segunda-feira, 10 de março de 2014

PECADORES NAS MÃOS DE UM DEUS IRADO


PECADORES NAS MÃOS DE UM DEUS IRADO

A seu tempo, quando resvalar o seu pé.” (Deuteronômio 32:35)

Neste versículo, a vingança de Deus é ameaçada sobre os israelitas ímpios e incrédulos que, embora fossem o povo visível de Deus, e vivessem debaixo dos meios de graça, e apesar de todas as obras maravilhosas de Deus em benefício deles, permaneciam (conforme o versículo 28) sem juízo e entendimento. Com todo o cultivo do céu, nada produziram senão fruto venenoso e amargo, conforme afirmam os dois versículos que precedem o texto. A expressão que escolhi para minha exposição, “a seu tempo, quando resvalar o seu pé”, parece implicar o seguinte, relacionado à punição e destruição a que aqueles ímpios israelitas estavam expostos:
1. Que estavam sempre expostos à destruição; da mesma maneira que alguém que permanece ou anda em lugares escorregadios está sempre exposto à queda. Isso está implícito na maneira em que a destruição vem sobre eles, sendo representada pelos seus pés escorregando. O mesmo é expresso no Salmo 73.18: “Tu certamente os pões em lugares escorregadios e os fazes cair na destruição.
2. Implica que estavam sempre expostos à súbita e inesperada destruição. À semelhança do que anda em lugares escorregadios e está, a todo instante, sujeito a cair, não podendo prever em momento algum se, no próximo, estará de pé ou no chão; e, quando cai, cai imediatamente e sem aviso. Isso também está expresso no Salmo 73.18-19: “Tu certamente os pões em lugares escorregadios e os fazes cair na destruição. Como ficam de súbito assolados, totalmente aniquilados de terror!
3. Outra coisa implícita é que estão sujeitos a cair por si mesmos, sem serem derrubados pela mão de outrem. Da mesma maneira que o que permanece ou anda em terreno escorregadio de nada precisa além do próprio peso para derrubá-lo.
4. Que a razão de ainda não haverem caído, e de não caírem agora, é apenas que o tempo apontado por Deus não é chegado. Pois está dito que quando esse tempo devido ou designado chegar, seu pé resvalará. Então, serão abandonados à queda, a qual já estão inclinados por seu próprio peso. Deus não mais os sustentará nestes lugares escorregadios, mas os abandonará. E então, neste exato instante, cairão na destruição, à semelhança do que permanece em ladeiras escorregadias, sobre a beira de um precipício, não pode permanecer sozinho e, quando é abandonado, imediatamente cai e está perdido.
A observação a partir destas palavras que agora insistirei é:

Doutrina

Não há nada que mantenha os ímpios um só momento fora do inferno, senão a mera boa vontade de Deus.
Por ‘mera boa vontade’ de Deus, refiro-me a sua boa vontade soberana, sua vontade livre, imune a obrigações, não sujeita a impedimento algum, nem qualquer outra coisa, como se nada, a não ser a boa vontade de Deus, tivesse qualquer papel na preservação dos ímpios, a todo instante. A verdade desta observação poderá se evidenciar pelas seguintes observações:
1. Não falta poder a Deus para lançar os ímpios, a qualquer momento, no inferno. Quando Ele se levanta, as mãos humanas não podem ser fortes. Os mais fortes não têm poder algum para lhe resistir, nem podem se libertar de suas mãos. Ele é não apenas capaz de lançar os ímpios no inferno, mas pode fazê-lo com a maior facilidade. Às vezes, um príncipe terreno encontra grande dificuldade em subjugar um rebelde que encontrou meios de se fortificar, e se fortaleceu pelo número de seus seguidores. Mas isso não ocorre com Deus. Não há fortaleza que seja defesa contra o Seu poder. Ainda que as mãos se juntem, e vastas multidões de inimigos de Deus se combinem e associem, são facilmente esmiuçados em pedaços. São como grandes montes de palha seca e leve diante do furacão; ou grandes quantidades de restolho seco diante de chamas devoradoras. Achamos fácil pisar e esmagar um verme que vemos rastejar no chão; da mesma forma é fácil cortar ou queimar um fio fino que sustenta algo. Assim também é fácil para Deus, quando lhe agrada, lançar seus inimigos nas profundezas do inferno. Quem somos nós, para que pensemos permanecer perante este, diante de cuja repreensão a terra treme, e diante de quem as rochas são subjugadas?
2. Eles merecem ser lançados no inferno; de modo que a justiça divina jamais se interpõe, e não é um impedimento para que Deus use seu poder a qualquer momento para destruí-los. Na verdade, ao contrário, a justiça clama alto por punição infinita pelos seus pecados. A justiça divina fala acerca da árvore que produz uvas como as de Sodoma: “podes cortá-la; para que está ela ainda ocupando inutilmente a terra?” (Lc 13:7) A espada da justiça divina está a todo momento se revolvendo sobre suas cabeças, e não é nada, senão a mão da misericórdia livre de Deus, e a Sua mera vontade, que a segura.
3. Eles já estão sob uma sentença de condenação ao inferno. Não apenas merecem, com justiça, ser lançados lá, mas a sentença da lei de Deus, essa eterna e imutável regra da justiça que Deus fixou entre si e a humanidade, é posta contra eles, e permanece em oposição a eles; de modo que já estão destinados ao inferno. O que não crê já está julgado” (Jo 3:18). Desse modo, todo homem não convertido pertence propriamente ao inferno. Lá é o seu lugar; de lá ele procede (“Vós sois cá de baixo” [Jo 8.23]) e para lá está destinado; é o lugar ao qual a justiça, e a palavra de Deus, e a sentença de sua lei imutável, o destinam.
4. Eles são agora os objetos do mesmo furor e ira de Deus, que são expressos nos tormentos do inferno. E a razão pela qual não descem para lá a qualquer instante não é porque Deus, em cujo poder se encontram, não esteja muito irado com eles, como está com as muitas miseráveis criaturas agora atormentadas no inferno, que lá sentem e suportam a fúria de sua ira. Na verdade, Deus está muito mais irado com muitos que estão agora na terra; sim, sem dúvida, com muitos que estão agora nesta congregação, que podem estar tranquilos, do que com muitos que estão nas chamas do inferno. Portanto, não é porque Deus ignore suas impiedades, e não se ressinta delas, que não afrouxa suas mãos e os elimina. Deus não é de forma alguma como eles, embora possam o imaginar assim. A sua ira arde contra eles, sua condenação não dorme; o abismo está preparado, o fogo está pronto, o forno já está quente, pronto para recebê-los; as chamas ora rugem e brilham. A espada reluzente está afiada, e suspensa sobre eles, o abismo abriu sua boca debaixo deles.
5. O diabo está pronto para cair sobre eles, e abatê-los como sua possessão, no momento em que Deus o permitir. Eles lhe pertencem; tem suas almas em sua posse, e sob seu domínio. A Escritura os representa como seus bens (Lc 11.12). Os demônios os espreitam, estão sempre a sua mão direita; permanecem aguardando por eles, como leões famintos que veem a presa, e esperam tê-la, mas, no momento, são contidos. Se Deus retirasse sua mão, pela qual são restringidos, num momento voariam sobre suas pobres almas. A velha serpente os espreita, o inferno escancara sua boca para recebê-los. Se Deus o permitisse, seriam rapidamente engolidos e estariam perdidos.
6. Reinam nas almas dos ímpios aqueles princípios infernais, que agora mesmo os inflamariam e incendiariam no fogo do inferno, se Deus não os restringisse. Há posto na própria natureza do homem carnal um fundamento para os tormentos do inferno. Há aqueles princípios corruptos, com poder reinante, e em plena posse deles, que são as sementes do fogo do inferno. Estes são princípios ativos e poderosos, extremamente violentos em sua natureza, e não fosse pela mão restringente de Deus sobre tais princípios, logo explodiriam, se inflamariam à semelhança do que as mesmas corrupções e a mesma inimizade fazem nos corações das almas condenadas, e gerariam os mesmos tormentos que geram naquelas. As almas dos ímpios são comparadas na Escritura ao mar agitado (Is 57:20). No momento, Deus restringe a impiedade deles pelo seu imenso poder, assim como faz às ondas raivosas do mar enfurecido, dizendo: (Jó 38:11): até aqui virás e não mais adiante.” Mas, se Deus retirasse esse poder restringente, logo ela carregaria tudo diante de si. O pecado é a ruína e a miséria da alma. É destrutivo em sua natureza, e, se Deus o deixasse sem restrição, nada mais seria necessário para tornar a alma perfeitamente miserável. A corrupção do coração humano é ilimitada e desmedida em sua fúria. Enquanto os ímpios vivem aqui, é como o fogo preso pelas restrições de Deus, de outro modo, se fosse deixada livre, poria em chamas o curso da natureza. E, assim como o coração agora é um poço de pecado, se este não fosse restringido, imediatamente tornaria a alma em um forno ardente, em uma fornalha de fogo e enxofre.
