:35)

Neste versículo, a vingança de Deus é ameaçada sobre os israelitas ímpios e incrédulos que, embora fossem o povo visível de Deus, e vivessem debaixo dos meios de graça, e apesar de todas as obras maravilhosas de Deus em benefício deles, permaneciam (conforme o versículo 28) sem juízo e entendimento. Com todo o cultivo do céu, nada produziram senão fruto venenoso e amargo, conforme afirmam os dois versículos que precedem o texto. A expressão que escolhi para minha exposição, “a seu tempo, quando resvalar o seu pé”, parece implicar o seguinte, relacionado à punição e destruição a que aqueles ímpios israelitas estavam expostos:
1. Que estavam sempre expostos à destruição; da mesma maneira que alguém que permanece ou anda em lugares escorregadios está sempre exposto à queda. Isso está implícito na maneira em que a destruição vem sobre eles, sendo representada pelos seus pés escorregando. O mesmo é expresso no Salmo 73.18: “Tu certamente os pões em lugares escorregadios e os fazes cair na destruição.
2. Implica que estavam sempre expostos à súbita e inesperada destruição. À semelhança do que anda em lugares escorregadios e está, a todo instante, sujeito a cair, não podendo prever em momento algum se, no próximo, estará de pé ou no chão; e, quando cai, cai imediatamente e sem aviso. Isso também está expresso no Salmo 73.18-19: “Tu certamente os pões em lugares escorregadios e os fazes cair na destruição. Como ficam de súbito assolados, totalmente aniquilados de terror!
3. Outra coisa implícita é que estão sujeitos a cair por si mesmos, sem serem derrubados pela mão de outrem. Da mesma maneira que o que permanece ou anda em terreno escorregadio de nada precisa além do próprio peso para derrubá-lo.
4. Que a razão de ainda não haverem caído, e de não caírem agora, é apenas que o tempo apontado por Deus não é chegado. Pois está dito que quando esse tempo devido ou designado chegar, seu pé resvalará. Então, serão abandonados à queda, a qual já estão inclinados por seu próprio peso. Deus não mais os sustentará nestes lugares escorregadios, mas os abandonará. E então, neste exato instante, cairão na destruição, à semelhança do que permanece em ladeiras escorregadias, sobre a beira de um precipício, não pode permanecer sozinho e, quando é abandonado, imediatamente cai e está perdido.
A observação a partir destas palavras que agora insistirei é:

Doutrina

Não há nada que mantenha os ímpios um só momento fora do inferno, senão a mera boa vontade de Deus.
Por ‘mera boa vontade’ de Deus, refiro-me a sua boa vontade soberana, sua vontade livre, imune a obrigações, não sujeita a impedimento algum, nem qualquer outra coisa, como se nada, a não ser a boa vontade de Deus, tivesse qualquer papel na preservação dos ímpios, a todo instante. A verdade desta observação poderá se evidenciar pelas seguintes observações:
1. Não falta poder a Deus para lançar os ímpios, a qualquer momento, no inferno. Quando Ele se levanta, as mãos humanas não podem ser fortes. Os mais fortes não têm poder algum para lhe resistir, nem podem se libertar de suas mãos. Ele é não apenas capaz de lançar os ímpios no inferno, mas pode fazê-lo com a maior facilidade. Às vezes, um príncipe terreno encontra grande dificuldade em subjugar um rebelde que encontrou meios de se fortificar, e se fortaleceu pelo número de seus seguidores. Mas isso não ocorre com Deus. Não há fortaleza que seja defesa contra o Seu poder. Ainda que as mãos se juntem, e vastas multidões de inimigos de Deus se combinem e associem, são facilmente esmiuçados em pedaços. São como grandes montes de palha seca e leve diante do furacão; ou grandes quantidades de restolho seco diante de chamas devoradoras. Achamos fácil pisar e esmagar um verme que vemos rastejar no chão; da mesma forma é fácil cortar ou queimar um fio fino que sustenta algo. Assim também é fácil para Deus, quando lhe agrada, lançar seus inimigos nas profundezas do inferno. Quem somos nós, para que pensemos permanecer perante este, diante de cuja repreensão a terra treme, e diante de quem as rochas são subjugadas?
2. Eles merecem ser lançados no inferno; de modo que a justiça divina jamais se interpõe, e não é um impedimento para que Deus use seu poder a qualquer momento para destruí-los. Na verdade, ao contrário, a justiça clama alto por punição infinita pelos seus pecados. A justiça divina fala acerca da árvore que produz uvas como as de Sodoma: “podes cortá-la; para que está ela ainda ocupando inutilmente a terra?” (Lc 13:7) A espada da justiça divina está a todo momento se revolvendo sobre suas cabeças, e não é nada, senão a mão da misericórdia livre de Deus, e a Sua mera vontade, que a segura.