7. Não representa segurança para os ímpios, nem sequer por um instante, que não haja meios visíveis de morte às vistas. Não representa segurança para um homem natural que esteja agora com saúde, e que não veja por que modo poderia partir de imediato do mundo por um acidente, e que não haja nenhum perigo visível em suas circunstâncias. A manifesta e contínua experiência do mundo, em todas as eras, mostra que isso tudo não é evidência de que um homem não esteja agora mesmo às margens da eternidade, e que seu próximo passo não será no outro mundo. Os meios invisíveis e impensáveis das pessoas repentinamente saírem do mundo são inumeráveis e inconcebíveis. Os não convertidos andam sobre o abismo do inferno em uma superfície podre, e há inúmeros lugares nela que são frágeis e não suportarão seus pesos, e estes lugares não são percebidos. As flechas da morte voam invisíveis ao meio dia; a vista mais acurada não as vê. Deus tem tão diferentes e insondáveis meios de tirar os ímpios do mundo e mandá-los ao inferno, que não há nada que faça crer que necessite de um milagre, ou que precise sair do curso ordinário de sua providência, para destruir um ímpio no momento em que desejar. Todos os meios de arrancar os ímpios do mundo estão de tal modo nas Suas mãos, e tão completa e absolutamente sujeitos a seu poder e determinação, que se ele nunca fizesse uso de meios, e estes estivessem excluídos desta consideração, isto de modo algum faria com que a ida repentina dos ímpios ao inferno dependesse menos da mera vontade de Deus.
8. A prudência dos homens naturais e seu cuidado para preservar a própria vida, ou o cuidado de outros para preservá-las, não os assegura nem por um instante. A isto também a providência divina e a experiência universal prestam abundante testemunho. Há clara evidência de que a própria sabedoria dos homens não os livra da morte; pois se assim o fosse veríamos alguma diferença entre os sábios e prudentes do mundo, e os demais, com relação à susceptibilidade para uma morte repentina e inesperada. Mas, como é de fato? Morre o sábio, e da mesma sorte, o estulto! (Ec 2:16)
9. Todos os esforços e esquemas que os ímpios usam para escapar do inferno, ao mesmo tempo em que insistem em rejeitar a Cristo, e permanecem, portanto, na impiedade, não os assegura um só instante do inferno. Quase todo homem natural que ouve acerca do inferno, se gaba[i] de que escapará dele. Ele depende de si próprio para a sua segurança e se exalta naquilo que faz, no que está fazendo, ou no que pretende fazer. Cada um esquematiza as coisas em sua mente sobre como evitará a condenação, e se exalta de que planejou muito bem para si mesmo, e que seu esquema não falhará. Ouvem, na verdade, que poucos são salvos, e que a maior parte dos que já morreram foram para o inferno. Contudo, cada um imagina que ajustou as coisas melhor para o seu escape do que os outros. Ele não pretende vir a esse lugar de tormento e diz consigo mesmo que pretende ter um cuidado efetivo e ordenar as coisas de modo que não haja falha.
Mas os tolos filhos dos homens iludem-se miseravelmente em seus próprios esquemas e na confiança em sua própria força e sabedoria. Eles não confiam senão numa sombra. A maior parte dos que viveram até aqui, sob os mesmos meios de graça, e agora estão mortos, sem dúvida foram para o inferno. E isto não aconteceu porque não fossem tão sábios quanto os que estão vivos; não foi porque não tenham ordenado bem as coisas para assegurar seu escape. Se pudéssemos falar com eles, e questioná-los um por um quanto a se esperavam, quando vivos, e quando ouviam sobre o inferno, ser eles próprios objetos dessa miséria, sem dúvidas ouviríamos todos replicarem: “Não, jamais pretendi chegar aqui. Eu tinha ajeitado as coisas de outra forma em minha mente. Pensei que tinha planejado bem, que meu esquema era bom. Desejava tomar cuidado de verdade; mas tudo aconteceu inesperadamente. Não esperava por aquilo então, nem daquele modo. Veio como ladrão. A morte me surpreendeu; a ira de Deus foi rápida demais para mim. Ó, minha maldita tolice! Estava me gabando, e me agradando com vãos sonhos sobre o que faria no futuro; e quando dizia: Paz e segurança, veio sobre mim repentina destruição.”
10. Deus não se impôs nenhuma obrigação, por nenhuma promessa, de manter os não convertidos fora do inferno sequer por um momento. Ele certamente não fez promessas, seja de vida eterna, ou libertação e preservação da morte eterna, a não ser as que estão contidas no pacto da graça, as promessas que são dadas em Cristo, em quem todas as promessas são o sim e o amém. Mas certamente aqueles que não são filhos do pacto, não têm interesse nas promessas do pacto da graça; estes que não creem nelas, e nem têm interesse no Mediador do pacto.
De modo que, ainda que alguns tenham imaginado e pretendido muitas coisas sobre as promessas feitas aos homens naturais que sinceramente buscam e batem [à porta], está claro e manifesto que, por maiores esforços que o homem natural tome na religião, sejam quais forem suas preces, até que creiam em Cristo, Deus não tem obrigação alguma de salvá-los da destruição eterna.
Portanto, o fato é que os não convertidos estão seguros pela mão de Deus sobre o abismo do inferno. Eles merecem o lago de fogo, e já estão sentenciados a ele. Deus está terrivelmente provocado, sua ira contra eles é tão grande quanto para com os que já estão sofrendo agora a execução da fúria de sua ira no inferno, e eles nada fazem nem ao menos para dirimir ou aplacar essa ira. Nem Deus está minimamente preso por qualquer promessa de sustentá-los sequer por um instante. O diabo espera por eles, o inferno escancara sua boca por eles, as chamas se ajuntam e queimam ardentemente à sua espera, para engoli-los. O fogo latente em seus corações está lutando para explodir, e eles continuam sem interesse em qualquer Mediador. Não há, portanto, meio algum às vistas para livrá-los. Em suma, eles não têm refúgio, nada em que possam se segurar. Tudo o que os preserva a cada momento é a mera vontade livre e a clemência desobrigada e desimpedida de um Deus indignado.

Aplicação

Este assunto terrível pode ser útil para despertar as pessoas não convertidas desta congregação. Isso que vocês ouviram é a situação de todos que estiverem fora de Cristo. Esse mundo de miséria, esse lago de enxofre incandescente, está estendido amplamente debaixo de vocês. Há o terrível abismo das brilhantes chamas da ira de Deus. A boca do inferno encontra-se escancaradamente aberta, e vocês não têm nada para se apoiar, nem coisa alguma em que possam se segurar. Não há nada entre vocês e o inferno senão o ar, e é apenas o poder e a mera boa vontade de Deus que os sustenta.
É provável que não estejam cientes destas coisas, pois descobrem que estão fora do inferno, mas não veem a mão de Deus nisso. Olham para as outras coisas, como o bom estado dos seus corpos físicos, o cuidado com suas vidas, e os meios que usam para a própria preservação. Mas essas coisas, na verdade, nada são, pois se Deus retirasse sua mão, elas teriam tanto valor para impedir as suas quedas quanto tem o ar rarefeito para sustentar uma pessoa que está suspensa nele.
Suas iniquidades os tornam tão pesados quanto o chumbo, e os empurram para baixo com grande peso e pressão em direção ao inferno. Se Deus permitisse, imediatamente afundariam e rapidamente desceriam e mergulhariam no mar sem fundo. A boa saúde e o cuidado e prudência que mantêm, e os melhores esquemas, e toda a justiça teriam tanta influência para preservá-los e mantê-los fora do inferno, quanto uma teia de aranha é capaz de deter uma avalanche de pedras. Não fosse pela boa vontade soberana de Deus, a terra não os suportaria por um só momento, pois são um fardo para ela. A criação geme por sua causa. Ela está sujeita ao cativeiro da corrupção involuntariamente. Não é de boa vontade que o sol brilha sobre suas cabeças, para que tenham luz para servir ao pecado e a Satanás. A terra não dá voluntariamente seus frutos para satisfazer suas luxúrias, nem é de boa vontade que serve de palco para que cometam iniquidades. Não é de bom grado que o ar serve para manter a chama da vida em suas narinas, enquanto vocês gastam suas vidas no serviço dos inimigos de Deus. A criação de Deus é boa, e foi feita para que o homem servisse a Ele por meio dela, e não é de bom grado que serve a outros propósitos, e geme quando é abusada com propósitos tão diretamente contrários à sua natureza e fim. O mundo os cuspiria, não fosse a mão soberana daquele que o sujeitou na esperança [da redenção].
Eis as nuvens negras da ira de Deus pairando agora sobre suas cabeças, carregadas de terrível tempestade, e cheias de trovões, e não fosse a mão restringente de Deus, elas imediatamente arrebentariam sobre vocês. A graça soberana de Deus, no momento, refreia esse vento impetuoso, pois, de outro modo, ele viria com fúria, e sua destruição viria como um redemoinho, e vocês seriam como a palha que o vento dispersa.
A ira de Deus é como grandes águas que estão represadas agora. Ela aumenta mais e mais, e fica mais e mais elevada, até que chega ao limite; e quanto mais é impedida, mais rápido e poderoso é seu curso quando é liberada. É verdade que o julgamento contra suas más obras não foi executado ainda; o ímpeto da vingança de Deus tem sido segurado. Mas, enquanto isso, as suas culpas constantemente aumentam, e a cada dia vocês entesouram mais ira. As águas estão constantemente crescendo, e aumentam diariamente com mais força, e não há nada, senão a mera boa vontade de Deus, capaz de deter o que não quer ser detido e se esforça para continuar. Se Deus apenas retirasse sua mão das comportas do dilúvio, elas imediatamente se abririam, e as ígneas ondas da fúria e ira de Deus, se derramariam com fúria inconcebível, e viriam sobre vocês com poder onipotente. E se suas forças fossem dez mil vezes maiores, sim, ainda que fossem dez mil vezes mais fortes que o mais resistente e tenaz demônio no inferno, isto nada representaria e nem poderiam suportá-las.
O arco da ira de Deus está curvado, e a flecha ajustada no cordel. A justiça mira a flecha nos seus corações, e estica o arco, e nada, a não ser a mera boa vontade de Deus, de um Deus irado, sem qualquer promessa ou obrigação alguma, é que impede a flecha de a qualquer instante beber o sangue de vocês.
Assim, todos vocês que jamais passaram por uma grande mudança de coração, pelo poderoso poder do Espírito de Deus sobre suas almas; todos os que nunca nasceram de novo, nem foram feitos novas criaturas, e nunca foram ressuscitados da morte no pecado para um novo estado, nem antes experimentaram uma nova luz e vida, estão nas mãos de um Deus irado. Ainda que tenham reformado suas vidas em muitos aspectos, e experimentado afeições religiosas, e possivelmente mantido uma forma de religião entre suas famílias e parentes, e na casa de Deus, não é nada senão sua mera boa vontade que impede que sejam agora mesmo consumidos na destruição eterna.
Ainda que estejam pouco convencidos agora da verdade que ouvem, a seu tempo serão plenamente convencidos dela. Vejam que ocorreu o mesmo com aqueles que partiram nas mesmas condições que vocês estão agora; pois a destruição veio repentinamente sobre a maior parte deles, quando não a esperavam e enquanto diziam: “Paz e segurança”. Agora veem que aquelas coisas de que dependiam para sua paz e segurança nada mais eram do que ar rarefeito e sombras vazias.
O Deus que os sustenta sobre o abismo do inferno, à semelhança de alguém que segura uma aranha, ou qualquer inseto asqueroso sobre o fogo, os aborrece, e está terrivelmente provocado. Sua ira contra vocês arde como fogo; ele os vê como dignos de nada mais, senão de serem lançados no fogo. Ele é tão puro de olhos que não pode encará-los de frente; vocês são aos seus olhos mais abomináveis que a serpente mais odiosa é aos nossos. Vocês o ofenderam infinitamente mais que um rebelde obstinado ofende a seu príncipe; contudo, não é nada, senão a sua mão, que os impede de cair no fogo a qualquer momento. Não pode ser atribuído a nada mais o fato de vocês não terem ido ao inferno na noite passada; que tenham sido permitidos acordar novamente neste mundo, depois que fecharam os olhos para dormir. E não há outra razão para explicar o porquê de não terem caído no inferno desde o momento que acordaram esta manhã, senão que a mão de Deus os tenha sustentado. Não há outra razão a ser dada para explicar o porquê de não terem ido ao inferno, desde o momento em que sentaram aqui, na casa de Deus, provocando seus olhos puros com o modo ímpio e pecaminoso de atenderem ao culto solene. Sim, nada mais pode ser dado como razão do porque vocês não são agora mesmo lançados no inferno.
Ó pecador! Considere o temível perigo em que você se encontra: é sobre uma grande fornalha de ira, um abismo largo e sem fundo, cheio do fogo da ira, que você está seguro pela mão de Deus, cuja ira está tão provocada e acendida contra você quanto está contra os condenados do inferno. Você está suspenso por uma linha fina, com as chamas da ira divina lampejando em volta, e prontas a todo momento para queimá-lo, e consumi-lo por completo; e você ainda não tem qualquer interesse em um Mediador, e nada para se agarrar que possa salvá-lo, nada que retire de você as chamas de ira, nada de si mesmo, nada que tenha feito, nem que possa fazer para induzir Deus a poupá-lo um só instante. E considere aqui mais particularmente:
1. De quem é essa ira: é a ira do Deus infinito. Se fosse apenas ira de homem, ainda que do mais poderoso governante, seria comparativamente pequena para ser temida. A ira dos reis é muito mais temida, especialmente dos monarcas absolutistas, que têm as posses e vidas de seus súditos completamente em seus domínios, a serem dispostas conforme desejarem: “Como o bramido do leão, é o terror do rei; o que lhe provoca a ira peca contra a sua própria vida.” (Pv 20:2) O súdito que levar à ira um príncipe arbitrário, está sujeito a sofrer os mais extremos tormentos que a arte humana possa inventar, ou o poder humano seja capaz de infligir. Mas o maior dos poderes terrenos, em toda sua majestade e poder, e quando vestidos com os maiores terrores, não são senão frágeis e desprezíveis vermes do pó, em comparação com o grande e poderoso Criador e Rei do céu e da terra. O que eles fazem na sua ira e quando estão revestidos pelo seu furor é pouco. Todos os reis da terra, diante de Deus, são como gafanhotos; são nada e menos do que nada: tanto o seu ódio quanto o seu amor são desprezíveis. A ira do grande Rei dos reis é tão superior à deles quanto é sua majestade: “Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer.  5 Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer. (Lc 12:4-5)
2. É à ferocidade de sua ira que você está exposto. Lemos com frequência acerca da ira de Deus que: “Segundo as obras deles, assim retribuirá; furor aos seus adversários.” (Is 59:18) Assim: Porque eis que o SENHOR virá em fogo, e os seus carros, como um torvelinho, para tornar a sua ira em furor e a sua repreensão, em chamas de fogo.” (Is 66:15) Também em muitos outros lugares. Assim, lemos do: “lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso.” (Ap 19:15) As palavras são deveras terríveis. Se houvesse sido apenas dito: “a ira de Deus,” as palavras já implicariam algo que é infinitamente terrível. Mas é “a fúria e ira de Deus.” A fúria de Deus! A cólera de Jeová! Oh, como deve ser terrível! Quem pode proferir ou conceber o que tais expressões trazem em si? Mas também se diz com frequência: “a fúria e ira do Deus Todo-Poderoso!” Como se fosse haver uma enorme manifestação de seu grande poder nos objetos de sua ira, como se a onipotência pudesse, por assim dizer, encolerizar-se, e ser exercida do mesmo modo que os homens costumam mostrar suas forças quando estão no máximo de sua ira. Oh! Então, qual será a consequência? O que será do pobre verme que a sofrerá? Que mãos serão fortes? E que corações suportarão? A que terrível, inexprimível e inconcebível profundidade de miséria as pobres criaturas objetos dela serão afundadas!