3. Eles já estão sob uma sentença de condenação ao inferno. Não apenas merecem, com justiça, ser lançados lá, mas a sentença da lei de Deus, essa eterna e imutável regra da justiça que Deus fixou entre si e a humanidade, é posta contra eles, e permanece em oposição a eles; de modo que já estão destinados ao inferno. O que não crê já está julgado” (Jo 3:18). Desse modo, todo homem não convertido pertence propriamente ao inferno. Lá é o seu lugar; de lá ele procede (“Vós sois cá de baixo” [Jo 8.23]) e para lá está destinado; é o lugar ao qual a justiça, e a palavra de Deus, e a sentença de sua lei imutável, o destinam.
4. Eles são agora os objetos do mesmo furor e ira de Deus, que são expressos nos tormentos do inferno. E a razão pela qual não descem para lá a qualquer instante não é porque Deus, em cujo poder se encontram, não esteja muito irado com eles, como está com as muitas miseráveis criaturas agora atormentadas no inferno, que lá sentem e suportam a fúria de sua ira. Na verdade, Deus está muito mais irado com muitos que estão agora na terra; sim, sem dúvida, com muitos que estão agora nesta congregação, que podem estar tranquilos, do que com muitos que estão nas chamas do inferno. Portanto, não é porque Deus ignore suas impiedades, e não se ressinta delas, que não afrouxa suas mãos e os elimina. Deus não é de forma alguma como eles, embora possam o imaginar assim. A sua ira arde contra eles, sua condenação não dorme; o abismo está preparado, o fogo está pronto, o forno já está quente, pronto para recebê-los; as chamas ora rugem e brilham. A espada reluzente está afiada, e suspensa sobre eles, o abismo abriu sua boca debaixo deles.
5. O diabo está pronto para cair sobre eles, e abatê-los como sua possessão, no momento em que Deus o permitir. Eles lhe pertencem; tem suas almas em sua posse, e sob seu domínio. A Escritura os representa como seus bens (Lc 11.12). Os demônios os espreitam, estão sempre a sua mão direita; permanecem aguardando por eles, como leões famintos que veem a presa, e esperam tê-la, mas, no momento, são contidos. Se Deus retirasse sua mão, pela qual são restringidos, num momento voariam sobre suas pobres almas. A velha serpente os espreita, o inferno escancara sua boca para recebê-los. Se Deus o permitisse, seriam rapidamente engolidos e estariam perdidos.
6. Reinam nas almas dos ímpios aqueles princípios infernais, que agora mesmo os inflamariam e incendiariam no fogo do inferno, se Deus não os restringisse. Há posto na própria natureza do homem carnal um fundamento para os tormentos do inferno. Há aqueles princípios corruptos, com poder reinante, e em plena posse deles, que são as sementes do fogo do inferno. Estes são princípios ativos e poderosos, extremamente violentos em sua natureza, e não fosse pela mão restringente de Deus sobre tais princípios, logo explodiriam, se inflamariam à semelhança do que as mesmas corrupções e a mesma inimizade fazem nos corações das almas condenadas, e gerariam os mesmos tormentos que geram naquelas. As almas dos ímpios são comparadas na Escritura ao mar agitado (Is 57:20). No momento, Deus restringe a impiedade deles pelo seu imenso poder, assim como faz às ondas raivosas do mar enfurecido, dizendo: (Jó 38:11): até aqui virás e não mais adiante.” Mas, se Deus retirasse esse poder restringente, logo ela carregaria tudo diante de si. O pecado é a ruína e a miséria da alma. É destrutivo em sua natureza, e, se Deus o deixasse sem restrição, nada mais seria necessário para tornar a alma perfeitamente miserável. A corrupção do coração humano é ilimitada e desmedida em sua fúria. Enquanto os ímpios vivem aqui, é como o fogo preso pelas restrições de Deus, de outro modo, se fosse deixada livre, poria em chamas o curso da natureza. E, assim como o coração agora é um poço de pecado, se este não fosse restringido, imediatamente tornaria a alma em um forno ardente, em uma fornalha de fogo e enxofre.