Considerem isso, vocês, que aqui estão hoje e ainda permanecem em um estado não regenerado. Que Deus executará o rigor de sua ira implica que a executará sem piedade. Quando Ele contemplar o extremo inexprimível do seu caso, e ver os seus tormentos como sendo tão vastamente desproporcionais às suas forças, e ver como suas pobres almas estão esmagadas, e afundadas, por assim dizer, em um mar infinito; então, não terá compaixão de vocês, não irá impedir a execução de sua ira, nem ao menos afrouxará Suas mãos. Não haverá moderação nem misericórdia de Sua parte, nem irá Deus, então, impedir seu vento impetuoso. Não se preocupará com o bem-estar de vocês, nem de forma alguma será cuidadoso de que não sofram muito de alguma outra maneira. Nada será aliviado, porque seja duro demais para vocês suportarem: “Pelo que também eu os tratarei com furor; os meus olhos não pouparão, nem terei piedade. Ainda que me gritem aos ouvidos em alta voz, nem assim os ouvirei.” (Ez 8:18) Agora, Deus está pronto a ter compaixão de vocês. Este é um dia de misericórdia, ainda podem clamar agora com algum encorajamento de que obterão misericórdia. Mas, uma vez que o dia da misericórdia tenha passado, seus mais lamentosos e dolorosos clamores e gritos serão em vão, pois estarão completamente perdidos e afastados de Deus, quanto a qualquer preocupação com o bem estar de vocês. Deus não lhes terá outro uso, a não ser fazer com que sofram a miséria. Continuarão a existir sem nenhum outro propósito; pois serão um vaso de ira preparado para a destruição; e não haverá outro uso para esse vaso, senão ser cheio de ira. Deus estará tão longe de apiedar-se de vocês quando clamarem a Ele, que apenas “rirá e zombará.” (Pv 1:25, 26)
Como são terríveis estas palavras, que são palavras do grande Deus: Pisei as uvas na minha ira; no meu furor, as esmaguei, e o seu sangue me salpicou as vestes e me manchou o traje todo.” (Is 63:3) Talvez seja impossível conceber palavras que tragam em si maiores manifestações destas três coisas, isto é, desprezo, ódio e ira de indignação. Se vocês clamarem a Deus por compaixão, Ele estará tão longe de se compadecer da sua dolorosa situação, ou mostrar-lhes a mínima preocupação ou favor que, ao contrário, apenas lhes esmagará com os pés. E embora saiba que não podem suportar o peso de sua onipotência esmagando vocês, contudo não se importará com isso, mas os esmagará sem piedade, até que sejam esmagados, e o sangue será salpicado sobre suas vestes a ponto de manchá-las por completo. Ele não apenas os odiará, mas os terá no maior desprezo: não será pensado em lugar algum apto para vocês, senão debaixo de seus pés, para serem pisados como a lama das ruas.
3. A miséria a que vocês estão expostos é a que Deus infligirá com o propósito de mostrar qual é a ira de Jeová. Deus dispôs em seu próprio coração mostrar a anjos e homens tanto a excelência de seu amor quanto a horror de sua ira. Às vezes, os reis terrenos se inclinam a mostrar como é terrível a ira deles, por meio de extremos castigos que executam naqueles que os provocam. Nabucodosor, aquele poderoso e soberbo monarca do império caldeu, se dispôs a mostrar sua ira quando se enfureceu contra Sadraque, Mesaque e Abede-Nego; e deu ordens para que a fornalha de fogo ardente fosse aquecida sete vezes mais do que antes. Sem dúvidas, as chamas foram levadas ao máximo da fúria que a arte humana poderia induzi-las. Mas o grande Deus também está disposto a mostrar sua ira, e magnificar sua terrível majestade e grande poder nos sofrimentos extremos de seus inimigos: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição. (Rm 9:22)
E, visto que este é seu desígnio, o que já determinou, isto é, mostrar como é terrível sua ira não restringida, a fúria e a cólera de Jeová, ele o fará e levará a cabo. Haverá algo a ser realizado e feito que será terrível para quem o testemunhar. Quando o grande e irado Deus houver se levantado e executado sua terrível vingança contra os pobres pecadores, e os miseráveis estiverem de fato sofrendo o peso e poder infinitos de sua indignação, então ele chamará o universo inteiro para contemplar essa terrível majestade e grande poder que deve ser visto então: “Batei no peito por causa dos campos aprazíveis e por causa das vinhas frutíferas.  Sobre a terra do meu povo virão espinheiros e abrolhos, como também sobre todas as casas onde há alegria, na cidade que exulta. O palácio será abandonado, a cidade populosa ficará deserta; Ofel e a torre da guarda servirão de cavernas para sempre, folga para os jumentos selvagens e pastos para os rebanhos.” etc. (Is 32:12-14)
Assim ocorrerá a vocês, que estão nesse estado de não convertidos, se nele persistirem; o poder infinito, a majestade e terror do Deus onipotente será magnificado sobre vocês, na força inefável de seus tormentos. Serão atormentados na presença dos santos anjos, e na presença do Cordeiro; e quando estiverem nesse estado de sofrimento, os gloriosos habitantes do céu se adiantarão e contemplarão o terrível espetáculo, para que vejam em que consiste a ira e fúria do Todo-Poderoso; e quando tiverem visto, se prostrarão e adorarão essa grande majestade e  poder: E será que, de uma Festa da Lua Nova à outra e de um sábado a outro, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o SENHOR. Eles sairão e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a carne. (Is 66:23)
4. É uma ira eterna. Será terrível sofrer esta ira e fúria do Deus todo-poderoso por um momento, mas vocês devem sofrê-la eternamente. Não haverá fim para esta miséria horrível e extrema. Quando olharem adiante, verão uma longa eternidade, uma jornada infindável adiante de vocês, que engolirá seus pensamentos e confundirá suas almas; e se desesperarão de qualquer espécie de libertação, fim, ou de qualquer mitigação ou alívio. Saberão que deverão suportar longas eras, milhões de milhões de eras, em luta e conflito com esta poderosa vingança impiedosa; e então, quando isso acontecer, quando muitas eras realmente passarem desse modo, saberão que isso tudo não representa senão um ponto em relação ao que resta. De modo que o castigo de vocês será de fato infinito. Ó, quem pode expressar qual será o estado de uma alma em tais circunstâncias! Tudo o que podemos dizer a esse respeito não dá senão uma vislumbre fraco e imperfeito daquilo que é inexprimível e inconcebível: pois “quem conhece o poder da ira de Deus?
Como é terrível o estado dos que estão diariamente e a toda hora em perigo desta grande ira e infinita miséria! Mas este é o desastroso caso de cada alma nesta congregação que ainda não nasceu de novo, ainda que seja moral e rigorosa, sóbria e religiosa. Ó, considere isso, quer seja jovem ou velho! Há razão para pensar que há muitos agora, nesta congregação, ouvindo este discurso, que serão objetos desta mesma miséria por toda a eternidade. Não sabemos quem são, ou os bancos onde estão assentados, ou que pensamentos agora têm. Pode ser que estejam agora relaxados, e ouçam tudo isso sem muita preocupação, e se gabem que não sejam essas pessoas, prometendo a si mesmos que escaparão. Se soubéssemos que há uma pessoa, apenas uma, em toda a congregação, que deve ser objeto dessa miséria, como seria terrível pensar nisso! Se soubéssemos quem era, que visão terrível seria para tal pessoa! Como seria poderoso o clamor lamentável e amargo que o resto da congregação lançaria por ela! Mas, em vez de um, não é provável que muitos se lembrem deste discurso no inferno? E seria por demais maravilhoso se alguns dos que aqui se encontram agora devam estar no inferno em pouco tempo, talvez antes que o ano se acabe? E não seria incrível se algumas pessoas, que agora estão assentadas em alguns dos bancos desta igreja, saudáveis, tranquilas e seguras, estejam lá amanhã de manhã. Aqueles de vocês que persistirem até o fim em um estado natural, que se mantiveram por muito tempo fora do inferno, lá estarão em pouco tempo! A sua condenação não dorme; virá rapidamente, e provavelmente, muito repentinamente, sobre muitos de vocês. Há razão para se maravilharem que não estejam agora mesmo no inferno. Esse certamente é o caso de alguns a quem conheceram e viram, que nunca mereceram o inferno mais do que vocês, e que até aqui pareciam ter tanta chance de estar vivos como vocês. A esperança deles se foi; estão chorando em extrema miséria e perfeito desespero. Mas aqui estão vocês, na terra dos vivos e na casa de Deus, e com oportunidade de obter a salvação. O que não dariam essas pobres e desesperadas almas condenadas por uma oportunidade de um dia como agora vocês têm?