7. Não representa segurança para os ímpios, nem sequer por um instante, que não haja meios visíveis de morte às vistas. Não representa segurança para um homem natural que esteja agora com saúde, e que não veja por que modo poderia partir de imediato do mundo por um acidente, e que não haja nenhum perigo visível em suas circunstâncias. A manifesta e contínua experiência do mundo, em todas as eras, mostra que isso tudo não é evidência de que um homem não esteja agora mesmo às margens da eternidade, e que seu próximo passo não será no outro mundo. Os meios invisíveis e impensáveis das pessoas repentinamente saírem do mundo são inumeráveis e inconcebíveis. Os não convertidos andam sobre o abismo do inferno em uma superfície podre, e há inúmeros lugares nela que são frágeis e não suportarão seus pesos, e estes lugares não são percebidos. As flechas da morte voam invisíveis ao meio dia; a vista mais acurada não as vê. Deus tem tão diferentes e insondáveis meios de tirar os ímpios do mundo e mandá-los ao inferno, que não há nada que faça crer que necessite de um milagre, ou que precise sair do curso ordinário de sua providência, para destruir um ímpio no momento em que desejar. Todos os meios de arrancar os ímpios do mundo estão de tal modo nas Suas mãos, e tão completa e absolutamente sujeitos a seu poder e determinação, que se ele nunca fizesse uso de meios, e estes estivessem excluídos desta consideração, isto de modo algum faria com que a ida repentina dos ímpios ao inferno dependesse menos da mera vontade de Deus.
8. A prudência dos homens naturais e seu cuidado para preservar a própria vida, ou o cuidado de outros para preservá-las, não os assegura nem por um instante. A isto também a providência divina e a experiência universal prestam abundante testemunho. Há clara evidência de que a própria sabedoria dos homens não os livra da morte; pois se assim o fosse veríamos alguma diferença entre os sábios e prudentes do mundo, e os demais, com relação à susceptibilidade para uma morte repentina e inesperada. Mas, como é de fato? Morre o sábio, e da mesma sorte, o estulto! (Ec 2:16)
9. Todos os esforços e esquemas que os ímpios usam para escapar do inferno, ao mesmo tempo em que insistem em rejeitar a Cristo, e permanecem, portanto, na impiedade, não os assegura um só instante do inferno. Quase todo homem natural que ouve acerca do inferno, se gaba[i] de que escapará dele. Ele depende de si próprio para a sua segurança e se exalta naquilo que faz, no que está fazendo, ou no que pretende fazer. Cada um esquematiza as coisas em sua mente sobre como evitará a condenação, e se exalta de que planejou muito bem para si mesmo, e que seu esquema não falhará. Ouvem, na verdade, que poucos são salvos, e que a maior parte dos que já morreram foram para o inferno. Contudo, cada um imagina que ajustou as coisas melhor para o seu escape do que os outros. Ele não pretende vir a esse lugar de tormento e diz consigo mesmo que pretende ter um cuidado efetivo e ordenar as coisas de modo que não haja falha.
Mas os tolos filhos dos homens iludem-se miseravelmente em seus próprios esquemas e na confiança em sua própria força e sabedoria. Eles não confiam senão numa sombra. A maior parte dos que viveram até aqui, sob os mesmos meios de graça, e agora estão mortos, sem dúvida foram para o inferno. E isto não aconteceu porque não fossem tão sábios quanto os que estão vivos; não foi porque não tenham ordenado bem as coisas para assegurar seu escape. Se pudéssemos falar com eles, e questioná-los um por um quanto a se esperavam, quando vivos, e quando ouviam sobre o inferno, ser eles próprios objetos dessa miséria, sem dúvidas ouviríamos todos replicarem: “Não, jamais pretendi chegar aqui. Eu tinha ajeitado as coisas de outra forma em minha mente. Pensei que tinha planejado bem, que meu esquema era bom. Desejava tomar cuidado de verdade; mas tudo aconteceu inesperadamente. Não esperava por aquilo então, nem daquele modo. Veio como ladrão. A morte me surpreendeu; a ira de Deus foi rápida demais para mim. Ó, minha maldita tolice! Estava me gabando, e me agradando com vãos sonhos sobre o que faria no futuro; e quando dizia: Paz e segurança, veio sobre mim repentina destruição.”
10. Deus não se impôs nenhuma obrigação, por nenhuma promessa, de manter os não convertidos fora do inferno sequer por um momento. Ele certamente não fez promessas, seja de vida eterna, ou libertação e preservação da morte eterna, a não ser as que estão contidas no pacto da graça, as promessas que são dadas em Cristo, em quem todas as promessas são o sim e o amém. Mas certamente aqueles que não são filhos do pacto, não têm interesse nas promessas do pacto da graça; estes que não creem nelas, e nem têm interesse no Mediador do pacto.
De modo que, ainda que alguns tenham imaginado e pretendido muitas coisas sobre as promessas feitas aos homens naturais que sinceramente buscam e batem [à porta], está claro e manifesto que, por maiores esforços que o homem natural tome na religião, sejam quais forem suas preces, até que creiam em Cristo, Deus não tem obrigação alguma de salvá-los da destruição eterna.
Portanto, o fato é que os não convertidos estão seguros pela mão de Deus sobre o abismo do inferno. Eles merecem o lago de fogo, e já estão sentenciados a ele. Deus está terrivelmente provocado, sua ira contra eles é tão grande quanto para com os que já estão sofrendo agora a execução da fúria de sua ira no inferno, e eles nada fazem nem ao menos para dirimir ou aplacar essa ira. Nem Deus está minimamente preso por qualquer promessa de sustentá-los sequer por um instante. O diabo espera por eles, o inferno escancara sua boca por eles, as chamas se ajuntam e queimam ardentemente à sua espera, para engoli-los. O fogo latente em seus corações está lutando para explodir, e eles continuam sem interesse em qualquer Mediador. Não há, portanto, meio algum às vistas para livrá-los. Em suma, eles não têm refúgio, nada em que possam se segurar. Tudo o que os preserva a cada momento é a mera vontade livre e a clemência desobrigada e desimpedida de um Deus indignado.

Aplicação

Este assunto terrível pode ser útil para despertar as pessoas não convertidas desta congregação. Isso que vocês ouviram é a situação de todos que estiverem fora de Cristo. Esse mundo de miséria, esse lago de enxofre incandescente, está estendido amplamente debaixo de vocês. Há o terrível abismo das brilhantes chamas da ira de Deus. A boca do inferno encontra-se escancaradamente aberta, e vocês não têm nada para se apoiar, nem coisa alguma em que possam se segurar. Não há nada entre vocês e o inferno senão o ar, e é apenas o poder e a mera boa vontade de Deus que os sustenta.
É provável que não estejam cientes destas coisas, pois descobrem que estão fora do inferno, mas não veem a mão de Deus nisso. Olham para as outras coisas, como o bom estado dos seus corpos físicos, o cuidado com suas vidas, e os meios que usam para a própria preservação. Mas essas coisas, na verdade, nada são, pois se Deus retirasse sua mão, elas teriam tanto valor para impedir as suas quedas quanto tem o ar rarefeito para sustentar uma pessoa que está suspensa nele.
Suas iniquidades os tornam tão pesados quanto o chumbo, e os empurram para baixo com grande peso e pressão em direção ao inferno. Se Deus permitisse, imediatamente afundariam e rapidamente desceriam e mergulhariam no mar sem fundo. A boa saúde e o cuidado e prudência que mantêm, e os melhores esquemas, e toda a justiça teriam tanta influência para preservá-los e mantê-los fora do inferno, quanto uma teia de aranha é capaz de deter uma avalanche de pedras. Não fosse pela boa vontade soberana de Deus, a terra não os suportaria por um só momento, pois são um fardo para ela. A criação geme por sua causa. Ela está sujeita ao cativeiro da corrupção involuntariamente. Não é de boa vontade que o sol brilha sobre suas cabeças, para que tenham luz para servir ao pecado e a Satanás. A terra não dá voluntariamente seus frutos para satisfazer suas luxúrias, nem é de boa vontade que serve de palco para que cometam iniquidades. Não é de bom grado que o ar serve para manter a chama da vida em suas narinas, enquanto vocês gastam suas vidas no serviço dos inimigos de Deus. A criação de Deus é boa, e foi feita para que o homem servisse a Ele por meio dela, e não é de bom grado que serve a outros propósitos, e geme quando é abusada com propósitos tão diretamente contrários à sua natureza e fim. O mundo os cuspiria, não fosse a mão soberana daquele que o sujeitou na esperança [da redenção].
Eis as nuvens negras da ira de Deus pairando agora sobre suas cabeças, carregadas de terrível tempestade, e cheias de trovões, e não fosse a mão restringente de Deus, elas imediatamente arrebentariam sobre vocês. A graça soberana de Deus, no momento, refreia esse vento impetuoso, pois, de outro modo, ele viria com fúria, e sua destruição viria como um redemoinho, e vocês seriam como a palha que o vento dispersa.
A ira de Deus é como grandes águas que estão represadas agora. Ela aumenta mais e mais, e fica mais e mais elevada, até que chega ao limite; e quanto mais é impedida, mais rápido e poderoso é seu curso quando é liberada. É verdade que o julgamento contra suas más obras não foi executado ainda; o ímpeto da vingança de Deus tem sido segurado. Mas, enquanto isso, as suas culpas constantemente aumentam, e a cada dia vocês entesouram mais ira. As águas estão constantemente crescendo, e aumentam diariamente com mais força, e não há nada, senão a mera boa vontade de Deus, capaz de deter o que não quer ser detido e se esforça para continuar. Se Deus apenas retirasse sua mão das comportas do dilúvio, elas imediatamente se abririam, e as ígneas ondas da fúria e ira de Deus, se derramariam com fúria inconcebível, e viriam sobre vocês com poder onipotente. E se suas forças fossem dez mil vezes maiores, sim, ainda que fossem dez mil vezes mais fortes que o mais resistente e tenaz demônio no inferno, isto nada representaria e nem poderiam suportá-las.