E agora têm uma oportunidade extraordinária, um dia em que Cristo abriu largamente a porta da misericórdia, e de pé chama e clama em alta voz aos pobres pecadores. Um dia em que muitos se reúnem a ele, e se esforçam pelo reino de Deus. Muitos vêm diariamente do oriente, ocidente, norte e sul; muitos que outrora estiveram nas mesmas condições miseráveis em que vocês se encontram, agora estão em um feliz estado, com seus corações cheios de amor por aquele que os amou, e os lavou dos seus pecados em seu próprio sangue, e regozijam-se na esperança da glória de Deus. Como é terrível ser deixado para trás em tal dia! Ver tantos festejando, enquanto vocês sofrem e perecem! Ver tantos se regozijando e cantando alegres cantos de coração, enquanto vocês tem razão para prantear pela tristeza do coração, e ulular pela tristeza de espírito! Como podem descansar um só momento em tal condição? As suas almas não são tão preciosas quanto às dos cidadãos de Suffield, que estão dia após dia se reunindo a Cristo?
Não há muitos aqui que viveram por muito tempo no mundo, e até hoje não nasceram de novo? E estão por esse motivo alienados da comunidade de Israel, e nada fizeram enquanto viveram senão entesourar ira para o dia da ira? Ó, senhores, a situação de vocês é, de modo especial, extremamente perigosa. A sua culpa e dureza de coração é grande em extremo. Não veem vocês como a maior parte dos de sua idade já faleceram e partiram, na atual dispensação notável e maravilhosa da misericórdia de Deus? Vocês precisam considerar o seu caso, e despertar completamente do sono. Vocês não podem suportar a fúria e ira do Deus infinito.
E vocês, rapazes e moças, negligenciarão este precioso tempo que agora desfrutam, quando tantos de sua idade estão renunciando às vaidades juvenis e ajuntando-se a Cristo? Vocês, em especial, agora têm uma oportunidade extraordinária; mas se a negligenciarem, logo acontecerá com vocês o mesmo que com aquelas pessoas que gastaram os preciosos dias de sua juventude no pecado, e agora vieram a dar um terrível passo na cegueira e endurecimento.
E vocês, crianças, que ainda não são convertidas, não sabem que estão indo para o inferno, suportar a terrível ira desse Deus, que agora está irado com vocês noite e dia? Vocês se contentarão em serem filhas do diabo, quando tantas outras crianças na nossa terra estão sendo convertidas, e tornando-se as santas e felizes crianças do Rei dos reis?
E que todos os que ainda se encontram fora de Cristo, pendurados sobre o abismo do inferno, quer sejam velhos e velhas, de meia idade, ou jovens, ou crianças, agora ouçam os altos chamados da palavra e da providência de Deus. Este ano aceitável do Senhor, um dia de tão grande favor para alguns, sem dúvidas será dia de vingança igualmente notável para outros. O coração dos homens endurece e suas culpas aumentam rapidamente em dias como estes, se negligenciarem suas almas; e jamais houve época de tão grande perigo de tais pessoas serem entregues à dureza de coração e cegueira de mente. Deus parece agora estar ajuntando rapidamente seus eleitos em todas as partes da nação; e é provável que a maior parte dos adultos que alguma vez serão salvos, sejam atraídos em pouco tempo, e que será como foi no grande derramamento do Espírito sobre os judeus nos dias dos apóstolos. Os eleitos serão salvos e os demais  serão cegos. Se isso ocorrer a vocês, amaldiçoarão eternamente este dia, e o dia em que nasceram, por terem visto o tempo de derramamento do Espírito de Deus, e desejarão ter morrido e ido ao inferno sem tê-lo visto. Agora, sem dúvidas, ocorre o mesmo que nos dias de João Batista; o machado se encontra de modo extraordinário posto na raiz das árvores, e toda árvore que não produz bons frutos, será cortada e lançada no fogo.
Portanto, que todos os que estão fora de Cristo, agora acordem e fujam da ira do porvir. A ira do Deus Todo-Poderoso agora, sem dúvidas, está suspensa sobre grande parte desta congregação. Que todos fujam de Sodoma: “apressem-se e fujam por suas vidas, não olhem para trás, escapem para a montanha, para que não sejam consumidos.



[i] No original, flatters himself. O sentido, Segundo o Oxford English Dictionary é: inspirar-se com esperança, geralmente sem bases seguras. (N. T.)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

ESFORÇANDO-SE PELO REINO DOS CÉUS (1 de 4)

Lucas 16:16 “A Lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele.
       Nessas palavras, podem-se observar duas coisas:
       Primeiro: em que consistia a obra e ofício de João Batista, isto é, em pregar o reino de Deus, preparar o caminho para sua introdução como sucessão da lei e dos profetas. Por Lei e Profetas, na passagem, parece se ter em vista a velha dispensação do Antigo Testamento, que foi recebida de Moisés e dos profetas.
       É dito que vigoraram até João. Não que as revelações dadas por eles estejam fora de uso desde então, porém a condição da igreja fundada e regulada, sob Deus, por eles, a dispensação da qual eram os ministros e de que a igreja dependia majoritariamente para receber sua luz, continuou plenamente até João. Ele pioneiramente começou a introduzir a dispensação do Novo Testamento, o estado evangélico da igreja, que com suas bênçãos e privilégios gloriosos, espirituais e eternos é frequentemente chamado de reino dos céus, ou reino de Deus. João Batista pregou que o reino de Deus estava próximo. “Arrependei-vos”, dizia, “porque o reino de Deus está próximo”. “Desde esse tempo” diz Cristo, “vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus”. Primeiro João Batista o pregou, depois Cristo e seus discípulos pregaram o mesmo: “Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.” (Mt 4.17) Da mesma forma, os discípulos foram instruídos a pregar e a dizer: “e, à medida que seguirdes, pregai que está próximo o reino dos céus.” (Mt 10.7)
       Não foi João Batista, mas Cristo quem trouxe plenamente e de fato estabeleceu este reino de Deus. Mas ele, como precursor de Cristo, para preparar o caminho diante dele, fez a primeira coisa feita em direção a sua inauguração. A antiga dispensação foi abolida e a nova trazida gradualmente, como a noite progressivamente cessa, dando lugar ao crescente dia que a sucede. Primeiro, surge a estrela da manhã. Depois, segue-se a luz do sol, mas, a princípio, foscamente refletida no amanhecer do dia. Mas essa luz fica mais forte e brilha mais e mais, e as estrelas que serviam para a luz durante a noite precedente gradualmente se apagam, e suas luzes cessam, sendo agora desnecessárias até que, afinal, o sol surge e ilumina o mundo por sua própria luz direta, que fica mais forte à medida que sobe no horizonte, até que a própria estrela da manhã gradualmente desaparece. Isso condiz com o que João fala de si próprio em Jo 3.30: “Convém que ele cresça e que eu diminua.” João foi o precursor de Cristo e o arauto da luz do evangelho, do mesmo modo que a estrela da manhã é a precursora do sol. Ele teve o mais honroso ofício que quaisquer dos profetas. Os outros previram a vinda de Cristo, João o revelou como já vindo e teve a honra de ser o servo que veio imediatamente antes dele, e de fato o introduziu e foi mesmo o instrumento relacionado à sua solene inauguração, ao batizá-lo. Foi o maior dos profetas que veio antes de Cristo, assim como a estrela da manhã é a mais brilhante (Mt 11.11). Veio para preparar os corações dos homens para receber esse reino de Deus que Cristo estava prestes a revelar e erigir mais plenamente: “e habilitar para o Senhor um povo preparado” (Lc 1.17).