O arco da ira de Deus está curvado, e a flecha ajustada no cordel. A justiça mira a flecha nos seus corações, e estica o arco, e nada, a não ser a mera boa vontade de Deus, de um Deus irado, sem qualquer promessa ou obrigação alguma, é que impede a flecha de a qualquer instante beber o sangue de vocês.
Assim, todos vocês que jamais passaram por uma grande mudança de coração, pelo poderoso poder do Espírito de Deus sobre suas almas; todos os que nunca nasceram de novo, nem foram feitos novas criaturas, e nunca foram ressuscitados da morte no pecado para um novo estado, nem antes experimentaram uma nova luz e vida, estão nas mãos de um Deus irado. Ainda que tenham reformado suas vidas em muitos aspectos, e experimentado afeições religiosas, e possivelmente mantido uma forma de religião entre suas famílias e parentes, e na casa de Deus, não é nada senão sua mera boa vontade que impede que sejam agora mesmo consumidos na destruição eterna.
Ainda que estejam pouco convencidos agora da verdade que ouvem, a seu tempo serão plenamente convencidos dela. Vejam que ocorreu o mesmo com aqueles que partiram nas mesmas condições que vocês estão agora; pois a destruição veio repentinamente sobre a maior parte deles, quando não a esperavam e enquanto diziam: “Paz e segurança”. Agora veem que aquelas coisas de que dependiam para sua paz e segurança nada mais eram do que ar rarefeito e sombras vazias.
O Deus que os sustenta sobre o abismo do inferno, à semelhança de alguém que segura uma aranha, ou qualquer inseto asqueroso sobre o fogo, os aborrece, e está terrivelmente provocado. Sua ira contra vocês arde como fogo; ele os vê como dignos de nada mais, senão de serem lançados no fogo. Ele é tão puro de olhos que não pode encará-los de frente; vocês são aos seus olhos mais abomináveis que a serpente mais odiosa é aos nossos. Vocês o ofenderam infinitamente mais que um rebelde obstinado ofende a seu príncipe; contudo, não é nada, senão a sua mão, que os impede de cair no fogo a qualquer momento. Não pode ser atribuído a nada mais o fato de vocês não terem ido ao inferno na noite passada; que tenham sido permitidos acordar novamente neste mundo, depois que fecharam os olhos para dormir. E não há outra razão para explicar o porquê de não terem caído no inferno desde o momento que acordaram esta manhã, senão que a mão de Deus os tenha sustentado. Não há outra razão a ser dada para explicar o porquê de não terem ido ao inferno, desde o momento em que sentaram aqui, na casa de Deus, provocando seus olhos puros com o modo ímpio e pecaminoso de atenderem ao culto solene. Sim, nada mais pode ser dado como razão do porque vocês não são agora mesmo lançados no inferno.
Ó pecador! Considere o temível perigo em que você se encontra: é sobre uma grande fornalha de ira, um abismo largo e sem fundo, cheio do fogo da ira, que você está seguro pela mão de Deus, cuja ira está tão provocada e acendida contra você quanto está contra os condenados do inferno. Você está suspenso por uma linha fina, com as chamas da ira divina lampejando em volta, e prontas a todo momento para queimá-lo, e consumi-lo por completo; e você ainda não tem qualquer interesse em um Mediador, e nada para se agarrar que possa salvá-lo, nada que retire de você as chamas de ira, nada de si mesmo, nada que tenha feito, nem que possa fazer para induzir Deus a poupá-lo um só instante. E considere aqui mais particularmente:
1. De quem é essa ira: é a ira do Deus infinito. Se fosse apenas ira de homem, ainda que do mais poderoso governante, seria comparativamente pequena para ser temida. A ira dos reis é muito mais temida, especialmente dos monarcas absolutistas, que têm as posses e vidas de seus súditos completamente em seus domínios, a serem dispostas conforme desejarem: “Como o bramido do leão, é o terror do rei; o que lhe provoca a ira peca contra a sua própria vida.” (Pv 20:2) O súdito que levar à ira um príncipe arbitrário, está sujeito a sofrer os mais extremos tormentos que a arte humana possa inventar, ou o poder humano seja capaz de infligir. Mas o maior dos poderes terrenos, em toda sua majestade e poder, e quando vestidos com os maiores terrores, não são senão frágeis e desprezíveis vermes do pó, em comparação com o grande e poderoso Criador e Rei do céu e da terra. O que eles fazem na sua ira e quando estão revestidos pelo seu furor é pouco. Todos os reis da terra, diante de Deus, são como gafanhotos; são nada e menos do que nada: tanto o seu ódio quanto o seu amor são desprezíveis. A ira do grande Rei dos reis é tão superior à deles quanto é sua majestade: “Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer.  5 Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer. (Lc 12:4-5)
2. É à ferocidade de sua ira que você está exposto. Lemos com frequência acerca da ira de Deus que: “Segundo as obras deles, assim retribuirá; furor aos seus adversários.” (Is 59:18) Assim: Porque eis que o SENHOR virá em fogo, e os seus carros, como um torvelinho, para tornar a sua ira em furor e a sua repreensão, em chamas de fogo.” (Is 66:15) Também em muitos outros lugares. Assim, lemos do: “lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso.” (Ap 19:15) As palavras são deveras terríveis. Se houvesse sido apenas dito: “a ira de Deus,” as palavras já implicariam algo que é infinitamente terrível. Mas é “a fúria e ira de Deus.” A fúria de Deus! A cólera de Jeová! Oh, como deve ser terrível! Quem pode proferir ou conceber o que tais expressões trazem em si? Mas também se diz com frequência: “a fúria e ira do Deus Todo-Poderoso!” Como se fosse haver uma enorme manifestação de seu grande poder nos objetos de sua ira, como se a onipotência pudesse, por assim dizer, encolerizar-se, e ser exercida do mesmo modo que os homens costumam mostrar suas forças quando estão no máximo de sua ira. Oh! Então, qual será a consequência? O que será do pobre verme que a sofrerá? Que mãos serão fortes? E que corações suportarão? A que terrível, inexprimível e inconcebível profundidade de miséria as pobres criaturas objetos dela serão afundadas!
Considerem isso, vocês, que aqui estão hoje e ainda permanecem em um estado não regenerado. Que Deus executará o rigor de sua ira implica que a executará sem piedade. Quando Ele contemplar o extremo inexprimível do seu caso, e ver os seus tormentos como sendo tão vastamente desproporcionais às suas forças, e ver como suas pobres almas estão esmagadas, e afundadas, por assim dizer, em um mar infinito; então, não terá compaixão de vocês, não irá impedir a execução de sua ira, nem ao menos afrouxará Suas mãos. Não haverá moderação nem misericórdia de Sua parte, nem irá Deus, então, impedir seu vento impetuoso. Não se preocupará com o bem-estar de vocês, nem de forma alguma será cuidadoso de que não sofram muito de alguma outra maneira. Nada será aliviado, porque seja duro demais para vocês suportarem: “Pelo que também eu os tratarei com furor; os meus olhos não pouparão, nem terei piedade. Ainda que me gritem aos ouvidos em alta voz, nem assim os ouvirei.” (Ez 8:18) Agora, Deus está pronto a ter compaixão de vocês. Este é um dia de misericórdia, ainda podem clamar agora com algum encorajamento de que obterão misericórdia. Mas, uma vez que o dia da misericórdia tenha passado, seus mais lamentosos e dolorosos clamores e gritos serão em vão, pois estarão completamente perdidos e afastados de Deus, quanto a qualquer preocupação com o bem estar de vocês. Deus não lhes terá outro uso, a não ser fazer com que sofram a miséria. Continuarão a existir sem nenhum outro propósito; pois serão um vaso de ira preparado para a destruição; e não haverá outro uso para esse vaso, senão ser cheio de ira. Deus estará tão longe de apiedar-se de vocês quando clamarem a Ele, que apenas “rirá e zombará.” (Pv 1:25, 26)
Como são terríveis estas palavras, que são palavras do grande Deus: Pisei as uvas na minha ira; no meu furor, as esmaguei, e o seu sangue me salpicou as vestes e me manchou o traje todo.” (Is 63:3) Talvez seja impossível conceber palavras que tragam em si maiores manifestações destas três coisas, isto é, desprezo, ódio e ira de indignação. Se vocês clamarem a Deus por compaixão, Ele estará tão longe de se compadecer da sua dolorosa situação, ou mostrar-lhes a mínima preocupação ou favor que, ao contrário, apenas lhes esmagará com os pés. E embora saiba que não podem suportar o peso de sua onipotência esmagando vocês, contudo não se importará com isso, mas os esmagará sem piedade, até que sejam esmagados, e o sangue será salpicado sobre suas vestes a ponto de manchá-las por completo. Ele não apenas os odiará, mas os terá no maior desprezo: não será pensado em lugar algum apto para vocês, senão debaixo de seus pés, para serem pisados como a lama das ruas.