       Segundo: podemos observar em que consistiu seu sucesso, isto é, no fato de que, desde que iniciou seu ministério, todo homem se esforçava pelo reino de Deus que ele pregava. A grandeza do seu sucesso aparecia em duas coisas:
       1. Na generalidade dele com respeito aos objetos ou às pessoas em quem o sucesso se mostrava: todo homem. Esse é um termo de universalidade, mas não pode ser tomado como universal com respeito aos indivíduos, mas aos tipos, da mesma forma como esses termos universais são usados com frequência nas Escrituras. Quando João apareceu, houve um espantoso derramamento do Espírito Santo acompanhando sua pregação. Um despertamento incomum e uma preocupação com a salvação aparecia na mente de todos os tipos de pessoas, mesmo nas mais improváveis e naquelas de quem menos se esperaria tal coisa. Por exemplo, os fariseus, que eram excessivamente orgulhosos e autossuficientes, convencidos de sua própria sabedoria e justiça, que se encaravam como mestres e desprezavam que os ensinassem. E os saduceus, uma súcia de infiéis que negavam a ressurreição, anjos, espíritos, ou qualquer estado futuro. De modo que o próprio João parece surpreso em vê-los virem a ele, com tamanha preocupação por sua salvação, como em Mateus 3. 7: “Vendo ele, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” E, além desses, os publicanos, que eram dos tipos mais infames, vinham a ele inquirindo acerca do que deviam fazer para ser salvos. E os soldados que sem dúvida eram pessoas profanas, libertinas e dissolutas, faziam o mesmo questionamento: “Foram também publicanos para serem batizados e perguntaram-lhe: Mestre, que havemos de fazer? (Lc 3.12) “Também soldados lhe perguntaram: E nós, que faremos? E ele lhes disse: A ninguém maltrateis, não deis denúncia falsa e contentai-vos com o vosso soldo.” (Lc 3.14)
       2. Seu sucesso aparecia na maneira em que seus ouvintes buscavam o reino de Deus: esforçavam-se por ele. Em outro lugar é dito que eram violentos pelo reino dos céus, e o tomavam pela força. “E, desde os dias de João Batista até agora, se faz violência ao Reino dos céus, e pela força se apoderam dele.” [ARC]
       A doutrina que observo a partir dessas palavras é a seguinte:

Compete a todos que quiserem obter o reino de Deus esforçar-se por ele.

Ao discursar sobre esse assunto, eu:
       Primeiro: mostrarei qual é o modo de buscar a salvação que parece ser indicado na expressão esforçar-se pelo reino de Deus.
       Segundo, dar as razões por que compete a todos que quiserem obter o reino de Deus buscá-lo desse modo. Então, farei uma aplicação.
       I. Mostrarei que modo de buscar a salvação parece ser denotado por “esforçar-se pelo reino de Deus.”
       1. Essa expressão implica força de desejo. Em geral, os homens que vivem sob a luz do evangelho -e que não são ateus - desejam o reino de Deus, isto é, desejam ir para o céu e não para o inferno. A maior parte deles, porém, não está muito preocupada com isso, ao contrário, vive uma vida segura e descuidada. E alguns que estão muitos graus acima desses, estando sob os despertamentos do Espírito de Deus, ainda assim não estão se esforçando pelo reino de Deus. Mas, daqueles de quem se pode verdadeiramente afirmar isso, têm fortes desejos de sair de sua condição natural e obter um interesse em Cristo. Têm tal convicção da miséria do seu estado presente e da extrema necessidade de se obter um melhor que suas mentes estão, por assim dizer, possuídas e absortas em cuidados a esse respeito. Obter a salvação lhes é o desejo acima de todas as coisas no mundo. Esse cuidado é tão grande que em grande parte eclipsa os outros. Outrora, costumavam ter o fluxo de seus desejos por outras coisas, ou pode ser que estivessem divididos entre uma e outra. Mas quando vieram a atender à expressão no texto de esforçar-se pelo reino de Deus, essa preocupação prevaleceu acima de todas as outras. Tornou-as inferiores e, de certa maneira, monopolizou a preocupação da mente. Essa busca da vida eterna deve não apenas ser uma preocupação que rivaliza com outras em nossas almas, mas a salvação deve ser buscada como a única coisa necessária (Lc 10. 42) e como a única desejada (Sl 27. 4).
       2. Esforçar-se pelo reino dos céus denota sinceridade e firmeza de resolução. Deve haver força de resolução, acompanhada de força de desejo, como havia no salmista, no lugar há pouco referido: “Uma coisa peço ao SENHOR, e a buscarei”. A fim de que haja total engajamento da mente nesse assunto, ambos devem coexistir. Além do desejo pela salvação, deve haver uma sincera resolução nas pessoas para buscarem esse bem tanto quanto esteja em seu poder. Devem fazer tudo o que, no uso da máxima força, estiver ao seu alcance para atender a cada dever e resistir e militar contra toda forma de pecado, e em persistir nessa busca.
       Duas coisas são necessárias na pessoa para que tenha forte resolução: deve haver um senso da grande importância e necessidade da misericórdia buscada, e um senso da oportunidade de obtê-la, ou o encorajamento de buscá-la. 
       A força de resolução depende do senso que Deus dá no coração a respeito dessas coisas. Pessoas que não têm esse senso podem parecer a si mesmas resolutas. Podem, por assim dizer, forçar uma promessa a si mesmas e dizer consigo: “Buscarei enquanto eu viver, não descansarei enquanto não obtiver.” Mas nada fazem senão enganar a si mesmas. Seus corações não estão comprometidos, nem tomam essas resoluções como pensam que fazem. É mais uma resolução da boca que do coração, pois este não está fortemente inclinado a cumprir o que a boca diz. A firmeza de resolução reside na plenitude de disposição do coração em fazer o que está resolvido a fazer. Os que se esforçam pelo reino de Deus têm disposição de coração para fazer tudo o que for exigido e que esteja ao seu alcance, e nisso persistir. Têm não apenas sinceridade, mas constância de resolução. Não buscam com coração inconstante, por turnos ou acidentes, aqui e ali, mas a inclinação constante da alma é, se possível, obter o reino de Deus.
3. Por esforçar-se pelo Reino de Deus tem-se em mente a grandeza de esforço. É dito em Eclesiastes 9:10 que “tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças.” E essa é a consequência natural e necessária das duas coisas anteriormente mencionadas. Onde há força de desejo e firmeza de resolução haverá esforços correspondentes. Pessoas assim comprometidas em seus corações “se esforçarão por entrar pela porta estreita” e serão violentas pelos céus. Sua prática será conforme o conselho do sábio em Provérbios 2, no início: “Filho meu, se aceitares as minhas palavras e esconderes contigo os meus mandamentos, para fazeres atento à sabedoria o teu ouvido e para inclinares o coração ao entendimento, e, se clamares por inteligência, e por entendimento alçares a voz, se buscares a sabedoria como a prata e como a tesouros escondidos a procurares, então, entenderás o temor do SENHOR e acharás o conhecimento de Deus.” Aqui, a sinceridade no desejo e a firmeza de resolução são significadas por inclinar o ouvido à sabedoria e aplicar o coração ao entendimento, e a grandeza de esforço é denotada por clamar por conhecimento e levantar a voz por entendimento, buscá-lo como a prata, e procurá-lo como por tesouros escondidos. Esses desejos e resoluções e esses esforços andam juntos.
4. Esforçar-se pelo Reino dos céus implica em compromisso e prontidão que se relacionem diretamente à questão de se obter o reino de Deus. As pessoas podem encontrar-se em grande exercício e aflição de mente com relação ao estado de suas almas. Seus pensamentos podem estar grandemente comprometidos e tomados por assuntos de natureza espiritual, e ainda assim não estarem se esforçando pelo reino dos céus nem em direção a ele. O exercício de suas mentes não está diretamente relacionado à obra de buscar a salvação, em uma diligente atenção aos meios que Deus apontou para fazê-lo, mas em alguma outra coisa que vai além de seus interesses. Pode ser sobre os decretos e propósitos secretos de Deus, escrutinizando-os, buscando por sinais pelos quais possam determinar, ou ao menos conjecturar, quais sejam eles antes que Deus os faça conhecidos por suas realizações. Elas afligem suas mentes com temores de que não sejam eleitas, ou de que tenham cometido o pecado imperdoável, ou de que seu dia tenha passado e que Deus as tenha entregado à dureza judicial e final e jamais pretenda lhes mostrar misericórdia, sendo-lhes, portanto, inútil buscar a salvação. Ou então se confundem acerca da doutrina do pecado original, e outras doutrinas misteriosas da religião que estão acima de suas compreensões. Muitas pessoas que parecem estar em grande aflição acerca do estado eterno futuro se aprofundam em coisas semelhantes a essas que somente as deixam perplexas. Quando isso acontece, ainda que estejam muito preocupadas e comprometidas em suas mentes, não se pode dizer que estejam se esforçando pelo Reino de Deus, uma vez que seu exercício não está em seu dever, e sim naquilo que serve de obstáculo a ele. Se são violentas, apenas trabalham violentamente para confundir-se e colocar obstáculos em seus próprios caminhos. Elas não andam para frente. Ao invés de progredir, nada fazem senão perder tempo e, o que é pior, ao invés de lutar com os gigantes que estão no caminho para impedi-las de entrar em Canaã, gastam seus tempos e esforços brigando com as sombras que aparecem às margens da estrada.