3. A miséria a que vocês estão expostos é a que Deus infligirá com o propósito de mostrar qual é a ira de Jeová. Deus dispôs em seu próprio coração mostrar a anjos e homens tanto a excelência de seu amor quanto a horror de sua ira. Às vezes, os reis terrenos se inclinam a mostrar como é terrível a ira deles, por meio de extremos castigos que executam naqueles que os provocam. Nabucodosor, aquele poderoso e soberbo monarca do império caldeu, se dispôs a mostrar sua ira quando se enfureceu contra Sadraque, Mesaque e Abede-Nego; e deu ordens para que a fornalha de fogo ardente fosse aquecida sete vezes mais do que antes. Sem dúvidas, as chamas foram levadas ao máximo da fúria que a arte humana poderia induzi-las. Mas o grande Deus também está disposto a mostrar sua ira, e magnificar sua terrível majestade e grande poder nos sofrimentos extremos de seus inimigos: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição. (Rm 9:22)
E, visto que este é seu desígnio, o que já determinou, isto é, mostrar como é terrível sua ira não restringida, a fúria e a cólera de Jeová, ele o fará e levará a cabo. Haverá algo a ser realizado e feito que será terrível para quem o testemunhar. Quando o grande e irado Deus houver se levantado e executado sua terrível vingança contra os pobres pecadores, e os miseráveis estiverem de fato sofrendo o peso e poder infinitos de sua indignação, então ele chamará o universo inteiro para contemplar essa terrível majestade e grande poder que deve ser visto então: “Batei no peito por causa dos campos aprazíveis e por causa das vinhas frutíferas.  Sobre a terra do meu povo virão espinheiros e abrolhos, como também sobre todas as casas onde há alegria, na cidade que exulta. O palácio será abandonado, a cidade populosa ficará deserta; Ofel e a torre da guarda servirão de cavernas para sempre, folga para os jumentos selvagens e pastos para os rebanhos.” etc. (Is 32:12-14)
Assim ocorrerá a vocês, que estão nesse estado de não convertidos, se nele persistirem; o poder infinito, a majestade e terror do Deus onipotente será magnificado sobre vocês, na força inefável de seus tormentos. Serão atormentados na presença dos santos anjos, e na presença do Cordeiro; e quando estiverem nesse estado de sofrimento, os gloriosos habitantes do céu se adiantarão e contemplarão o terrível espetáculo, para que vejam em que consiste a ira e fúria do Todo-Poderoso; e quando tiverem visto, se prostrarão e adorarão essa grande majestade e  poder: E será que, de uma Festa da Lua Nova à outra e de um sábado a outro, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o SENHOR. Eles sairão e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a carne. (Is 66:23)
4. É uma ira eterna. Será terrível sofrer esta ira e fúria do Deus todo-poderoso por um momento, mas vocês devem sofrê-la eternamente. Não haverá fim para esta miséria horrível e extrema. Quando olharem adiante, verão uma longa eternidade, uma jornada infindável adiante de vocês, que engolirá seus pensamentos e confundirá suas almas; e se desesperarão de qualquer espécie de libertação, fim, ou de qualquer mitigação ou alívio. Saberão que deverão suportar longas eras, milhões de milhões de eras, em luta e conflito com esta poderosa vingança impiedosa; e então, quando isso acontecer, quando muitas eras realmente passarem desse modo, saberão que isso tudo não representa senão um ponto em relação ao que resta. De modo que o castigo de vocês será de fato infinito. Ó, quem pode expressar qual será o estado de uma alma em tais circunstâncias! Tudo o que podemos dizer a esse respeito não dá senão uma vislumbre fraco e imperfeito daquilo que é inexprimível e inconcebível: pois “quem conhece o poder da ira de Deus?
Como é terrível o estado dos que estão diariamente e a toda hora em perigo desta grande ira e infinita miséria! Mas este é o desastroso caso de cada alma nesta congregação que ainda não nasceu de novo, ainda que seja moral e rigorosa, sóbria e religiosa. Ó, considere isso, quer seja jovem ou velho! Há razão para pensar que há muitos agora, nesta congregação, ouvindo este discurso, que serão objetos desta mesma miséria por toda a eternidade. Não sabemos quem são, ou os bancos onde estão assentados, ou que pensamentos agora têm. Pode ser que estejam agora relaxados, e ouçam tudo isso sem muita preocupação, e se gabem que não sejam essas pessoas, prometendo a si mesmos que escaparão. Se soubéssemos que há uma pessoa, apenas uma, em toda a congregação, que deve ser objeto dessa miséria, como seria terrível pensar nisso! Se soubéssemos quem era, que visão terrível seria para tal pessoa! Como seria poderoso o clamor lamentável e amargo que o resto da congregação lançaria por ela! Mas, em vez de um, não é provável que muitos se lembrem deste discurso no inferno? E seria por demais maravilhoso se alguns dos que aqui se encontram agora devam estar no inferno em pouco tempo, talvez antes que o ano se acabe? E não seria incrível se algumas pessoas, que agora estão assentadas em alguns dos bancos desta igreja, saudáveis, tranquilas e seguras, estejam lá amanhã de manhã. Aqueles de vocês que persistirem até o fim em um estado natural, que se mantiveram por muito tempo fora do inferno, lá estarão em pouco tempo! A sua condenação não dorme; virá rapidamente, e provavelmente, muito repentinamente, sobre muitos de vocês. Há razão para se maravilharem que não estejam agora mesmo no inferno. Esse certamente é o caso de alguns a quem conheceram e viram, que nunca mereceram o inferno mais do que vocês, e que até aqui pareciam ter tanta chance de estar vivos como vocês. A esperança deles se foi; estão chorando em extrema miséria e perfeito desespero. Mas aqui estão vocês, na terra dos vivos e na casa de Deus, e com oportunidade de obter a salvação. O que não dariam essas pobres e desesperadas almas condenadas por uma oportunidade de um dia como agora vocês têm?