       Logo, não podemos julgar o grau de esperança do caminho em que alguém se encontra, ou da sua probabilidade de sucesso em buscar a salvação, apenas pela grandeza da preocupação e aflição em que se encontram. Muitos têm desnecessárias aflições, sem as quais passariam muito melhor. Assim ocorre com frequência a pessoas tomadas pela indisposição da melancolia, de onde o adversário das almas costuma ganhar muito terreno. Porém, há pessoas no caminho mais provável de se obter o reino dos céus, quando o intento de suas mentes, e o engajamento de seus espíritos, está direcionado ao seu trabalho apropriado na matéria, e a inclinação total de suas almas é atender os meios de Deus, e fazer o que ele ordena e orienta. O apóstolo diz em 1 Co 9:26: “Assim luto, não como desferindo golpes no ar.” Nosso tempo é curto o suficiente. Há dificuldades reais e inimigos o suficiente para as pessoas encontrarem, e empregarem com eles todas as forças. Elas não precisam gastá-las lutando com fantasmas.
5. Por esforçar-se pelo reino de Deus é denotado um rompimento com a oposição e as dificuldades. Há na expressão um claro alerta de dificuldade. Se não houvesse oposição e o caminho fosse claro e aberto, não haveria necessidade alguma de se esforçar para prosseguir. Aqueles, portanto, que estão se esforçando pelo reino de Deus prosseguem com tal ousadia que rompem com as dificuldades que estão no seu caminho. Estão tão sedentos pela salvação que as coisas que desencorajam os outros e os detêm, fazendo-os retroceder, não lhes impedem, mas passam por elas. A resolução das pessoas pelo céu deve ser tal que, sehouver meios de obtê-lo, elas o obterão. Sejam esses meios difíceis ou fáceis, favoráveis ou não, se forem requisitos para a salvação, elas se ocuparão deles. Quando algo estiver presente a ser feito, a pergunta não deve ser: “É difícil ou fácil? É conforme minha inclinação e interesse carnal ou contrário a eles?”; mas sim: “É um meio requerido para obter um interesse em Jesus Cristo e na salvação eterna?” Assim o apóstolo em Fl 3:11, diz: “para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos.” Ele nos diz, no contexto, por quais dificuldades passou, tendo sofrido a perda de todas as coisas; estava voluntariamente conformado até mesmo à morte de Cristo, ainda que isso fosse acompanhado com tormento e ignomínia extremos.
  Aquele que está se esforçando pelo reino de Deus comumente encontra no caminho muitas coisas que são contrárias às suas inclinações naturais. Mas não é impedido pela cruz que está diante de si, porém a toma e a carrega. Suponhamos que haja algo que seja seu dever fazer, que, porém, seja contrário a seu temperamento natural, e por algum motivo seja enfadonho para ele. Suponha algo que não possa fazer sem que haja prejuízo ao seu status, ou que perceba que parecerá exótico e estranho aos olhos dos outros, e que o exporá ao ridículo e à reprovação; ou algo que será ofensivo a um conhecido e atrairá a sua má vontade, ou algo que será muito oposto ao seu próprio apetite carnal – ele se esforçará para vencer essas dificuldades. Tudo o que descobrir ser um peso que o impeça nessa carreira lançará fora de si, ainda que seja o peso de ouro ou pérolas, sim, seja até mesmo a mão ou o pé direitos que o ofendem, ele os arrancará, e não hesitará em arrancar o olho direito com suas próprias mãos. Essas coisas são dificuldades insuperáveis para os que não se encontram completamente comprometidos na busca da salvação. São pedras de tropeço que jamais conseguem sobrepujar. Mas isso não ocorre com aquele que está se esforçando pelo reino de Deus. Aquelas coisas com as quais, antes que fossem completamente despertos de sua segurança [carnal], costumavam ter longos palavreados e disputas com sua própria consciência, empregando razão carnal para inventar argumentos e meios de desculpa – agora ele as rejeita. Põe termo a essas disputas e raciocínios infindáveis e empurra violentamente através de toda dificuldade. O que quer que esteja no caminho, o céu é o que ele deve obter e obterá, não que o possa fazer sem dificuldade, mas se for possível [o fará]. Ele se encontra com a tentação: o diabo está sempre sussurrando em seus ouvidos, pondo distrações diante dele, exagerando as dificuldades do trabalho que tem pela frente, dizendo-lhe que este é insuperável e que jamais o conquistará, e tenta tudo o que for possível para desencorajá-lo. Ainda assim ele se esforça. Deus deu e mantém tal avidez de espírito pelo céu que o diabo não interromperá seu curso. Ele não tem tempo livre para emprestar o ouvido ao que o diabo tem a dizer.
Prossigo agora:
II. Para mostrar por que o reino do céu deve ser buscado desse modo. Deve ser buscado assim:
1. Devido à extrema necessidade que temos desse reino. Temos uma necessidade premente dele, pois sem o céu estamos completa e eternamente perdidos. Fora do reino de Deus não há segurança, não há lugar protegido. Esta é a única cidade de refúgio na qual estaremos seguros do vingador que persegue os ímpios. A vingança de Deus perseguirá, prevalecerá e destruirá eternamente os que não estiverem nesse reino. Todos os que estiverem sem este selo serão engolidos na inundação de um dilúvio ardente de ira. Podem ficar à porta e bater, clamando: “Senhor, Senhor, abra-nos!” Em vão. Serão rejeitados e Deus não terá compaixão deles. Serão deixados para sempre sem Ele. Sua terrível vingança os abaterá. Os demônios os possuirão e todo mal virá sobre eles; não haverá ninguém para se compadecer ou ajudar. Sua situação será completamente desesperadora e infinitamente dolorosa. Será um caso perdido, quando todas as ofertas de misericórdia e expressões da bondade divina forem finalmente retiradas, e toda esperança estiver perdida. Deus não terá nenhuma espécie de preocupação com o seu bem-estar. Não terá cuidado em salvá-los de qualquer inimigo ou males. Mas ele próprio será o terrível inimigo deles, e executará sua ira com fúria, e tomará vingança de uma maneira inexprimivelmente terrível.  Como estarão perdidos e arruinados os que estiverem nesse estado! Serão afogados na perdição, infinitamente mais profunda do que possamos imaginar. Pois quem conhece o poder da ira de Deus [Sl 90:11]? E quem conhece a miséria do pobre verme sobre quem essa ira é executada sem misericórdia?
2. Devido à exiguidade e incerteza da oportunidade de entrar nesse reino. Quando alguns dias se passarem, toda oportunidade desaparecerá. Nosso dia é limitado. Deus fixou nossos limites e não o conhecemos. Enquanto as pessoas estiverem fora desse reino estão em perigo a cada momento de serem tomadas pela fúria. Não sabemos o momento em que passaremos dessa linha, além da qual não há obra, projetos, conhecimento ou sabedoria. Portanto devemos fazer o nosso dever com todas as nossas forças (Ec 9.10).
3. Devido à dificuldade de entrar no reino de Deus. Há inúmeras delas pelo caminho, de tipos que poucos vencem. A maior parte que tenta não tem resolução, coragem, ousadia e constância o suficiente, mas falham, desistem e perecem. As dificuldades são muitas e grandes demais para os que não se esforçam violentamente. Nunca prosseguem, mas ficam pelo caminho, voltam, e caem em ruína. Mt 7.14: “Porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela. Lc 13.24: “Respondeu-lhes: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão.”
4. Devido à possibilidade de obtê-lo. Embora seja acompanhada de tanta dificuldade, contudo, não é coisa impossível: “Arrepende-te, pois, da tua maldade e roga ao Senhor; talvez te seja perdoado o intento do coração.” (At 8.22) “Disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade.” (2 Tm 2.25). Seja qual for o grau de pecado de alguém, e quaisquer que sejam suas circunstâncias, há, apesar de tudo, uma possibilidade de salvação. Ele próprio é capaz e Deus pode realizá-la e tem misericórdia suficiente para isso. E há provisão suficiente feita por Cristo, que Deus pode fazer em harmonia com a honra de sua majestade, justiça e verdade. De modo que não há falta nem de suficiência em Deus, nem de capacidade no pecador para que isso aconteça. O maior e mais vil dos pecadores, o mais cego e sugo, o de coração mais endurecido é um sujeito capaz da luz e graça salvadoras. Visto que há tamanha necessidade de obter o reino de Deus, e tempo tão escasso, e tamanha dificuldade, contudo, havendo a possibilidade, ela pode bem nos induzir ao esforço (Jn 3.8,9).