E agora têm uma oportunidade extraordinária, um dia em que Cristo abriu largamente a porta da misericórdia, e de pé chama e clama em alta voz aos pobres pecadores. Um dia em que muitos se reúnem a ele, e se esforçam pelo reino de Deus. Muitos vêm diariamente do oriente, ocidente, norte e sul; muitos que outrora estiveram nas mesmas condições miseráveis em que vocês se encontram, agora estão em um feliz estado, com seus corações cheios de amor por aquele que os amou, e os lavou dos seus pecados em seu próprio sangue, e regozijam-se na esperança da glória de Deus. Como é terrível ser deixado para trás em tal dia! Ver tantos festejando, enquanto vocês sofrem e perecem! Ver tantos se regozijando e cantando alegres cantos de coração, enquanto vocês tem razão para prantear pela tristeza do coração, e ulular pela tristeza de espírito! Como podem descansar um só momento em tal condição? As suas almas não são tão preciosas quanto às dos cidadãos de Suffield, que estão dia após dia se reunindo a Cristo?
Não há muitos aqui que viveram por muito tempo no mundo, e até hoje não nasceram de novo? E estão por esse motivo alienados da comunidade de Israel, e nada fizeram enquanto viveram senão entesourar ira para o dia da ira? Ó, senhores, a situação de vocês é, de modo especial, extremamente perigosa. A sua culpa e dureza de coração é grande em extremo. Não veem vocês como a maior parte dos de sua idade já faleceram e partiram, na atual dispensação notável e maravilhosa da misericórdia de Deus? Vocês precisam considerar o seu caso, e despertar completamente do sono. Vocês não podem suportar a fúria e ira do Deus infinito.
E vocês, rapazes e moças, negligenciarão este precioso tempo que agora desfrutam, quando tantos de sua idade estão renunciando às vaidades juvenis e ajuntando-se a Cristo? Vocês, em especial, agora têm uma oportunidade extraordinária; mas se a negligenciarem, logo acontecerá com vocês o mesmo que com aquelas pessoas que gastaram os preciosos dias de sua juventude no pecado, e agora vieram a dar um terrível passo na cegueira e endurecimento.
E vocês, crianças, que ainda não são convertidas, não sabem que estão indo para o inferno, suportar a terrível ira desse Deus, que agora está irado com vocês noite e dia? Vocês se contentarão em serem filhas do diabo, quando tantas outras crianças na nossa terra estão sendo convertidas, e tornando-se as santas e felizes crianças do Rei dos reis?
E que todos os que ainda se encontram fora de Cristo, pendurados sobre o abismo do inferno, quer sejam velhos e velhas, de meia idade, ou jovens, ou crianças, agora ouçam os altos chamados da palavra e da providência de Deus. Este ano aceitável do Senhor, um dia de tão grande favor para alguns, sem dúvidas será dia de vingança igualmente notável para outros. O coração dos homens endurece e suas culpas aumentam rapidamente em dias como estes, se negligenciarem suas almas; e jamais houve época de tão grande perigo de tais pessoas serem entregues à dureza de coração e cegueira de mente. Deus parece agora estar ajuntando rapidamente seus eleitos em todas as partes da nação; e é provável que a maior parte dos adultos que alguma vez serão salvos, sejam atraídos em pouco tempo, e que será como foi no grande derramamento do Espírito sobre os judeus nos dias dos apóstolos. Os eleitos serão salvos e os demais  serão cegos. Se isso ocorrer a vocês, amaldiçoarão eternamente este dia, e o dia em que nasceram, por terem visto o tempo de derramamento do Espírito de Deus, e desejarão ter morrido e ido ao inferno sem tê-lo visto. Agora, sem dúvidas, ocorre o mesmo que nos dias de João Batista; o machado se encontra de modo extraordinário posto na raiz das árvores, e toda árvore que não produz bons frutos, será cortada e lançada no fogo.
Portanto, que todos os que estão fora de Cristo, agora acordem e fujam da ira do porvir. A ira do Deus Todo-Poderoso agora, sem dúvidas, está suspensa sobre grande parte desta congregação. Que todos fujam de Sodoma: “apressem-se e fujam por suas vidas, não olhem para trás, escapem para a montanha, para que não sejam consumidos.



[i] No original, flatters himself. O sentido, Segundo o Oxford English Dictionary é: inspirar-se com esperança, geralmente sem bases seguras. (N. T.)