5. É adequado que o reino do céu seja buscado assim, devido à sua grande excelência. Estamos dispostos a buscar coisas terrenas, de valor trivial, com grande diligência e através de muitas dificuldades. Portanto, certamente nos interessa buscar com grande avidez o que for de valor e excelência infinitamente maior. E como Deus bem pode esperar e requerer de nós que o busquemos de tal modo, a fim de obtê-lo!
6. Tal maneira de buscar é necessária para preparar as pessoas para o reino de Deus. Tal avidez e profundidade de esforços é o meio ordinário que Deus usa para trazer as pessoas ao reconhecimento de si mesmas; a uma contemplação de seus próprios corações; a um senso de seu abandono e ao desespero de sua força e justiça própria. E esse comprometimento e constância em buscar o reino dos céus preparam a alma para recebê-lo mais alegre e agradecidamente, e a mais altamente prezá-lo e valorizá-lo quando obtido. De modo que é por misericórdia a nós, bem como para a glória de seu próprio nome, que Deus apontou essa busca ávida como sendo o modo pelo qual concede o reino do céu.
APLICAÇÃO
O uso que farei dessa doutrina é o de exortação a todas as pessoas que estão sem Cristo para que se esforcem pelo reino de Deus. Alguns de vocês se perguntam quanto ao que farão? Vocês parecem desejar saber de que maneira a salvação deve ser buscada e qual o modo mais provável de obtê-la. Vocês ouviram agora a maneira que a santa Palavra de Deus instrui. Alguns estão buscando, mas não se pode dizer que estejam se esforçando pelo reino dos céus. Há muitos que no passado buscaram a salvação, mas não dessa maneira, e nunca a obtiveram, mas estão agora no inferno. Alguns a buscaram ano após ano, mas falharam e no fim pereceram. Foram surpreendidos com a ira divina e agora sofrem a terrível miséria da condenação, e não têm descanso nem de dia nem de noite, não tendo mais oportunidade de buscar, mas devem sofrer e ser miseráveis por todas as infindáveis eras da eternidade. Seja exortado, portanto, a não buscar a salvação do modo que eles buscaram, mas que o reino do céu sofra violência por você.
Aqui, primeiramente responderei a uma ou duas objeções, e então prosseguirei para dar algumas instruções de como se esforçar pelo reino de Deus.
Objeção 1: Alguns podem se apressar em dizer: “Não podemos fazer por nós mesmos. Essa força de desejo e firmeza de resolução de que tenho falado estão fora de alcance. Se eu me esforçar para ser resoluto e buscar com comprometimento de espírito, descobrirei que falharei. Meus pensamentos estão no presente longe da questão, sinto-me apático e minha resolução relaxada, não importa o que faça.
Resposta:
1. Embora o comprometimento de mente não esteja imediatamente em seu poder, contudo a consideração do que foi dito até aqui acerca da necessidade dele pode ser um meio de despertá-lo. É verdade, as pessoas jamais estarão plenamente comprometidas nessa questão a menos que seja pela influência de Deus. Porém, Ele influencia pessoas usando meios. As pessoas não são incitadas a uma completa seriedade sem algumas considerações que as movam em direção a isso. E se nada mais for feito a não ser sensibilizar as pessoas da necessidade da salvação, e de quão escasso e incerto é o tempo, mostrando-lhes, contudo, que têm uma oportunidade e que há possibilidade de obtê-la, nada mais precisarão para que se comprometam e decidam nessa matéria. Se vemos as pessoas relaxadas e indecisas é porque não consideraram suficientemente essas coisas.
2. Ainda que forte desejo e resoluções de mente não estejam em seu poder, contudo as dores do esforço estão. Está em seu poder sofrer no uso dos meios, na verdade, sofrer bastante. Você pode se afligir bastante e ser diligente em vigiar o coração e lutar contra o pecado. Ainda que haja todo tipo de corrupção no coração, continuamente pronta para operar, contudo você pode, a duras penas, vigiar e lutar contra essas corrupções. Está em seu poder com grande diligência responder à questão do seu dever relacionado a Deus e ao próximo. Está em seu poder atender a todas as ordenanças e a todos os deveres públicos e privados da religião, e isso com todas as forças. Seria uma contradição supor que alguém não possa fazer essas coisas com todas as forças que tem, embora não possa fazê-las com mais força do que tem. A apatia e inércia do coração e a indolência de disposição não impedem os homens de serem capazes de se esforçar, ainda que os impeçam de exercer suas vontades. Uma das coisas onde pode se mostrar o seu labor é na luta contra sua própria apatia. O fato de os homens terem o coração morto e inerte não justifica que não possam se esforçar; longe disso, é o que dá ocasião para o esforço. Essa é uma das dificuldades no caminho do dever, contra a qual as pessoas devem lutar, e que dá ocasião à luta e ao labor. Se não houvesse dificuldades acompanhando a busca da salvação não haveria ocasião para a luta, uma pessoa não teria nada contra o que lutar. Há, de fato, uma enorme porção de dificuldade atendendo a todos os deveres requeridos daqueles que querem obter o reino dos céus. É extremamente difícil guardar os pensamentos; é muito difícil considerar coisas da maior importância de maneira séria, ou com bons propósitos. É difícil ouvir, ou ler, ou orar com atenção. Mas o fato de serem difíceis não justifica que não se deva lutar com elas, ao contrário, deve-se lutar exatamente porque são difíceis. Pois o que há senão dificuldades para aquele que deve lutar ou brigar em qualquer assunto ou negócio? A prontidão de mente e a diligência de esforço tendem a promover uma à outra. Aquele que tem um coração sinceramente comprometido se esforçará; e o que é diligente e laborioso em todo dever provavelmente não demorará muito antes que descubra que a sensibilidade de seu coração e sinceridade de espírito [foram] grandemente aumentadas.
Objeção 2Alguns podem objetar que, se estiverem dispostos e se esforçarem grandemente estarão em perigo de confiar no que fazem; têm medo de fazer seu dever, pois temem tomá-lo como justiça [própria].
Resposta. Comumente não há um tipo de pessoa que busque [o reino dos céus] que confie mais no que faz do que os preguiçosos e apáticos. Ainda que todos os que buscam a salvação e ainda não foram objetos de completa humilhação de fato confiem em sua justiça própria, contudo alguns confiam mais plenamente que outros. Alguns, ainda que confiem em sua justiça própria, não estão satisfeitos com ela. E os que estão mais incomodados na sua autoconfiança (e, portanto, no caminho mais provável para se verem livres dela) não são dos tipos que procedem em um caminho negligente de busca, mas são os mais sinceros e plenamente comprometidos. Isso ocorre em parte por que desse modo a consciência é mantida mais sensível. Uma consciência desperta não descansará tão relaxadamente nos deveres morais e religiosos, como ocorre com a menos desperta. A consciência do buscador apático em grande medida ficará satisfeita e relaxada com suas próprias obras e realizações, porém quem está inteiramente desperto não pode ser acalmado ou pacificado com coisas semelhantes a essas. Nesse caminho, as pessoas ganham muito mais conhecimento de si e familiaridade com os próprios corações do que no caminho da busca negligente e descuidada, pois naquele têm muito mais experiência de si mesmas. É a experiência de nós mesmos e o descobrir de quem nós somos que Deus geralmente usa como o meio para nos afastar de toda autodependência. Mas não há caminho mais rápido para os homens adquirirem familiaridade consigo mesmos do que neste da ávida busca. Os que estão nesse caminho têm mais para se preocupar do que os outros, ao pensarem sobre seus pecados e vigiarem estritamente a si mesmos, e ao lidarem com seus próprios corações. Essas pessoas têm mais experiência de sua própria fraqueza do que aquelas que não exercem e testam sua força e, desse modo, irão em breve se ver mortas no pecado. Essa pessoa, embora tenha disposição para continuamente voar em direção à própria justiça, contudo em nada acha descanso; ela vaga de um lugar para outro, buscando algo para acalmar sua consciência inquieta. É levada de um refúgio para outro, da montanha para a colina, buscando descanso e não achando. Portanto, em breve descobrirá que não há descanso a ser achado, nem confiança a ser posta em nenhuma criatura.